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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Arte contra canhões

Esta excelente dica vem da amiga e leitora do Nona Arte, Cristina Carvalho: O Filme Joyeux Noël, que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2005, relata um episódio fantástico e real que ocorreu durante o natal de 1914, onde soldados alemães, franceses e britânicos cessaram por um momento as hostilidades e se confraternizaram.

Eu já havia feito referência a esse acontecimento o escrever sobre o livro "Às Inimigo" de George Pratt. Os mais antigos vão lembrar de um clip de Paul MacCartney dos anos 80 onde o próprio beatle interpreta, ao mesmo tempo, um oficial alemão e um inglês que trocam fotos e brindam no dia do natal enquanto os soldados disputam uma improvisada partida de futebol.

Pois bem, a história era verdadeira. E aconteceu em diversos pontos do front, não apenas em 1914, mas se repetiu em 1915. Relatos sobre estas confraternizações foram encontradas em cartas escritas por soldados dos dois lados em conflito e "censuradas" pelos oficiais...

Depois de ter a chance de assistir ao filme, não poderia deixar de indicá-lo aos outros leitores do Nona Arte. O filme é imperdível.

Não deixe de conferir outros posts sobre a Primeira Guerra em: A mãe de todas as guerras ou Inferno nas Trincheiras

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Maria e Eu


O artista espanhol Miguel Gallardo é um bem-sucedido desenhista, com trabalhos publicados em importantes meios de comunicação espanhaois, como o jornal La Vanguadia e periódicos estrangeiros, como os americanos Herald Tribune e o The New York Times. Com diversos prêmios conquistados como ilustrador de livros infantis, Gallardo se lançou em 2007 em um projeto pessoal, corajoso e humano: uma história em quadrinhos sobre sua relação com a filha Maria.

Miguel Gallardo relembra: “Maria não nasceu de uma cegonha. Ela chegou de um planeta distante,como o Super-homem. Demorou 9 meses para chegar a casa e quando o fez, passava a maior parte do tempo dormindo. Maria se tornou nossa alegria. Mas em pouco tempo percebemos que algo se passava. Ela não parecia se dar conta das coisas que a rodeavam. Parecia não nos ouvir. Não correspondia aos nossos abraços. Era como se vivesse em um mundo próprio, sem conexão com o nosso. Em lugar de brincar com seus bonecos, os alinhava como se fosse um desfile...”  Maria vive hoje com a mãe nas Ilhas Canárias, tem 15 anos e é autista.

O trabalho de Gallardo é leve, suave tanto no texto quanto nas ilustrações.  Ele relembra uma de suas viagens de férias com Maria a um resort lotado de turistas alemães e ingleses. Ao longo do livro, o artista relata as dificuldades e prazeres da convivência com a filha. Antes de tudo, “Maria y Yo” é um contundente manifesto contra o preconceito e em defesa da vida. Gallardo aborda os olhares de crítica e estranheza que ele encontra quando passeia com a filha: “São caras que as pessoas põem quando, por exemplo, Maria começa a berrar no restaurante porque não a deixo comer depressa. Essas caras às vezes me deixam triste e outras vezes, me irritam.”

O livro revela as pequenas descobertas diárias de Maria e desvenda para o leitor um pouco de como se constrói a rotina de uma criança autista: “Na cabeça de Maria, tudo está classificado. Bem ordenado. Há uma caixa para cada coisa. Lhe angustiam as situações inesperadas”.

A psiquiatra infanto-juvenil Amaia Hervas Zúñiga, que assina o epílogo, diz que o maior atrativo de “Maria y Yo” é o fato do livro corrigir muitos preconceitos que rondam as crianças com autismo – uma síndrome que é cada vez mais diagnosticada. Maria não é distante nem fria; mas emotiva e afetuosa. Tudo o que Maria faz tem um significado para ela. Nós também podemos fazer María mais feliz – assim como todas as crianças como ela – simplesmente aceitando-as tal como são: únicas como todos os demais.”

Maria y Yo em vídeo



O projeto de Gallardo foi transformado em filme patrocinado por uma organização espanhola dedicada a defender os direitos das crianças com autismo. O filme, nas palavras do diretor Félix Fernandez Castro, é uma viagem de um pai e uma filha em busca de se comunicarem. Uma história real que nos ensina que uma pessoa com autismo é única, como qualquer outra pessoa.

