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sábado, 6 de agosto de 2011

O inferno Noir


 
“Deixai todas as esperanças, ó vós que aqui entrais”

A célebre frase fixada nos portais do Inferno marca uma das mais importantes obras da literatura universal: A Divina Comédia, de Dante Alighieri. O livro, escrito no início do século XIV (provavelmente entre 1304 e 1321), narra a aventura do próprio Dante pelo espaço além da vida: inferno, purgatório e paraíso. Em cada diferente momento da sua jornada, o autor – guiado sempre de perto pelo poeta Virgílio – encontra personagens famosos e anônimos submetidos a todo tipo de dor e flagelo: papas, tiranos, assassinos...

O primeiro círculo infernal é o Limbo, onde permanecem todas as almas que não escolheram seguir a Cristo, mas que foram virtuosas. É lá que Dante encontra Homero, Ovídio e Horácio três dos maiores escritores da história. No segundo círculo estão os luxuriosos que, por castigo, são submetidos a uma eterna tempestade de vento. O terceiro círculo é reservado aos gulosos que são flagelados por uma chuva putrefata e vigiados pelo mitológico cão de três cabeças, Cérbero. No quarto círculo estão os avarentos empurrando pesos enormes. No quinto ficam aqueles que foram tomados pelo ódio, imersos para sempre na lama ardente do Pântano do Estige.

Ao longo de nove diferentes ciclos, Dante vai identificando todos os diferentes pecados humanos e atribuindo para cada um deles um flagelo diferente. Estão no inferno os rabugentos e taciturnos; aqueles que não acreditam na vida após a morte; os bajuladores; os hipócritas; os blasfemadores; os suicidas; os astrólogos e videntes... e uma infinidade de outros pecadores.

A riqueza de detalhes com que Dante descreve sua viagem é impressionante. Nos vários níveis do Inferno, as almas pecadoras são submetidas a castigos inimagináveis: alguns são esfaqueados por toda a eternidade; outros atacados pela sarna ou envoltos em chamas; há aqueles que são obrigados a vestir pesadas roupas feitas de chumbo e ainda os que se vêem mergulhados em excrementos humanos...

É natural que uma das mais importantes obras da literatura universal e que explorou o maior mistério da humanidade– a vida após a morte – provocasse o interesse e a curiosidade de uma legião de estudiosos, leitores e expoentes de outras artes.
No universo da pintura, há expoentes como Gustave Doré, Eugene Delacroix, Bouguereau e uma infinidade de artistas que, desde a idade média, vem tentando traduzir em imagens o fantástico mundo de Dante

Dante em quadrinhos – Mais recentemente a Divina Comédia ganhou duas novas versões. E, desta vez, em quadrinhos. O NONA ARTE comenta aqui o trabalho do ilustrador americano Seymour Chwast que acaba de chegar ao Brasil pela Companhia das letras.

Seymour é fiel ao texto de Dante, mas extremamente ousado e inovador na concepção artística do livro. Assim como Dante colocou no inferno vários contemporâneos seus, Seymour procurou introduzir modernidade em sua releitura em quadrinhos: roupas modernas, mafiosos, lanchas motorizadas... e um Dante vestido como um detetive dos filmes noir em busca da verdade sobrenatural.

A maior revolução do artista, entretanto, está no seu traço. Seymour é reconhecido mundialmente com um dos maiores artistas comerciais em atividade. Seus trabalhos estão em capas de livros, rótulos de inúmeros produtos e museus. Ele consegue sintetizar páginas inteiras em um único desenho. Neste sentido, o trabalho de Seymour está longe de “esgotar” o conteúdo da Divina Comédia, mas é uma interpretação ágil e sintética para quem quer ter um primeiro contato com a obra do mestre italiano.



domingo, 10 de julho de 2011

A escola do medo e da desesperança


As aventuras de crianças e adolescentes nos bancos de escolas já foram retratadas em diversos clássicos da literatura universal. Livros como: O Ateneu (de Raúl Pompeia),  As Aventuras de Huckleberry Finn (de Mark Twain), Doidinho (de José Lins do Rego), Entre os muros da escola (de François Bégaudeau), O senhor das moscas (de Wiliam Golding), entre outros. São clássicos que mostram o ambiente escolar como uma pequena alegoria do mundo, com suas relações de poder e violência.



O mais novo lançamento da série Clássicos em HQ, da Editora Peirópolis, traz aos leitores um dos contos mais conhecidos do mestre Machado de Assis: Conto de Escola. Ambientado no Rio de Janeiro da metade do século XIX, o conto foi publicado inicialmente no jornal Gazeta de Notícias, em 1884, entre o lançamento dos romances: Quincas Borba e Dom Casmuro. A história provoca a reflexão sobre as conseqüências do medo e do castigo e sobre o papel da escola na formação do caráter da criança.

No conto, Machado explora as lembrança de Pilar – o protagonista que nos conduz ao longo da narrativa em primeira pessoa. Por meio do narrador, conhecemos o professor Policarpo. Homem severo, com cinqüenta anos ou mais, que tinha sua escola em um sobrado onde ele habitava o andar inferior. Extremamente violento, como, aliás, era comum na época, Policarpo tinha sempre próximo a si uma palmatória redonda, de madeira, com cinco incrustações de metal e que era o horror de todas as crianças. O medo que o mestre provocava nas crianças vai criar a situação sobre a qual o conto discorre, e que envolve particularmente dois outros meninos (Raimundo, filho do professor Policarpo e Curvelo, um colega de sala). No melhor estilo do mestre da literatura brasileira, o “Conto de Escola” tem frases curtas, diretas, que vão revelando – como em outros trabalhos de Machado – as entranhas da psique humana: “foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação...”
O artista Laerte Silvino, responsável pela adaptação do conto para quadrinhos, diz que escolheu este conto de Machado por se identificar com a história de Pilar: “Fiquei espantado ao encontrar, no texto, situações parecidas com algumas que vivi quando estava na escola. Também estudei em um sobradinho, também tive um professor que arrastava suas chinelas de couro pela sala, professor que inspirou essa minha versão do Policarpo... em outros tempos eu não escaparia da palmatória.”

Silvino nasceu em Recife, cursou Geografia e, após viajar por várias áreas exóticas do país, resolveu se dedicar à ilustração e aos quadrinhos. Ele mantém o site www.laertesilvino.com.br

Se você quer conhecer o conto, clique neste link do site domínio público e leia a história de Pilar e seus amigos.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Fidel: A História “em quadrinhos” me absolverá



Goste dele ou não; ninguém pode desconhecer a importância histórica de Fidel Castro. Poucos líderes políticos do século XX tiveram uma trajetória tão longa e deixaram uma marca tão forte quanto o comandante cubano. Hoje, praticamente excluído do jogo político, Fidel tornou-se literalmente uma lenda viva. Um caso onde o personagem se torna maior que o próprio homem.

Dezenas de livros e documentários já foram feitos sobre a saga de Fidel; desde sua infância, até a tomada do poder; passando pelos tempos de militância nos movimentos estudantis, pela viagem a Sierra Maestra e a organização da Guerrilha. Agora, chega ao mercado editorial brasileiro uma história em quadrinhos que explora a trajetória do líder cubano: “Castro”, do artista alemão Reinhard Kleist.

