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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Os maiores clássicos de Batman - Primeira parte

Como eu havia prometido, segue uma rápida reseha de algumas das mais importantes histórias de Batman já lançadas no Brasil. Não deixe de procurar no sebo mais perto da sua casa.

Vítimas inocentes
A história mostra Batman viajando a um país cujo nome lembra as repúblicas do leste europeu, para investigar a morte de um funcionário das indústrias Wayne, vítima de uma mina terrestre, e o desaparecimento de sua filha. Com roteiro de Dennis O’Neil e desenhos de Joe Staton. A história foi publicada originalmente em 1996 pela DC Comics, em parceria com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos e com o Fundo das Nações Unidas para a Infância e distribuída para milhões de crianças na Bósnia, América Central e Kosovo. O rendas pela comercialização da revista foram revertidas a entidades de combate às minas terrestres. A edição brasileira, lançada em 2003 pela Mythos Editora, reúne ainda uma série de informações sobre a campanha mundial pela erradicação de minas terrestres.


Absolvição
Batman empreende uma busca através de três continentes para achar uma mulher que dez anos antes havia sido responsável por um atentado às empresas Wayne. A personagem Jennifer Blake tenta encontrar o perdão para seu crime trabalhando como voluntária no atendimento de crianças e idosos na Índia. A história tem roteiro de J.M DeMatteis e desenhos de Brian Ashmore. Aliás, a arte desta revista é o seu ponto alto. Brian usa um jogo de luz e sombras que confere dramaticidade à narrativa. A edição brasileira foi lançada em 2005 pela Panini.

O Estigma do Batman
Uma inusitada história de Batman onde o homem morcego não aparece uma única vez. O roteiro de Christopher Golden e Tom Sniegoski apresenta um jovem com deficiência mental leve que vive um mundo de fantasia e se considera o próprio herói em pessoa. Para salvar seus amigos em perigo ele enfrenta as gangues do bairro e acaba espancado na rua. Além do roteiro criativo, o traço de Marshall Rogers é refinado, com um toque de humor. “O Estigma...” foi lançado no Brasil pela Mythos Editora em 2002.

O Messias
A história tornou-se um dos maiores clássicos de Batman. Lançada originalmente no Brasil em 1989, “O Messias” foi reeditada em 2007. O roteiro é assinado por Jim Starlin e a arte é de Bernie Wrightson. A história mostra o homem morcego enfrentando um fanático religioso que usa alucinógenos para subjugar uma legião de seguidores. O próprio Batman é submetido a elevadas doses de droga e se transforma em um corrompido seguidor do misterioso líder Blackfire. Messias revelou aos fãs uma face poucas vezes vista do herói.

Batman Ano 100
Publicada em dois volumes, a história do premiado Paul Pope e José Villarrubia mostra o personagem Batman ambientado em uma Gotham futurista, em 2039. Em um mundo totalitário, dominado por uma polícia psíquica, o homem de capa ressurge 100 anos depois da sua primeira aparição como símbolo de um passado de resistência. A revista foi lançada pela Panini e teve como mérito revelar aos leitores brasileiros o trabalho do fabuloso artista Paul Pope.

Batman Houdini
O maior mágico de todos os tempos se une ao maior de todos os detetives. Ambientada no ano de 1907, a história mostra o mágico e Batman juntos para encontra e prender o misterioso assassino de crianças nas ruas de Gotham. O roteiro é assinado por Howard Chaykin e John Francis Moore e os desenhos são de Mark Chiarello. A edição brasileira foi lançada em 1995 e se tornou um item de colecionador.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Uma chance à Paz

Um libelo em defesa da Paz. Esta é a melhor forma de definir o romance gráfico "Às Inimigo: um poema de guerra", do artista americano George Pratt. Lançada no Brasil em 1995 esta HQ se transformou em item de colecionadores e é, indiscutivelmente, uma das obras mais importantes da Arte Sequencial já lançada no País.

Para compor sua história, George Pratt aproveitou-se de um personagem já existente que havia sido criado por outro grande nome dos quadrinhos - Joe Kubert. O piloto alemão Hans Von Hammer surgiu em uma história de Kubert lançada em 1965. Conhecido como "Martelo do Inferno", pela frieza e destreza no ar, Hans tornou-se a mais termida máquina de guerra durante o primeiro confito mundial (quem quiser conhecer o piloto em ação pode conferir o livro "Às Inimigo", lançado no Brasil pela Ópera Gráphica).