Além do longa metragem,  a Fundação Orange produziu também um curta de animação que vem sendo massivamente difundido na Internet com o objetivo de difundir o tema entre a opinião pública. Os dois filmes pretendem chegar ao público em geral e também lançam uma mensagem otimista para os pais e familiares de pessoas com autismo. Muita gente vai pensar que é uma mensagem boa e politicamente correta . Não para mim. Para mim é verdade. São incontáveis as coisas que tenho aprendido com Maria.

Curta de animação

sábado, 6 de novembro de 2010

Tardi e a mãe de todas as Guerras

 
A canção de Craonne (1917)
Adeus à vida, adeus ao amor
Adeus a todas as mulheres
Tudo terminou, para sempre
Desta guerra infame
 

Eis Craonne sobre a bandeja
Todos os grandes que fazem a festa
Se para eles a vida é rosa
Para nós não é a mesma coisa
o invés de se esconder todos os aproveitadores
Fariam melhor de subir às trincheiras
Para defender seus bens, pois nada temos
Nós, os pobres desgraçados
Todos os camaradas aqui enterrados
Para defender os bens dos senhores
Os que têm o dinheiro, a eles retornarão
Porque é por eles que morremos
 

Mas tudo acabou, pois os soldados rasos
Vão todos entrar em greve
Será a vossa vez, grandes senhores
De subir à bandeja (de Craonne)
Porque se querem fazer a guerra
Paguem-na com a vossa pele


Canção de Craonne


Canção de Craonne (pequena cidade ao norte da França) é um clássico da música francesa que há gerações vem sendo usada como símbolo dos movimentos anti-belicistas. A origem da música é praticamente desconhecida. Ela narra a luta entre soldados franceses e alemãs no Chemin des Dames (Caminho das Damas) nos primeiros dias da ofensiva de abril de 1917 e que resultaria no massacre das forças francesas. A canção não só aborda a inutilidade e brutalidade das guerras como expõe a verdade por trás dos uniformes, desfiles, medalhas e hinos. A força da música é tão grande que cantá-la em público nos campos de batalha da primeira guerra poderia levar um soldado ao paredão por insubordinação; e a sua reprodução pública permaneceu proibida até 1974. Agora os franceses e todos aqueles que defendem o fim de todas as guerras têm mais um vigoroso argumento em sua defesa. Uma obra de arte que já surgiu como um documento definitivo: “Puta Guerra!”, do artista f rancês Jacques Tardi.


Uma Guerra esquecida
A Primeira Guerra Mundial tornou-se uma passagem da história praticamente esquecida nos últimos 90 anos. A eclosão de novos e mais violentos conflitos praticamente arrancaram este acontecimento da memória mundial. Entretanto, apesar do esquecimento a que foi relegada, a Primeira Grande Guerra tem uma importância inquestionável para a história da humanidade. Tanto que alguns historiadores a chamam de: a mãe de todas as guerras. Nenhum outro conflito, até aquele momento, poderia ser comparado a ela, seja  em volume de perdas humanas, devastação, letalidade das armas ou número de países envolvidos.

Desde os primeiros dias, os movimentos da Guerra ficaram marcados por um equilíbrio de forças que levaram a uma disputada violenta por pequenos avanços no terreno. Era a Guerra de Trincheiras, onde os exércitos franceses, alemães, ingleses e de outros países ficavam anos inteiros enterrados no chão em valas cheias de lama, ratos e corpos despedaçados. As condições de vida dos soldados era tão terrível que centenas deles nunca mais voltaram a andar de forma ereta.


O Horror da Guerra em quadrinhos

O artista Jacques Tardi é um aficcionado pela Primeira Guerra. Quando criança, ele ouvia as histórias do avô, um ex-combatente francês, que o marcaram profundamente. Tardi já havia revisitado a guerra em outros trabalhos (ver comentário já publicado aqui no Nona Arte). Mas nada comparado ao nível de excelência alcançado por ele e o seu parceiro no roteiro, Jean Verney, em “Puta Guerra!”.