O romance gráfico chega ao Brasil por meio da editora 8Inverso – a mesma que já havia lançado dois outros trabalhos do autor (Cash, uma Biografia e Elvis) – e vem sendo recebido com críticas extremamente positivas. O livro teve uma excelente repercussão em festivais internacionais e tem sido considerado uma obra madura, que consegue mostrar Fidel Castro de forma isenta, sem cair na tentação maniqueísta ou mistificadora.

Kleist revela que a idéia do livro nasceu depois de uma viagem a Cuba. Foi ali que o autor percebeu que o líder revolucionário, apesar da decadência política e física, ainda tem carisma suficiente para se converter em personagem de um romance gráfico. Para contar sua história, Kleist lança mão de um recurso já bastante conhecido em quadrinhos de caráter histórico/documental: ele cria um personagem fictício que serve como fio condutor costurando fatos históricos do passado, impressões pessoais do artista e o cotidiano atual da ilha. No caso, o personagem é um fotógrafo alemão que viaja a Cuba para cobrir os primeiros movimentos da revolução e acaba se tornando um colaborar próximo de Castro e um ferrenho defensor do regime que com o passar dos anos passa a se questionar sobre a perda da liberdade, o desabastecimento, as prisões políticas... Kleist não foge do desafio de abordar pontos positivos e negativos da biografia de Fidel: “se você não pode simpatizar com ele, ao menos por meio do livro, me disseram alguns leitores, se pode conhecê-lo um pouco e entendê-lo” – diz o autor.

Para construir o roteiro, o Kleist contou com a ajuda do jornalista alemão e biógrafo de Castro – Volker Skierka e utilizou-se de um diversificado acervo de fontes de informação. O resultado de toda essa pesquisa pode ser visto na revelação de detalhes sobre a história da Revolução que o leitor comum não costuma encontrar nas reportagens de jornais, revistas e TVs.
Kleist – que no momento está envolvido com um novo romance gráfico que vai contar a história de um lutador de Box alemão que viveu o inferno dos campos de concentração – é dono de um traço moderno e arrojado. A história – em preto e branco – consegue transmitir a dramaticidade que o enredo exige. Além de um admirável domínio da narrativa gráfica, o autor realizou uma ampla pesquisa visual em livros de histórias, filmes, fotos antigas e novas... “Havana tem uma estética muito forte, seus edifícios, seus carros e sobretudo sua luz...”. Com tudo isso, Castro já pode ser considerado um dos melhores lançamentos deste ano no mercado editorial brasileiro de romances gráficos.

Fidel e outro lado da moeda
O Nona Arte fez uma pesquisa  e encontrou outros projetos que abordam a trajetória de Fidel em quadrinhos e encontrou algumas pérolas:

A primeira é “80 anos com Fidel”. Com um indisfarçável propósito de fazer uma crítica à política castrista, o autor não poupa a trajetória do líder cubano. Raúl Rivero, poeta e jornalista, foi condenado a 20 anos de prisão por publicar em veículos de imprensa fora de Cuba reportagens críticas ao regime. Com as porta fechadas na imprensa da ilha, Raúl fundou em 1995 a agência Cuba Press para exercitar um jornalismo “independente”.



    Outra história é desenhada por Joe Sinnott. "O Homem de barba" é uma genuína apologia pró-castro onde se podem ler frases como: “este é o homem a quem Cuba saúda como herói e libertador”. O roteirista desta história é ninguém menos que Stan Lee, o criador de personagens como Homem Aranha. A história foi um quadrinho com quatro páginas publicado pela Atlas Comic (empresa anterior à MARVEL). O Comic destacava a "invulnerabilidade" do Fidel Castro e foi lançado em uma época em que o mundo conhecia muito pouco sobre o líder cubano. 


    sábado, 14 de maio de 2011

    Três sombras






    Quando o artista francês August Rodin criou uma das suas mais expressivas esculturas (a Porta do Inferno) ele concebeu três figuras humanas que, colocadas sobre a porta, apontam para uma mesma direção, como se anunciassem àqueles que entram no inferno a dor e os horrores que os aguardam. A escultura das três personagens, conhecida como “As Três Sombras”, é um dos trabalhos mais intensos do escultor.

    O quadrinista frânces Cyril Pedrosa, em seu primeiro trabalho lançado no Brasil (pela Companhia das Letras), lança mão da imagem das três sombras para criar uma história simples, mas repleta de poesia, como os melhores contos da literatura russa.

    Em um lugar perdido no meio do nada, um camponês e sua família recebem uma vista de três personagens misteriosos. Ao longe, sem nunca pronunciarem uma única palavra, as três sombras são um prenúncio de que algo terrível vai acontecer e transformar irremediavelmente a vida do agricultor, sua mulher e seu filho.

    Cyril Pedrosa conquistou, em 2008, com esse trabalho, um prêmio no mais importante festival de quadrinhos do mundo: o Angoulême, na França. O trabalho de Cyril é primoroso. Ele tem um domínio completo da narrativa gráfica. Consegue mesclar diferentes técnicas e fazer um desenho que vai de um traço bucólico e quase infantil até um quadro tenebroso e assustador.

    O autor criou o roteiro de Três Sombras depois da morte do filho pequeno de um grande amigo. E lança um desafio: o que você faria para salvar a vida do seu filho. No quadrinho, o camponês Louis se vê obrigado a fugir com o pequeno Joachim para tentar salvá-lo das três sombras misteriosas que rondam sua fazenda. Ele imagina que as três sombras pretendem levar a criança e para protegê-la, cruza montanhas, florestas e o oceano. Mas, no fim das contas, ninguém foge do seu destino...

    Três Sombras é um poema visual e uma história cheia de simbolismos, como um sonho. Imperdível...

    sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

    Os Sertões finalmente em quadrinhos


    Um dos maiores clássicos da literatura em língua portuguesa finalmente chega ao universo dos quadrinhos: "Os Sertões" de Euclides da Cunha. Não deixe de conferir, em breve, um comentário aqui no Nona Arte. Isso é... se sobrar dinheiro no final do ano para compra o Livro... Quem sabe um Papai Noel não ajuda?

    sábado, 4 de dezembro de 2010

    Uma guerra muito pessoal


    Narrativas sobre conflitos armados são uma tradição literária desde que o grego Homero escreveu a história sobre o cerco de Troia. Desde então, a literatura mundial está repleta de grandes livros, como: Guerra e Paz (Tolstoi), Por quem os sinos dobram (Hemingway), Nada de novo no Front (Erich Remarque), Os Sertões (Euclides da Cunha) entre outros. A literatura em quadrinhos, na trilha desses sucessos editoriais também já elegeu os seus clássicos, entre eles: Maus (Spielgman), Guerra de Trincheiras (Tardi), Gorazde (Joe Sacco), Valsa para Bashir (Ari Folman) só para citar alguns.

    Infelizmente, o mais recente lançamento da editora Zarabatana Books – A Guerra de Alan, do francês Emmanuel Guibert – não pode ser inserido nessa lista. O livro foi lançado no mercado europeu em uma sequencia de três volumes. O último só publicado em 2008, oito anos após o lançamento do primeiro número.

    O livro remonta as memórias do soldado Alan Ingram Cope durante a II Guerra Mundial. Alan entrou no exército no final de 1944 e só chegou ao palco do conflito em 1945. Sem disparar um único tiro ao longo de toda sua passagem pela Europa, Alan esteve envolvido em tarefas burocráticas e efadonhas. Suas ações de guerra se limitaram a vigílias noturnas e administração de documentos.