Mas, no livro de Pratt, o piloto alemão não é mais o mesmo. Velho e sozinho em um asilo, Hans Von Hammer tornou-se um homem marcado pela guerra. Ao contrário do soldado frio, o velho Hans é agora um homem prestes a reencontrar a morte e que aprendeu que não há nada de belo ou heróico nas guerras. O livro vai encontrar o piloto no ano de 1969 durante uma série de entrevistas a um jornalista americano interessado em escrever a história dos grandes nomes da I Grande Guerra.

O jornalista, entretanto, não é um mero expectador. Ele também é um sobrevivente (da Guerra do Vietnã) que se vê perseguido pelos "fantasmas" do passado. Sua entrevista com Hans Von Hammer é apenas um pretexto para uma espécie de terapia ou catarse. O repórter busca no velho soldado alemão algo mais do que informação. Ele procura uma forma de aprender a livrar-se da sua dor...

Por meio da entrevista vamos conhecendo um pouco mais da "desconhecida" personalidade do "Às Inimigo" e episódios que deixariam marcas profundas no "inabalável" piloto alemão. Uma das mais belas passagens do livro é quando Hans fica ao lado de um soldado inimigo que está à beira da morte. O jovem ferido está cego e não consegue identificar seu inimigo (Hans tem uma perfeita pronúncia do inglês). O alemão se queda ao lado do soldado e o conforta nos últimos momentos.

A outra passagem marcante da HQ é a confraternização de Natal entre os exércitos em luta. A cena remete imediatamente à lembrança do clipe de uma música de Paul McCartney dos anos 1980 (ver clip abaixo)


Por alguns momentos os soldados aliados e alemães deixam as trincheiras e se encontram na "terra-de-ninguém" (espaço que fica entre os dois campos inimigos). A história verídica ocorreu no Natal de 1914. Por algumas horas de trégua não oficial os soldados beberam e cantaram juntos, jogaram partidas de futebol e compartilharam whisky, cigarros e chocolate. Existem registros de que confraternizações semelhantes teriam ocorrido novamente no natal de 1915 e na Páscoa de 1916.

Em uma entrevista concedida alguns anos atrás, George Pratt confessou que "Às Inimigo: um poema de Guerra" é o seu melhor trabalho: "É o meu preferido e foi o trabalho que me deu mais prazer. Mergulhei nesse livro com muito amor. Deram-me carta branca para fazer o que eu quisesse. Eu estava nervoso como se fosse a minha primeira história em quadrinhos." - afirma.

O traço de Pratt é inconfundível. Seu domínio sobre a aquarela impressiona. Ele consegue transmitir dinamismo, densidade, tensão... tudo ao mesmo tempo, num turbilhão de imagens.

"Às Inimigo..." é um trabalho que precisaria ser reeditado para as novas gerações, que dificilmente conseguirão encontrar um dos raros exemplares da edição de 1995. Fica a dica para quem gosta de frequentar sebos e feiras de antiguidades.

Confira neste documentário o próprio Pratt falando sobre o seu processo criativo:

Hiroshima - o Massacre em Quadrinhos


Na manhã do dia seis de agosto de 1945 Keiji Nakazawa brincava em sua escola, em Hiroshima (Japão), quando a Bomba Atômica foi lançada sobre a cidade. Ele tinha apenas seis anos e viu o pai e dois irmãos morrerem no incêndio que se seguiu à explosão. Keiji e a mãe conseguiram sobreviver. Mas as imagens de destruição ficaram marcadas em sua memória para sempre: pessoas com a pele derretendo de seus corpos, centenas de homens, mulheres e crianças se jogando no rio para tentar fugir aos incêndios que tomaram conta da cidade, prédios destruídos, corpos abandonados pelas ruas... Anos depois Keiji se tornaria um dos mais importantes artistas japoneses e sua obra mais famosa Hadashi no Gen (no Brasil a série foi traduzida como "Gen - Pés descalços") um dos mais aclamados quadrinhos já produzidos (no Japão os quadrinhos são chamados de Mangás) e um dos mais eloquentes manifestos já feitos em defesa da paz.

A história em quadrinhos que conta a saga de Gen Nakaoka, personificação de Keiji Nakazawa, começou a ser publicada no Japão em 1973 nas páginas da revista semanal Shonen Jump. Em pouco tempo "Gen - Pés descalços" se tornaria um obra de referência e leitura obrigatória para entender a tragédia dos ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki. O livro que reúne as páginas semanais do quadrinho foi traduzido para dezenas de idiomas e adotado como leitura obrigatória nas escolas do Japão e do próprio Estados Unidos.