A edição espanhola, publicada pela Norma Editorial, a qual o blog Nona Arte teve acesso, traz em 101 páginas de quadrinhos e mais um bônus de 42 páginas, um resumo dos fatos mais importantes da Guerra entre 1914 e o armstício em 1919. Diferentemente do livro Guerra das Trincheiras, Puta Guerra não tem diálogos. Toda a história é narrada por um soldado francês que atravessa todos os anos do confllito e consegue sobreviver. O olhar atento desse narrador onisciente revela o absurdo das ordens de oficiais despreparados, os raros e surpreendentes encontros amistosos entre inimigos, a presença de soldados africanos destacados para defender seus senhores coloniais (franceses e ingleses), a rotina da vida nas imundas trincheiras, a tragédia de jovens mutilados, a ampliação do poder de fogo das armas, os pelotões de fuzilamento, os ataques aos civis, os mutilados... Diferentemente do que havia feito em "A Guerra de Trincheiras" ou em "O Grito do Povo" (seu único trabalho editado no Brasil), neste novo trabalho, Tardi não cria histórias ficcionais dentro da trama ou o faz de modo muito suscinto. Nesses outros projetos, o autor cria personagens que desfiam seus dramas pessoais tendo como contexto ou pano de fundo os fatos históricos (I Guerra ou a Comuna de Paris). Desta vez, foi como se Tardi quisesse dar um tom mais documental ao projeto. Ele parece mais preocupado em dar ao leitor uma visão ampliada dos horrores da guera do que em buscar uma "identificação" entre o leitor e as histórias humanas e "verdadeiras" dos seus personagens.

Tardi realiza amplas e minunciosas pesquisas sobre fotos e documentos da época. Para conceber seus desenhos, o autor também vasculha museus para ver pessoalmente objetos, fardamentos, armas e outros subsídios para seus desenhos. O processo de criação do quadrinista está registrado em um documentário que acompanha a versão espanhola.




O trabalho de Jacques Tardi é um apelo eloquente para que a 1ª Grande Guerra jamais seja esquecida. Sua narrativa é cruel e verdadeira. Nada de romances ou atos grandiloquentes que vemos nos filmes... Não há nada de belo em uma guerra, nada do que se vangloriar, parece nos dizer Tardi.

Esperamos que o bom momento que o mercado editorial de quadrinhos vive no Brasil seja uma oportunidade para que alguma das editoras nacionais se motivem a lançar Puta Guerra também por aqui.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Mestre dos Magos

Apesar do Jô Soares, vale conferir esta entrevista de Will Eisner em uma visita sua ao Brasil em 1999 (quando o programa ainda era transmitido pelo SBT). O mestre e criador do conceito de graphic novell fala sobre seu processo criativo e sua relação com Nova Iorque. 
 

Parte 1


Parte 2

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O casca-grossa chega aos cinemas



Goon é um personagem criado pelo artista americano Eric Powell. A história conta as aventuras de um anti-herói, abandonado na infância pelos pais e que acaba se impondo pela força e se tornando o "dono do pedaço" em uma cidade povoada por fantasmas, zumbis , seres extra-dimensionais, aliens e cientistas loucos.

Com um traço envolvente e um humor politicamente incorreto, Goon tornou-se um sucesso editorial e já conquistou o Eisner Award (o maior prêmio dos quadrinhos americanos) em 2004, 2005 e 2008. O lançamento de um filme com as histórias do casca-grossa foi anunciado em 2008 no site oficial do personagem e o trailler oficial do filme chegou à internet no último mês de julho. Agora é aguardar e - com muita sorte - assistir o filme no Brasil

As aventuras de Adéle Le Blanc


Os cinemas brasileiros devem começar a exibir esse mês o mais novo filme do diretor francês Luc Besson: As aventuras extraordinárias de Adèle Le Blanc-Sec. Desconhecida do público brasileiro, a personagem criada pelo quadrinista francês Jacques Tardi é extremamente popular entre os leitores de quadrinhos europeus.

Adèle é uma escritora com um enorme talento para detetive e que se defronta com os casos mais estranhos na Paris do início do século XX. A personagem faz sua primeira aparição em 1976, em uma série publicada no jornal Sud-Ouest (Adele e a Besta). O quadrinho apresenta a capital francesa assolada por um espantoso pterodátilo que ressuscitou do Museu de História Natural. Já, desde sua primeira história, as características da saga ficaram muito bem delimitadas: a detalhada descrição histórica, uma alta dose de ficção científica e a constante presença de elementos sobrenaturais. (Alguma semelhança com Indiana Jones?)