    É uma pena que o talento de Emmanuel Guibert, que já teve a série o Fotógrafo publicada no Brasil, tenha sido desperdiçado com uma história tão frágil. O verdadeiro problema de A Guerra de Alan não é a narrativa ou os desenhos de Guibert, mas o próprio Alan...Ninguém esperava corpos despedaçados, atos heroicos, lutas sangrentas entre aliados e nazistas... Outros artistas já mostraram que é possível fazer grandes histórias a partir dos pequenos acontecimentos do dia a dia. Só que o leitor, sinceramente, merecia mais desta história. Alan faz um relato extenso, mas superficial da guerra... Enfim... Passe longe.

    quarta-feira, 22 de setembro de 2010

    Camelot 3000 - clássico revisitado



    Uma grande notícia! 

    A editora Panini anuncia o relançamento de um dos maiores clássicos da História em Quadrinhos: Camelot 3000. Lançada originalmente no Brasil na década de 80, a história tornou-se uma lenda ao lado de Watchmen, V de Vingança, O Cavaleiro das Trevas e Piada Mortal – todas elas publicadas nos anos 80.   

    Camelot 3000 traz a história do Rei Artur e sua távola redonda transposta para o futuro. Os autores Mike W. Barr e Brian Bolland criam uma trama revolucionária para a época, inclusive com cenas explícitas de homosexualidade. Com a terra invadida por criaturas alienígenas, Artur e seus companheiros vão travar uma batalha com armas futuristas para salvar o planeta.

    Uma pedida imperdível para quem quer ter na estante uma das obras fundamentais da Nona Arte e que influenciou uma legião de artistas nos anos seguintes.

    A expectativa fica por conta da qualidade gráfica desta reedição e do preço que a editora deve colocar em capa. A última reedição de Camelot 3000, pela Editora Mythos, foi alvo de muitas críticas pelo preço e pela qualidade da 
    revista (papel, tinta...)

    Agora é torcer os dedos e aguardar...


    sexta-feira, 10 de setembro de 2010

    Mulheres que amam demais


    Por que uma mulher resolve procurar na cadeia um homem condenado por assassinatos e estupros? Que tipo de fascínio esses assassinos em série despertam sobre centenas de mulheres a ponto de se tornarem campeões em número de correspondências recebidas? O que leva uma mulher a se casar (na cadeia) com um homem que responde por 10 assassinatos e violência sexual contra outras mulheres?

    Para tentar buscar respostas para estas perguntas, o jornalista Gilmar Rodrigues realizou uma pesquisa de quatro anos. Ao longo deste período ele entrevistou quase 100 pessoas, entre presos, mulheres, delegados, policiais, psiquiatras e outros personagens e buscou traçar o perfil psicológico destas mulheres. O resultado desta investigação pode ser conferido no livro “Loucas de Amor”, lançado pela Editora Ideias a Granel e na versão em quadrinhos do livro-reportagem feito em parceria com o artista Fido Nesti (um nome já respeitado no universo dos quadrinhos brasileiros).


    O projeto é inédito. Pela primeira vez o mercado editorial do país faz um lançamento simultâneo em quadrinhos e leitura convencional. Uma forma ousada de levar o conteúdo da reportagem de Gilmar Rodrigues a novos públicos. A proposta do quadrinho era desvendar os bastidores da investigação jornalística. São sete histórias que se encadeiam: os tranqueiras, os jacks (modo como os assassinos sexuais são conhecidos na cadia), eu não sou Jack, o bandido uiva para a lua, anão de Ananindeua, as mulheres dos jacks, cartas marcadas de batom e querido diário. Gilmar e Fido abordam a trajetória de assassinos que alcançaram notoriedade pública, como: o maníaco do parque – Francisco de Assis Pereira e o bandido da luz vermelha – João Acácio da Costa.

    Em suas entrevistas, Gilmar encontrou mulheres com alguns traços em comum: autoestima baixa, com poucas perspectivas e “problemas na formação do sentimentos”. Muitas apresentam um histórico de abandono ou abuso sexual e uma dificuldade de lidar com o sexo masculino. A maioria delas relata que são tratadas como rainhas pelos condenados... “As mulheres que se correspondem com o Maníaco do Parque dificilmente falam em sexo. Quanto mais perigoso, sanguinário e sexualmente predador, mais elas desenvolvem uma visão romântica deles”, diz Gilmar. As mulheres ouvidas pelo jornalista eram de diferentes idades e classes sociais. Algumas com pós-graduação.


    Ao final, Gilmar não consegue desvendar completamente o enigma... Fica a mesma dúvida do início da sua investigação: "Essas mulheres correm o risco de se tornarem vítimas desses criminosos... na penitenciária de Itaí, no interior paulista, onde estão confinados apenas homens condenados por crime sexual, há mulheres, até casadas, que escrevem para os presos, ansiosas por um relacionamento amoroso", diz.

    Um dos casos mais surpreendentes é o ocorrido com o Maníaco do Parque. “Marisa Mendes Levy, pós-graduada em História, de família judaica e classe média alta, o viu pela primeira vez na televisão, concedendo entrevista. Ela se interessou e mandou uma camiseta com alguns dizeres. Depois que ela havia desistido, o viu novamente na TV vestindo a camiseta. Ela escrevia de dois em dois dias para ele, cartas enormes", afirma Rodrigues em entrevista concedida à revista época. "Durante todo o trabalho, busquei uma razão capaz de explicar o fenômeno, explicar essa atração feminina. Em vez de encontrar duas ou três respostas diretas, elas se multiplicaram em cada caso, cada vida. Em mim sobrou uma profunda tristeza. Um retrato perturbador da solidão e da miséria humana".

    Confira uma entrevista com Gilmar Rodrigues na MTV

    quinta-feira, 9 de setembro de 2010

    O universo paralelo de José Carlos Fernandes



    O voo 713 para Belize nunca chegou ao seu destino. O aparelho foi encontrado dois dias depois, nas profundezas da selva do Yucatan, perto de Uxmal, não muito danificado. Mas da tripulação e passageiros, nem rasto. Quando os peritos aeronáuticos analisaram as caixas negras do aparelho ficaram perplexos: em vez do registo das conversações no cockpit e das comunicações entre o avião e os controladores aéreos, as fitas continham apenas histórias insólitas e aparentemente sem nexo, narradas por uma voz arrastada e monocórdica, que não foi identificada como pertencendo a qualquer dos membros da tripulação...


    O português José Carlos Fernandes, um dos maiores expoentes da nona arte da atualidade, está lançando no Brasil (com um atraso de 4 anos) um dos seus projetos mais audaciosos: Black Box Stories. O artista já é conhecido mundialmente graças à série “A Pior Banda do Mundo” (já comentada no Nona Arte). José Carlos é dono de uma criatividade sem igual. O artista tem um ritmo intenso de produção e conseguiu produzir um universo paralelo, com tipos inacreditáveis dignos de um romance de Mia Couto...

    A produção de José Carlos é tão intensa que ele já acumula centenas de histórias prontas para serem convertidas em quadrinhos. Para dar vazão a parte dessas histórias, o artista português decidiu buscar uma parceria com outros desenhistas e lançou a primeira parte de uma nova e promissora série a “Black Box Stories” ou Histórias da Caixa Preta... Nesta primeira edição, José Carlos Fernandes tem a companhia do desenhista Luís Henriques, um desconhecido e talentoso artista português.