Nakazawa conta que decidiu escrever a história - após anos de resistência em lembrar os horrores da bomba - quando ao cremar o corpo de sua mãe percebeu que, ao contrário do que geralmente ocorrem nestas cerimônias, os ossos haviam sido consumidos pelo fogo. "O césio radioativo tinha devorado o esqueleto de minha mãe, que foi reduzido a cinzas. A bomba atômica tinha tirado tudo de mim, até mesmo os ossos de minha mãe." diz o autor.

Um dos maiores feitos de Gen é dar ao leitor uma visão ampla do cotidiano da vida dos japoneses (em particular, da população de Hiroshima) antes e após a bomba. Pelo relato de Keiji sabemos, por exemplo, que nem toda a população da cidade foi atingida da mesma forma. Uma pequena elite continuou alheia à tragédia enquanto a imensa maioria do povo se viu obrigado a lutar por comida. Neste sentido, a narrativa que se extende por semanas após o lançamento da bomba, consegue ser tão chocante quanto a própria descrição do momento da explosão. Pessoas doentes, sem cabelos, com a pele tomada de feridas e vermes, vagavam pelas ruas, perdidas de suas famílias. A busca desesperada pela sobrevivência levava ao surgimento de quadrilhas especializadas em roubar alimentos para uso próprio e para manter o enorme mercado clandestino.

Outro grande mérito de Gen - Pés descalços é o de não cair no discurso fácil anti-americano (nada mais esperado em um livro que retrata os horrores do ataque nuclear). Nakazawa faz um consistente discurso pacifista e aponta suas críticas tanto aos Estados Unidos quanto ao militarismo do Império Japonês. "Eu odiei os Estados Unidos por terem usado a bomba atômica. O Japão já estava à beira da rendição. Por que os EUA lançaram a bomba em tais circunstâncias? E mais do que isso eu odiava os líderes japoneses que tinham levado o país à guerra", diz. "Não escrevi Gen simplesmente para denunciar a destruição causada pela bomba. Eu queria retratar o processo através do qual o povo japonês foi aprisionado num sistema imperial facista que exaltava o imperador e instigou a nação a uma guerra total", complementa.

A saga de Gen foi adaptada para a TV japonesa em uma novela e em uma animação. Confira abaixo.



















Batman precisa de um psiquiatra

Se alguém ainda tinha dúvida do estado de sanidade de Bruce Wayne, o diagnóstico agora é oficial: o herói de Gotham sofre de transtorno de estresse pós-traumático

não resolvido, além de seguidos episódios depressivos que não foram devidamente tratados. O parecer foi dado pelo psiquiatra espanhol Jesús Ramos, de um dos mais importantes hospitais de Madri.

O livro “Batman visto por um psiquiatra” foi publicado pela primeira vez em 2000 e reeditado no ano passado. Leitor de quadrinhos desde a infância e desenhista avançado, Jesús Ramos sempre foi fascinado pela figura do Homem-morcego. “Suas características são extremamente atrativas para qualquer psiquiatra. Entendi que meu interesse como leitor poderia estender-se à esfera profissional.” – diz o médico em uma entrevista publicada no site espanhol Diário Médico.

Profundo estudioso da vasta obra produzida em torno de Batman, Jesús Ramos reconstitui uma linha do tempo com os principais acontecimentos na vida de Bruce Wayne, desde a infância até a idade adulta. A partir da história do personagem o psiquiatra constrói seu perfil psicológico.

“Há elementos que nos podem levar a pensar que Bruce foi uma criança com altas capacidades e ao mesmo tempo pouco sociável. O personagem se encontra em um círculo psicológico viciado, com uma personalidade obsessiva que o faz agarrar-se a uma luta que não tem fim: a luta contra o mal em Gotham.”, afirma o autor.

“A armadura de morcego não é o seu único disfarce. O personagem vive disfarçado toda a sua vida; não apenas com a máscara de Batman, mas também como Bruce, que diante da sociedade mostra um caráter superficial para que ninguém descubra sua relação com o herói. Este fato distorce sua forma de lidar com o mundo. Nem como Batman, nem como Bruce Wayne ele consegue viver consigo mesmo.”

Jesús Ramos diz que se Bruce aparecesse em seu consultório, ele prescreveria: “Tratamento com antidepressivos acompanhado de sessões de psicoterapia para ajudar a elaborar seu conflito diante da morte dos pais.” E completa: “É uma pena que os roteiristas não lhe dêem opção de ir ao psiquiatra. Isto é o único que poderia salvá-lo”.