O sucesso da primeira história foi tanto que Tardi se viu compelido a criar uma nova aventura para a personagem. No mesmo ano foi lançada "O demonio na Torre Eiffel". A história começa pouco depois do primeiro episódio. Nela, uma valiosa estátua do demônio Assírio foi roubada por adoradores de uma seita satânica. O terceiro capítulo da série "O Sábio Louco" foi lançado em 1977 e mostra a experiência de cientistas loucos determinados a ressuscitar um homem das cavernas descoberto congelado na Sibéria.

A quarta história "Múmias Enlouquecidas" - lançada em 1978 - transcorre em 1914. Simultaneamente todas as múmias de Paris desaparecem sem deixar rastros. No fim desta história, Adèle termina congelada. Três anos depois Tardi lança "O Segredo da Salamandra" e em 1985 "O afogado de duas cabeças" - ambientada no fim da Primeira Grande Guerra.

Em 1994 é publicada "Todos os Monstros" e em 1998 a última história da saga (até o momento): "O Mistério das Profundezas". A próxima história não tem data para ser lançada, mas já tem nome: "O labirinto infernal".

Tardi, um pessimista?

Jacques Tardi é conhecido no Brasil pela fantástica história da Comuna de Paris. Fora do Brasil o autor tem uma verdadeira legião de seguidores é é considerado um dos maiores expoentes dos quadrinhos mundiais. Nascido em 1946, o artista passou a infância ouvindo as histórias do avô que havia lutado na primeira Guerra Mundial e lendo histórias de Tintin.

Quando perguntam a ele porque suas histórias transmitem uma sensação tão pessimista, Tardi responde: "Eu tenho dificuldades para ser otimista, porque a guerra parece continuar alegremente, o homem é apaixonadamente aficcionado pela ideia de estripar o seu próprio vizinho. Não exagero, é o que vejo na televisão todos os dias. Eu queria ser um otimista, mas é bastante dificil".

Confira um excelente vídeo que associa cenas do filme de Luc Besson a o quadrinho de Tardi:

sábado, 9 de outubro de 2010

Beatles e Quadrinhos - Parte II

Para aqueles que curtem Beatles e quadrinhos e dificilmente têm como desembolsar algumas centenas ou milhares de dólares para comprar os comics lançados nos anos 60 e 70 sobre os garotos de Liverpool, o Nona Arte encontrou uma dica imperdível.

O site Beatle Web apresenta a história de Paul, John, George e Ringo em uma série em quadrinhos de oito capítulos. O mais interessante é que todas as histórias estão totalmente disponíveis para download. O autor do site, Juan Carlos Mazas, dedicou oito anos de trabalho ao projeto. O texto original é espanhol. A versão para inglês foi feita com a ajuda do músico Rod Davis - fundador da primeira banda de John Lennon - The Quarrymen.


O primeiro volume "O Sonho" fala sobre o nascimento do Rock and Roll e os primeiros passos de John com a guitarra, a criação do grupo Blackjacks - que depois se chamaria The Quarrymen - e os primeiros contatos com  Paul McCartney. O segundo número "A Ambição" mostra a chegada de George Harrison ao grupo a saída de outros músicos do Quarrymen e a morte da mãe de John: Julia. "A Constância" é o terceiro episódio da série. Bill Harry, amigo de John, apresenta Stuart Sutcliffe. John e Paul formam um duo - Nerk Twins. Eles começam a tocar com Ken Brown no The Casbah. Com a expulsão de Ken, o grupo passa a ser formado por John Lennon, Paul McCartney e George Harrison e muda seu nome para Johny and the Moondogs. Depois disso, John Lennon convence a Stuart Sutcliffe para que compre um baixo. Stu entra no Quarrymen.