    Com estas parcerias, José Carlos consegue dois excelentes resultados: dar vazão às suas histórias e oferecer aos seus leitores outras interpretações – muitas vezes mais adequadas às suas histórias que o seu próprio traço.

    Em “Tratado de Umbrografia”, o artista nos brinda com seis histórias fascinantes: Tratado de Umbrografia, Elegia americana, A substância de que são feitos os sonhos, A feira de políticos manuseados, Zuma – o tatuador e O avanço do deserto. Assim como já havia feito nos seis volumes já lançados de “A pior banda do mundo”, José Carlos revela personagens fantásticos, como: o homem que tem seus sonhos materializados, o tatuador que cria imagens que submetem seus clientes às suas vontades ou o homem que busca encontrar uma forma de arte para expor seus sentimentos...

    Sem deixar de adotar uma boa dose de humor (sua marca registrada), José Carlos alcança em "Tratado..." um nível inédito de lirismo. Ao mesmo tempo, o jovem e talentoso Luís Henriques consegue imprimir uma personalidade de traço para cada história... desde o etéreo "A substância de que são feitos os sonhos" até o agressivo "Zuma - o tatuador"...

    Tratado de Umbrografia está sendo lançado pela Editora Devir. Imperdível. 

    sexta-feira, 27 de agosto de 2010

    Uma boa e uma má notícia



    A editora HQ Maniacs acaba de divulgar uma notícia que ao mesmo tempo em que atende a uma antiga expectativa dos  colecionadores de quadrinhos, frustra aqueles que almejam o crescimento do número de leitores e a valorização da linguagem dos quadrinhos na cultura nacional.

    A HQM está relançando no Brasil a fantástica série Classics Illustrateds,  editada no Brasil pela Editora Abril na década de 80. A coleção original, publicada nos Estados Unidos, reunia 27 títulos. Mas apenas 12 números chegaram por aqui.

    A HQ Maniacs promete agora lançar toda a série e outros três títulos inéditos que nunca haviam sido publicados em nenhum outro país. O primeiro livro será uma versão de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, pelo premiado artista Kyle Baker.

    A minha crítica fica por conta do preço pelo qual a série será vendida no Brasil - R$ 39,00 para o primeiro volume. É lamentável ver uma excelente oportunidade de atrair e formar novos leitores para a Nona Arte ser perdida desta forma. Por este preço, a coleção acabará restrita às livrarias (ao contrário da primeira versão lançada pela Abril, que foi comercializada nas bancas de revistas). 

    A Abril lançou nos anos 80 os títulos: Moby Dick, Grandes Esperanças, Hamlet, O Conde de Monte Cristo, A Ilha do Dr. Moreau, As aventuras de Tom Sawyer, A Queda da Casa dos Usher, O Morro dos Ventos Uivantes, A Letra Escarlate, A Ilha do Tesouro, Cyrano de Bergerac, e O Presente de Natal e Outras Histórias.


    quarta-feira, 18 de agosto de 2010

    Magneto: o sobrevivente


    Uma criança separada dos pais, em pleno campo de concentração de Auschwitz, contorce as grades de ferro da cadeia apenas com o poder da mente... Quando Bryan Singer, diretor do filme X-Men, criou a sua versão para a origem do personagem Magneto, deixou uma legião de fãs imaginando: como teria sido a história da humanidade, se seres com poderes extraordinários tivessem existido e confrontado a violência de regimes como as ditaduras de Hitler ou Stalin.

    Aquela criança, que se tornaria o poderoso personagem Magneto, fez sua estreia nos quadrinhos em 1963 e de lá para cá, esteve presente ao longo de toda a saga dos X-Men. Agora Magneto ganha uma edição especial, que acaba de chegar ao Brasil pela editora Panini. A história foge completamente ao padrão das demais histórias da série. Em lugar de centrar sua atenção sobre as incríveis habilidades de Magneto, o livro prefere se dedicar integralmente ao relato do drama dos judeus durante o Holocausto. As poucas manifestações do poder de Magneto ao longo da história passam praticamente sem serem notadas. Nada de barras de ferro contorcidas ou de armas e soldados destruídos. Em lugar disso, apenas morte e sofrimento.
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    O livro começa na adolescência de Magneto – ainda chamado de Max Eisenhardt – e narra o início da repressão contra os judeus na Alemanha, a fuga de milhares deles para a Polônia, a deportação para os campos e o genocídio. Magneto-Testamento é cuidadoso na reprodução de dados históricos. Ao longo de todo o livro, há notas informativas que ajudam a situar o leitor sobre os acontecimentos. Como o assassinato do adido alemão Ernest vom Rath em Paris por um adolescente judeu – Herschel Grynszpan – cuja família havia sido deportada da Alemanha para a Polônia. O crime daria início a uma onda de violência indiscriminada contra judeus na Alemanha e na Aústria. Cerca de 7.500 estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus foram saqueados e depredados. A partir deste momento, a legislação anti-semita se tornaria cada vez mais dura.
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    Os dois momentos mais marcantes da história, entretanto, seriam: a narrativa sobre a vida no Gueto de Varsóvia, onde todos os judeus deportados seriam obrigados a viver em uma área vigiada de 3,5 quilômetros de extensão; e – como não poderia deixar de ser – as histórias do Campo de Auschwitz.
    O trabalho de pesquisa dos autores é extremamente minucioso. Desde o cuidado com a reprodução dos ambientes e roupas, até o rigor na reconstituição histórica da rotina dos prisioneiros judeus. O traço e a opção de cores, acentuam o tom sombrio da história. A qualidade estética do trabalho é excelente, o que é valorizado pela excelente edição brasileira.

    Ultraje Final






    Para além da ficção, entretanto, o livro revela aos leitores uma outra história fantástica: a trajetória da artista Dina Babbitt, sobrevivente de Auschwitz, que foi obrigada, durante sua permanência no Campo, a pintar dezenas de quadros de outros prisioneiros submetidos às sádicas experiências do Dr. Mengele (conhecido como o Anjo da Morte). Após o fim da guerra, Dina fez carreira como desenhista de animação (incluindo produções para os estúdios Warner Brothers, Disney e MGM. A história de Dina foi reproduzida, em quadrinhos, ao final da história de Magneto e faz parte de uma campanha mundial que diversos artistas estão movendo para que o Museu do Holocausto, em Auschwitz, devolva à família de Dina (falecida em 2009), os desenhos feitos por ela, que compõe seu acervo.
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    O posfácio de Magneto-Testamento é assinado pelo Diretor Editorial da Marvel, Stan Lee, e foi lançado originalmente na edição americana quando Dina ainda era viva. Lee fazia uma veemente defesa para que os trabalhos criados pela artista durante o cativeiro lhes fossem (por direito) devolvidos. Leia o editorial de Lee abaixo e assista a um vídeo sobre a campanha em defesa de Dina.




    Editorial de Stan Lee sobre Dina Babbitt


    Karin In the depths of the hell called Auschwitz, Dina Gottliebova (Babbitt) painted a mural of Snow White on the children’s barracks. She used a cartoon character to bring a few moments of joy to the Jewish children whose lives were about to be extinguished by the Nazis. Cartoon characters are part of a universal language of imagination that touches children --and more than a few adults-- in every corner of the globe.

    Dina knowingly risked her life by undertaking that defiant gesture of humanity. She knew the Germans would not tolerate such defiance. Trapped in a world of horror and evil, where heroes were all too few, Dina demonstrated that she was a true hero.