"A reta" é o quarto número da saga. Os garotos conhecem a Allan Williams que será o novo agente do grupo. Eles mudam seu nome para The Beatals.Tommy Moore entra no grupo como baterista.O grupo muda de nome mais uma vez para The Silver Beetles e fazem uma turne pela Escócia. O volume termina com a chegada de Pete Best.O quinto número "A Formação" mostra a primeira viagem para Hamburgo, agora como The Silver Beatles. Eles conhecem Astrid Kirchherr, Klaus Voorman y Jürgen Voolmer. Depois disso chegam ao nome que os consagraria. Astrid Kirchherr faz as primeiras fotografias dos The Beatles. Stuart Sutcliffe fica em Hamburgo com Astrid Kirchherr.


"A conquista"mostra a chegada de Chas Newby como baixista provisório dos Beatles. Depois disso, Paul McCartney começa a tocar o instrumento e se torna o baxista oficial da banda. Eles fazem a segunda viagem a Hamburgo. Conhecem Tony Sheridan e gravam um disco para a  Polydor. Allan Williams deixa de ser o gerente do grupo. O sétimo volume "O impacto" mostra a viagem de John e Paul a Paris para ver o amigo Jürgen Voolmer.Eles conhecem Brian Epstein que se torna o gerente da banda. Stuart morre de uma paralisia cerebral.

O último episódio "O Exito" mostra o grupo tocando no Star Club. Eles cohecem George Martin e gravam quatro músicas para a EMI. Eles gravam uma apresentação no Cavern Club e seu primeiro single para a Parlophone. Um número ainda inédito mostra a chegada de Ringo e a chegada dos Beatles à fama...

Esteticamente a série não corresponde à importância da história. O traço de Juan Carlos é um tanto infantil, grosseiro... Em termos de linguagem narrativa o autor também é previsível. A abordagem é muito convencional . Por isso, não espere muito da série neste aspecto. Por outro lado, o cuidado e rigor histórico compensa as fragilidades estéticas... A série é uma excelente oportunidade para quem busca conhecer melhor a história da banda que mudou para sempre o cenário do rock e da música mundial.

Confira abaixo uma animação feita por Juan Carlos, a partir dos desenhos da série:

sábado, 2 de outubro de 2010

Imperdível: Mafalda e Quino em documentário argentino

Essa é imperdível: 

Uma sequência de três videos que integram uma série de documentários sobre os quadrinhos argentinos. Os documentários são apresentados por Juan Sasturain, renomado jornalistas, escritor, roterista de quadrinhos e diretor de TV argentino.

O documentário é dedicado a Quino e sua Mafalda... Confira:


Parte 1




Parte 2



Parte 3

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mulheres que amam demais


Por que uma mulher resolve procurar na cadeia um homem condenado por assassinatos e estupros? Que tipo de fascínio esses assassinos em série despertam sobre centenas de mulheres a ponto de se tornarem campeões em número de correspondências recebidas? O que leva uma mulher a se casar (na cadeia) com um homem que responde por 10 assassinatos e violência sexual contra outras mulheres?

Para tentar buscar respostas para estas perguntas, o jornalista Gilmar Rodrigues realizou uma pesquisa de quatro anos. Ao longo deste período ele entrevistou quase 100 pessoas, entre presos, mulheres, delegados, policiais, psiquiatras e outros personagens e buscou traçar o perfil psicológico destas mulheres. O resultado desta investigação pode ser conferido no livro “Loucas de Amor”, lançado pela Editora Ideias a Granel e na versão em quadrinhos do livro-reportagem feito em parceria com o artista Fido Nesti (um nome já respeitado no universo dos quadrinhos brasileiros).


O projeto é inédito. Pela primeira vez o mercado editorial do país faz um lançamento simultâneo em quadrinhos e leitura convencional. Uma forma ousada de levar o conteúdo da reportagem de Gilmar Rodrigues a novos públicos. A proposta do quadrinho era desvendar os bastidores da investigação jornalística. São sete histórias que se encadeiam: os tranqueiras, os jacks (modo como os assassinos sexuais são conhecidos na cadia), eu não sou Jack, o bandido uiva para a lua, anão de Ananindeua, as mulheres dos jacks, cartas marcadas de batom e querido diário. Gilmar e Fido abordam a trajetória de assassinos que alcançaram notoriedade pública, como: o maníaco do parque – Francisco de Assis Pereira e o bandido da luz vermelha – João Acácio da Costa.