    Dina’s mural was discovered but, miraculously, her life was spared because the Germans had use for her artistic talent. Snow White saved Dina’s life and, in turn, Dina tried to save others. Compelled by the infamous Dr. Josef Mengele to paint portraits of Gypsy prisoners, Dina dragged out the process for as long as possible, knowing that as long as the prisoners were being painted, they would remain alive.

    In the years after her liberation from Auschwitz, Dina continued to use cartoon characters to bring joy to children’s lives. Today, every time someone watches a cartoon with Daffy Duck, Wily E. Coyote, or Cap’n Crunch, they may very well be enjoying images that Dina helped create.

    As for the images Dina created in Auschwitz, seven of those portraits somehow survived, and are being held by the Auschwitz State Museum. Dina wants them back, and she has every right to get them back. Surely she should be allowed to keep this one small piece of the life that the Nazis ripped from her and her family.

    Those of us who work in the world of comic books and cartoons bear a special obligation to raise our voices in support of Dina’s effort to regain the portraits she painted in Auschwitz. When others were in need, Dina stood up for them. Today, we must stand up for Dina.

    sábado, 14 de agosto de 2010

    Os quadrinhos revisitam Auschwitz - parte 1


    É inevitável. Quando pensamos no terror e absurdo da Segunda Guerra, a primeira imagem que imediatamente vem à cabeça da maioria da população ocidental é dos campos de concentração de Auschwitz; um conjnto de três grandes campos de extermínio nazista e outros 40 pequenos campos de apoio construídos na Polônia, a sessenta quilômetros da capital Cracóvia.

    A indústria do cinema eternizou, em dezenas de filmes, o massacre de judeus, ciganos, homossexuais, intelectuais,prisioneiros de guerra e outros grupos perseguidos pelos alemães. Filmes como "A Vida é Bela", "A lista de Schilinder", "A escolha de Sofia", "O menino do pijama listrado", "Amarga sinfonia de Auschwitz" entre outros, fizeram com que o holocausto não caísse no esquecimento, mesmo passados mais de 65 anos. Fenômeno que não ocorreu com outros massacres recentes, como: guerra da Bósnia, o genocídio de Rwanda, a matança em Timor Leste, apenas para citar alguns exemplos.

    As histórias de Auschwitz, como não poderia deixar de ser, também chegaram aos quadrinhos. Já há alguns anos, diferentes artistas vêm se dedicando a construir roteiros e ilustrações para romances gráficos que têm os campos como cenário... O Blog Nona Arte faz a partir de hoje, a avaliação de trabalhos elaborados sobre o tema, alguns deles inéditos no Brasil. Acompanhe o Blog nas próximas semanas

    Maus, de Art Spielgman











    Magneto, Testamento











    Auschwitz, de Pascal Crocci











    A Busca, de Eric Heuvel

    terça-feira, 3 de agosto de 2010

    Johnny Cash - uma biografia



    Álcool, drogas, sexo, música e sucesso. A história do rock está marcada por diversos artistas que tornaram-se ídolos e depois sucumbiram pela pressão do estrelato e do show bizz. Nomes como: Janis Joplin, Kurt Cobain, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Sid Vicious, Brian Jones... fazem parte de uma imensa lista de artistas que conheceram de perto tudo o que a fama pode proporcionar, de melhor e de pior.

    Estão chegando agora chegam ao Brasil as biografias em quadrinhos de dois artistas que experimentaram um pouco do céu e do inferno, escreveram seus nomes na história do rock e que viveram intensamente os primeiros anos do ritmo que mudaria a música e o comportamento dos jovens para sempre: Johnny Cash e Elvis Presley. Os dois projetos são resultado do trabalho do mesmo artista: o premiado autor alemão Reinhard Kleist e estão sendo lançados aqui pela editora 8Inverso. 

    Reinhard Kleist conta que lembra o impacto que uma foto de Cash, em um disco que o pai tinha em casa, lhe causou ainda pequeno. ``Eu pensava, este cara é cool´´. O projeto original de Kleist era fazer versões ou interpretações em quadrinhos de clássicos do rock. Até que um amigo lhe emprestou uma biografia de Johnny Cash (The Beast in Me - de Franz Dobler). ``Eu nunca havia imaginado que um livro sobre um cantor country pudesse ser tão excitante. Quando terminei o livro,  estava absolutamente convencido que o meu projeto havia mudado.´´ 

    Johnny Cash teve uma vida atribulada. Filho de uma família pobre, conheceu de perto a pobreza e o desalento. Ainda criança, ajudava o pai, a mãe e os irmãos na colheita de algodão produzido na fazenda da família. A mesma cultura que influenciara o surgimento do blues com o canto dos escravos em meio às plantações. Sobre este período da sua vida, Cash diria anos depois: ``Você não precisa ter vivido na pobreza para fazer uma música country bem-sucedida. Mas que ajuda, ajuda.´´

    Foi nesta fase que Johny Cash viveria o primeiro trauma da sua vida: a perda do irmão Jack, vítima de um acidente com uma serra-elétrica enquanto cortava madeira. Para o resto da vida, Johnny se perguntará várias vezes, em situações de dúvida: ``O que Jack teria feito no meu lugar?´´ E o irmão, como se fosse um anjo da guarda, daria a resposta.

    Kleist não abandonou de todo a sua ideia original de ilustrar clássicos do rock, e introduziu no livro a sua versão para ``The Ballad of Ira Hayes´´, ``Big River´´ e ``A boy named Sue´´. O resultado do trabalho se traduz no sucesso que o livro vem alcançando desde que foi lançado. A biografia de Cash conquistou algum dos principais prêmios na Alemanha, como o prêmio de Melhor Livro de Quadrinhos Alemão nas Feiras do Livro de Munique (2006) e de Frankfurt (2007), o Max und Moritz de Melhor Graphic Novel alemã no ano de 2008 e, em 2009, o “Les prix des ados” no Festival Literário de Deauville, na França, por sua versão em francês.  

    Para produzir o livro, Kleist teve de realizar muitas pesquisas e ainda obter a permissão de uso das letras das músicas que foram ilustradas por ele na biografia. 

    O trabalho impressiona. O livro, que chega ao Brasil ao mesmo tempo em que a versão norte-americana chega aos Estados Unidos, é intenso como a própria vida de Cash. Conhecido por seu temperamento explosivo e seus problemas com drogas e álcool.  

    O estilo de Kleist lembra em muito o grande artista americano Paul Pope, mais conhecido no Brasil por seus trabalhos feitos para Batman (Batman ano 100 ou Batman Berlin). A opção pelo preto e branco acentua a dramaticidade da história. O traço é um tanto grosseiro. Às vezes quase caricatural. Mas eficiente. Kleist é econômico nos detalhes, como: cenários, roupas e outros elementos de cena, preferindo investir mais energia na narrativa. Aqui uma nota de destaque para as várias informações históricas oferecidas por Kleist ao longo do livro. Em diversas passagens, o autor nos oferece dados sobre as músicas de Cash ou sobre passagens fundamentais da vida do cantor. A biografia de Cash concorreu ao Eisner Award 2010 (uma espécie de ``Oscar´´ dos quadrinhos) de Melhor Escritor/Artista de Quadrinhos de Não Ficção.  


    As pessoas mais ligadas em cinema lembrarão certamente do filme ``Johnny e June´´ estrelado por Joaquim Phoenix e Reese Witherspoon.


    Para quem ficou curioso em conhecer o cantor Johnny Cash ``em pessoa´´, vale a pena conferir uma gravação original do seu mais famoso sucesso: Folsom Prison Blues.


    sexta-feira, 30 de julho de 2010

    O Homem desafia a Deus


    A Editora Arx acaba de lançar no Brasil uma fantástica adaptação do romance “Frankenstein”, um dos maiores clássicos da literatura mundial (seguramente uma das histórias mais marcantes da literatura de terror, ao lado de Drácula de Bram Stocker), escrito em 1816 pela britânica Mary Shelley. O livro integra uma coleção lançada originalmente pela editora espanhola Parramón e que inclui outros clássicos, como: “Relatos de Poe”, baseado em contos fantásticos de Edgar Alan Poe e “Cuna de cuervos”, adaptado a partir de um conto da escritora espanhola Maria Zaragoza.

    A história de Frankenstein já é amplamente conhecida e já foi adaptada para cinema, teatro e até desenhos animados. O cientista Victor Frankenstein, atormentado pela morte da mãe, decide dedicar todo sua engenhosidade a vencer o maior de todos os inimigos da humanidade: a morte. Depois de anos de estudos e dedicação insana, o médico alcança seu objetivo e consegue trazer um cadáver de volta à vida. Mas os resultados se mostram trágicos.

    Essa versão de Frankenstein, realizada pelo desenhista espanhol, Meritxell Ribas e pelo escritor, também espanhol, Sergio Sierra, mostra uma perfeita harmonia entre roteiro e concepção gráfica. Ribas usa uma técnica que se assemelha à litografia, imprimindo um efeito ainda mais sombrio à história. O roteirista Sergio Sierra, por sua vez, conduziu a edição do texto original com maestria, preservando a perspectiva do original de Mary Shelley, onde a trama é narrada na primeira pessoa – pelo próprio cientista Victor Frankenstein.


    No site que os dois autores mantém na internet para divulgação do livro eles postaram um comentário sobre a recém lançada edição brasileira:

    "Esta semana Meri e eu tivemos a grata surpresa de conhecer finalmente a edição do nosso "Frankenstein, o moderno Prometeo" para o Brasil. Estamos muito contentes, sem nenhuma dúvida. Sobre o resultado da edição seguimos com a mesma sensação amarga das versões anteriores. Por um lado, o resultado das páginas melhorou consideravelmente e desta vez se fez justiça ao trabalho de Meri, permitindo que muitos dos detalhes que na edição francesa e espanhola se perderam, aqui possa ser apreciado.


    Por outro lado, apesar de se ter optado por uma versão em cartoné, o desenho da página é o mesmo da edição espanhola, com a resssalva que a imagem não estão bem centrada e foi mal editada. Tampouco entendo porque o título completo da obra foi simplificado e em lugar de "Frankenstein o Moderno Prometeo", que aparece na capa interna das edições espanhola e francesa, a brasileira põe apenas "Frankenstein" . Esperamos que as críticas brasileiras não tardem a aparecer e sejam tão positivas como as críticas que recebemos na França e Espanha.


    Bom, no que depender deste blog, os autores podem dormir sossegados. Sua versão para o romance de Mary Shelley é muito superior à outra adaptação recém lançada no Brasil, pela editora Salamandra, do artista francês Marion Mousse. Também não é exagero afirmar que o trabalho de Sierra e Ribas figura entre as melhores adaptações literarárias que já tive a chance de conhecer, como: Em Busca do Tempo Perdido, adaptação do clássico de Marcel Proust pelo artista Stéphane Heut, a saga do Capitão Alatriste (clássico da moderna literatura espanhola), adaptado por Joan Mundet ou ainda a versão de Peter Kuper para A Metamorfose, de Kafka.

    domingo, 25 de julho de 2010

    O Fotógrafo. Uma apaixonante história sobre os Médicos Sem Fronteiras


    O Afeganistão é um pequeno e pobre país encravado entre a Ásia e o Oriente Médio. Em toda sua história, o povo daquele país nunca conheceu um período de paz. As guerras são parte do presente e do passado do país. É neste território dominado por montanhas íngremes e desérticas, pela fome, pela ignorância e pela violência, que a organização Médicos Sem Fronteiras tem realizado nas últimas décadas um dos seus trabalhos mais marcantes em defesa da vida.

    Apesar de extremamente pobre, o Afeganistão tem estado presente no noticiário internacional nas últimas três décadas de forma quase ininterrupta. Entre 1979 e 1989 o país enfrentou uma guerra sangrenta contra a União Soviética. Estima-se que as tropas russas chegaram a reunir um contingente de aproximadamente 120 mil soldados durante o período da campanha. O conflito ficou para a história como o equivalente soviético à derrota americana no Vietnã. Diversos historiadores, inclusive, afirmam que as enormes despesas com a guerra foram fator determinante para o desmantelamento do bloco soviético. Com a retirada do exército russo, o país enfrentou anos de guerra civil, que deixou um saldo superior a um milhão e mortos. A primeira década do século XXI marcaria o início da dominação de uma nova superpotência: os Estados Unidos.
    O resultado dos sucessivos conflitos é uma população doente e desassistida. A violência e a intolerância praticamente destruíram o já frágil sistema de saúde deixando apenas poucos hospitais atuando de forma precária nas capitais das principais províncias. Para terem acesso a qualquer tipo de atendimento, os afegãos precisam se arriscar em viagens de milhares de quilômetros em zona de guerra. Por isso, a maioria das pessoas que precisam de atendimento acaba morrendo antes de chegar a um posto médico.

    Ao longo de todo esse período, os Médicos Sem Fronteiras estiveram presentes no Afeganistão oferecendo atendimento em hospitais e postos avançados em plenas montanhas. O único período em que a organização esteve ausente do país se deu entre 2004/209, após o assassinato de cinco membros da equipe na província de Bagdhis.

    Uma reportagem em fotos e quadrinhos
    Em 1986, em pleno conflito soviético, a Médico Sem Fronteiras contratou o fotógrafo francês Didier Lefèvre para documentar a atividade da organização no país. Na época a MSF realizava caravanas clandestinas cruzando ilegalmente a fronteiras entre Paquistão e Afeganistão para levar atendimento aos povoados mais distantes da capital Cabul. Médicos e cirurgiões atravessavam quilômetros de desfiladeiros e territórios minados carregando medicamentos e equipamentos em lombos de burros e cavalos.

    O resultado da viagem de três meses de Didier ao Afeganistão está reproduzido em uma série de três livros que começaram a ser lançados no Brasil pela Conrad Editora em 2006 e chegam agora ao último volume. Didier faz um relato pessoal e detalhista de tudo o que ele vê e descobre em sua viagem. Os atendimentos médicos, as diferenças culturais, os perigos da viagem... nada passa despercebido do olhar do autor. Ao final, nós temos a oportunidade de aprender não somente sobre a atuação dos Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão, como sobre uma cultura tão complexa e diferente da nossa. Didier aborda as relações de gênero, as difíceis cirurgias feitas sob condições adversas, as belezas surpreendentes do país ainda em guerra, as diferenças religiosas...

    “O Fotógrafo” usa a fusão entre fotos e quadrinhos para compor a história. Os desenhos estão a cargo de Emmanuel Guibert, um destacado artista francês que já foi objeto de outro post aqui no Nona Arte (A Guerra de Alan).

    Uma grande história, um excelente roteiro e grandes imagens fazem de “O Fotógrafo” um trabalho memorável que entra para a história como um dos mais importantes relatos já produzidos em quadrinhos no mundo. Pena que os aficionados por quadrinhos no Brasil tivessem de esperar quatro anos pela conclusão da história...

    O Afeganistão hoje
    O site oficial dos Médicos Sem Fronteiras informa que “infelizmente, conforme as necessidades aumentam, se torna cada vez mais difícil para organizações de ajuda neutras e imparciais convencerem todas as partes envolvidas que seu único objetivo é levar ajuda. A distinção que já foi clara entre exércitos, atividades de reconstrução e desenvolvimento e ajuda humanitária se tornou confusa a partir do momento em que ajuda médica se tornou parte do campo de batalha: forças de coalizão internacional cooptaram assistência para iniciativas de “corações e mentes”, ocuparam hospitais e prenderam pacientes em suas camas enquanto grupos armados de oposição fizeram de trabalhadores humanitários e estruturas de saúde alvos por causa da presença de forças internacionais. Para ser aceita por todas as partes envolvidas no conflito, uma organização médica como MSF deve demonstrar, e comunicar claramente, completa imparcialidade, neutralidade e independência, por exemplo, não tomando nenhum partido no conflito, se recusando a aceitar fundos de qualquer governo que trabalhe no Afeganistão e no Paquistão e assegurando que nenhuma força militar, sejam elas nacionais, internacionais ou de oposição, entre no hospital com suas armas.”
    Para saber mais sobre os Médicos Sem Fronteiras ou ajudar a organização, acesse o site oficial da organização


    Confira um filme de divulgação do terceiro e último volume da série

    domingo, 11 de julho de 2010

    O paradoxo estendido na areia


    O livro cachalote do escritor Daniel Galera e do desenhista Rafael Coutinho é um dos romances gráficos mais ambiciosos já lançados no Brasil. Com 320 páginas não numeradas, Cachalote revela um artista maduro – Rafael Coutinho (filho do desenhista Laerte) e confirma o bom momento de Daniel Galera, com vários prêmios literários e trabalhos publicados no Brasil, Itália e Portugal. Entretanto, Cachalote não é fácil de rotular ou explicar.

    Seis histórias se alternam, sem se cruzarem. Personagens perdidos, como náufragos se agarrando em pedaços escorregadios de gelo: um escultor obcecado por sua arte, um playboy arrogante e mimado que é expulso de casa, um jovem sádico e sua namorada que parece feita de vidro, um ator chinês decadente, um escritor que se recupera de uma dependência química e uma mulher idosa e surpreendentemente grávida.

    A cachalote, que surge em apenas três passagens do livro, parece apontar ao leitor – de forma concreta – o absurdo, o contraditório e o fantástico da vida comum. Os personagens construídos por Daniel Galera não são ruins, mas o fato é que ele não consegue extrair o melhor deles. A trama, por outro lado, é instigante. Consegue deixa o leitor ávido pela solução final... Por saber até onde os personagens irão... Aqui reside o principal problema do livro: ao meu ver, Daniel Galera não consegue levar a tensão e o clímax da história a um bom termo. Esta talvez seja a explicação para uma sensação de incompletude e desconforto que toma o leitor ao final de Cachalote.

    Mas não é o roteiro que faz de Cachalote uma obra imperdível, mas a arte de Rafael Coutinho. O desenhista conseguiu alcançar um nível de domínio da linguagem narrativa que o coloca no nível dos melhores artistas internacionais.

    Confira abaixo uma entrevista dos autores para a revista eletrônica - Cyberfam - da PUC Gaúcha.

    sábado, 26 de junho de 2010

    Quatro vezes Moby Dick


    A história da enorme baleia branca que destroi um navio e elimina sua tripulação foi eternizada no livro Moby Dick, lançado em 1851 pelo escritor americano Herman Melville. Moby Dick é considerado pela crítica como um dos livros fundamentais da literatura universal, ao lado de Ulisses, de James Joyce; Don Quixote, de Cervantes ou Em Busca do Tempo Perdido; de Marcel Proust.

    As diferentes adaptações da obra em desenhos animados, como a série da Hanna Barbera exibida nos anos 70, acabaram banalizando a história e diminuindo a importância dramática do romance. Moby Dick representa o eterno conflito entre o Homem e seu destino ou entre e o Homem e a grandeza da natureza representada pela cachalote.

    O mais impressionante é que a história criada por Melville foi baseada em fatos reais. Em 1820 o navio baleeiro Essex foi atacado por uma baleia enfurecida. O navio afundou rapidamente e os náufragos tiveram que navegar durante três meses e milhares de milhas do oceano Pacífico para encontrar o resgate. Apenas oito dos 21 marinheiros sobreviveram.

    As pesquisas do Blog Nona Arte encontraram quatro versões em quadrinhos do clássico americano: uma leitura feita pelo mestre Will Eisner, a adaptação feita pelo argentino Enrique Breccia, a sombria versão de Bill Sienkiewicz lançada no Brasil na década de 1980 e a recém editada interpretação de Lance Stahlberg e Lalit Kumar Singh.

    Clássicos Ilustrados

    Bill Sienkiewcz é um artista americano de Pennsylvania nascido em 1958. Depois de cursar a Newark School o Fine and Industrial Art ele vem se dedicando aos quadrinhos. Entre os trabalhos já realizados por Bill estão o Quarteto Fantástico, Elektra, Batman, Hulk e histórias de Alan Moore... Em 1990 Bill Sienkiewcz lançou pela série Classics Illustrated sua visão sobre a história de Melville. Entres as três versões, a história de Bill é, sem dúvida, a melhor. O traço de Sienkiewicz é magistral. Fiel ao espírito do livro, onde a morte está presente desde o primeiro momento. A edição do texto original de Melville também é muito eficiente. O trabalho foi lançado no Brasil pela editora abril e fez história.

    Moby de Eisner 

    Eisner lançou sua versão para Moby Dick dentro de uma série em que ele se propunha a adaptar clássicos da literatura para crianças. Na mesma série ele adaptou Don Quixote e A Princesa e o Sapo. A versão de Will Eisner é menos ambiciosa que o trabalho de Bill Sienkiewicz. O texto é simples, minimalista, quase infantil...O traço vai na mesma linha, nada parecido com outros trabalhos fantásticos de Eisner, como Um Contrato com Deus ou Avenida Dropsie. Eisner se detém nos planos fechados e econômicos. Foi uma forma de economizar nos detalhes do navio ou das roupas e personagens.

    Enrique Breccia, o mestre argentino 

    Nascido em Buenos Aires em 1945, Breccia é um dos mais destacados artistas argentinos ao lado de Hector Oesterheld. Os dois chegaram a trabalhar juntos em uma adaptação sobre a vida de Ernesto Che Guevara. O trabalho de Breccia é feito em P&B. O traço é clássico e bem mais detalhista que a obra de Eisner. A versão do mestre argentino é de 1999. Anos antes, em 1980, o artista já havia feito ilustrações para uma edição argentina de Moby Dick.

    Versão moderna

    A adaptação mais recente da obra de Melville acaba de chegar ao Brasil como parte de um projeto da editora Farol Literário. Uma interpretação mais moderna, que busca equilibrar imagem e textos. Se a arte deste livro não alcança o primor estético da versão de Bill Sienkiewcz, os desenhos são eficientes e conseguem segurar assegurar o nível do trabalho. A Farol Hq tem como meta publicar no Brasil clássicos da literatura universal, como: 20 mil léguas submarinas, A ilha do tesouro, Robinson Crusoé, Viagem ao centro da terra, entre outros. Vale a pena conferir.

    quarta-feira, 16 de junho de 2010

    Jambocks - Um resgate histórico



    “A ordem deles era: ‘Não se entregar!’ – ‘O reforço vem! Lutem e esperem!’ Mas “eles” não sabiam – ou se sabiam, ignoravam – que a aviação ‘deles’ não operava mais por ali… A munição ia acabar, a comida ia acabar, o frio castigava, mas “eles” não se entregavam! Os ‘tedescos’ diziam pra eles, que se entregarem para nós, brasileiros, era melhor! Era garantia de sobrevivência! Os estadunidenses ‘passavam fogo’ mesmo!”

    Em três dias eu comi duas vezes, só! Um dia veio uma ‘ração’ dos estadunidenses, no outro veio uma pior ainda! A gente aquecia no capacete! Se colocasse depois, o capacete quente na cabeça gelada pela neve, dava uma “coisa” chamada ‘escama de peixe’! Ficava em carne viva! O capacete era pesado e ninguém gostava de usar… Mas todo mundo usava e nem precisava os oficiais recomendarem aos Sargentos e os Sargentos nos ‘mijar’! “Todo mundo usava porque às vezes você ouvia só um deslocamento de ar’ – ‘Shhhhhhfffffff” e era projétil saindo do nada e a qualquer hora – mesmo não sendo avanço ou tiroteio! Às vezes eu acho que algum praça alemão olhava lá de cima e pensava: ‘Vou atirar naquele ali!’ Mas o pior de tudo era o silencio da noite! O silêncio da noite na guerra é o único que pode ser ouvido de tão forte que é! Tudo que se move é suspeito… A respiração, tudo! 


    Pedro Bozzetti - Ex-Combatente – Soldado – 1º Regimento de Infantaria – Corpo Médico
    Texto escrito em 1993


    Passados 70 anos, a Segunda Grande Guerra parece às novas gerações algo tão distante e exótico quanto a Guerra dos 100 anos. Algo que a gente vê nos filmes, estuda nos livros escolares mas não nos diz absolutamente respeito. O tempo e a eclosão de outras centenas de guerras na Ásia, África, América e na própria Europa fizeram com que a humanidade acabasse esquecendo os horrores da maior catástrofe da história.

    Seis anos de conflitos causaram mais de cinqüenta milhões de mortos, deixaram oito milhões de mutilados, destruíram centenas de cidades e dizimaram florestas inteiras que jamais se recuperaram.

    Neste contexto, a participação dos soldados da Força Expedicionária Brasileira na Guerra vem caindo no ostracismo devido à ausência de uma filmografia que resgate para as novas gerações este momento da história.  O projeto Jambocks, de Celso Menezes e Felipe Massafera, lançado pela editora Zarabatana vai resgatar agora parte desta dívida com o passado.

    História recontada

    Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, Celso Menezes, roteirista de Jambocks revelou que a inspiração para o projeto veio de conversas com os poucos ex-combatentes ainda vivos: “Quando eles voltaram da guerra, o presidente Vargas estava no poder há 15 anos e tinha medo dessa onda de liberdade que ganhou força com a vitória dos aliados. Eles desfilaram no dia que chegaram, mas depois todos foram proibidos de falar no assunto. Muitos ficaram sem carreira, foram perseguidos diretamente e a esmagadora maioria chegou em péssima condições físicas ou psicológicas e sem nenhuma assistência, inclusive financeira. Existe uma grande incidência de suicídios e alcoolismo entre os veteranos da FEB e da FAB também. Os veteranos se sentem completamente esquecidos depois de terem se sacrificado tanto”.

    A saga dos pracinhas será contada em quatro volumes. O primeiro número mostra a entrada do país na guerra , os bastidores das negociações entre o presidente americano Roosevelt e o ditador Getúlio Vargas que relotou até o último instante para decidir por qual lado o Brasil lutaria.

    O roteiro de Celso Menezes costura fatos históricos e fictícios para dar maior dinamicidade à narrativa. No início da trama vemos a mobilização popular para que o país declarasse guerra à Alemanha. As notícias de navios brasileiros torpedeados por submarinos nazistas causavam verdadeiro furor. Boatos amplamente difundidos na época davam conta de que Hitler teria dito que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra (o que deu origem à expressão "A Cobra Fumou", que virou lema da FEB). A mobilização tomou vulto e o país acabou enviando para a Europa 25.334 soldados. Desses combatentes, 467 morreriam na Europa.

    Traço sofisticado


    Além de resgatar para as novas gerações as histórias de soldados anônimos, envolvidos em uma guerra sem precedentes, Jambocks também tem outros méritos e qualidades.

    O primeiro ponto a favor é a qualidade artística do projeto. Felipe Massafera, responsável pelos desenhos, usa diferentes técnicas de traço para contar a história. Em alguns momentos do primeiro volume o estilo de Felipe se assemelha muito ao mestre americano Alex Ross, aclamado mundialmente por seu estilo “fotográfico”.

    Outra qualidade de Jambocks é a opção de contar a história na perspectiva de pessoas comuns. Deste modo, Celso Menezes torna a narrativa mais humanizada e próxima do leitor. Algo semelhante foi desenvolvido pelo artista francês Emmanuel Guibert  na série “A guerra de Alan” (já comentada neste blog e que será em breve lançada no Brasil).

    Jambocks, entretanto, falha pela falta de profundidade. Com pouco mais de 30 páginas (no formato revista), o primeiro volume “Prelúdio para a Guerra”, não consegue ir suficientemente fundo na história, tornando o roteiro raso e ingênuo. Um projeto que pretende resgatar para as novas gerações um momento tão decisivo da história precisa de mais fôlego. Apenas como exemplo, lembramos do projeto “Chibata – João Cândido e a revolta que abalou o Brasil” lançado pela editora Conrad em 2008 e que tinha mais de 200 páginas no formato Album. Neste sentido, Chibata tornou-se não apenas uma leitura "curiosa" sobre um fato praticamente desconhecido na história brasileira, mas um verdadeiro documento sobre a revolução dos marinheiros contra os maus tratos cometidos pela Marinha brasileira.

    Por conta desta limitação de espaço, Jambocks acaba não sendo mais minuncioso (pelo menos no primeiro volume) em aspectos extremamente importantes para a compreensão do contexto em que se deu a entrada do Brasil na Guerra, como: a pressão exercida pelos Estados Unidos para que o país entrasse na luta ao lado dos aliados (inclusive com ameaças de invasão por parte dos americanos); a intensa propaganda política usada por Getúlio para justificar a posição brasileira, entre outros pontos.

    Esta crítica, no entanto, não deve desencorajar Celso Menezes e Felipe Massafera. Ao contrário. Esperamos que o projeto ganhe corpo e possa – quem sabe – inspirar outros projetos sobre a participação brasileira na Segunda Guerra, bem como de outras passagens da história do país.

    Para quem ficou curioso em conhecer mais sobre o Projeto Jambocks, fica a dica para visitar o blog da obra: jambocks.blogspot.com

    Para os interessados em saber mais sobre as histórias dos ex-combatentes, vale a pena conferir este documentário realizado como projeto experimental de alunos do curso de jornalismo da Universidade Feevale de Novo Hamburgo.