Em suas entrevistas, Gilmar encontrou mulheres com alguns traços em comum: autoestima baixa, com poucas perspectivas e “problemas na formação do sentimentos”. Muitas apresentam um histórico de abandono ou abuso sexual e uma dificuldade de lidar com o sexo masculino. A maioria delas relata que são tratadas como rainhas pelos condenados... “As mulheres que se correspondem com o Maníaco do Parque dificilmente falam em sexo. Quanto mais perigoso, sanguinário e sexualmente predador, mais elas desenvolvem uma visão romântica deles”, diz Gilmar. As mulheres ouvidas pelo jornalista eram de diferentes idades e classes sociais. Algumas com pós-graduação.


Ao final, Gilmar não consegue desvendar completamente o enigma... Fica a mesma dúvida do início da sua investigação: "Essas mulheres correm o risco de se tornarem vítimas desses criminosos... na penitenciária de Itaí, no interior paulista, onde estão confinados apenas homens condenados por crime sexual, há mulheres, até casadas, que escrevem para os presos, ansiosas por um relacionamento amoroso", diz.

Um dos casos mais surpreendentes é o ocorrido com o Maníaco do Parque. “Marisa Mendes Levy, pós-graduada em História, de família judaica e classe média alta, o viu pela primeira vez na televisão, concedendo entrevista. Ela se interessou e mandou uma camiseta com alguns dizeres. Depois que ela havia desistido, o viu novamente na TV vestindo a camiseta. Ela escrevia de dois em dois dias para ele, cartas enormes", afirma Rodrigues em entrevista concedida à revista época. "Durante todo o trabalho, busquei uma razão capaz de explicar o fenômeno, explicar essa atração feminina. Em vez de encontrar duas ou três respostas diretas, elas se multiplicaram em cada caso, cada vida. Em mim sobrou uma profunda tristeza. Um retrato perturbador da solidão e da miséria humana".

Confira uma entrevista com Gilmar Rodrigues na MTV

domingo, 29 de agosto de 2010

Blacksad - um detetive com sete vidas


Durante o período da Guerra Fria, qual seria o melhor modo de impedir o início de um conflito nuclear entre as duas maiores potências mundiais? Ao longo das quatro décadas que duraram a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética, essa era a pergunta que dominava o cenário da política internacional. O fato é que, por mais paradoxal que possa parecer, foram as armas atômicas o maior argumento para evitar a Guerra Total... Em outras palavras, foi apenas por saber que o adversário tinha armas iguais às suas, que russos e americanos jamais começaram uma nova guerra mundial.

Partindo desse contexto, os artistas espanhois Juan Díaz Canales e Juan Guarnido produziram um dos mais criativos romances gráficos desde de Watchmen (de Alan Moore). Blacksad – Alma Vermelha conta a história de um cientista/pacifista que repassa segredos nucleares aos inimigos para tentar assegurar um tênue equilíbrio de forças entre as duas superpotências. A história faz parte de uma das mais bem sucedidas séries dos quadrinhos mundiais, vencedora de prêmios na Espanha, França, Bélgica e Estados Unidos. Detalhe fundamental: todos os personagens de Blacksad são seres antropomorfos – fusão entre homens e animais. O personagem que dá nome à série, o detetive John Blacksad, é um gato preto metido constantemente em confusões com tigres, cachorros, jacarés, raposas, ursos... 

Essa não é a primeira vez que um autor usa este tipo de recurso em um romance gráfico. O artista americano Art Spielgman havia representado judeus e alemães como ratos e gatos no seu clássico ´´Maus´´ - que conta a história dos campos de Auschwitz. Mas Juan Canales e Juan Guarnido se utilizam deste recurso de forma ainda mais ousada e magistral. O traço de Guarnido é um dos melhores do quadrinho atual. Ele consegue imprimir, com enorme competência, expressões humanas a rostos de animais... O autores brincam com os estereótipos e retratam gorilas e lagartos como seguranças de mafiosos, raposas jornalistas, gatas insinuantes, cachorros policiais...

As duas primeiras histórias de Blacksad foram lançadas no Brasil em 2006, com um atraso de seis anos da primeira edição francesa. A primeira história – Em algum lugar entre as sombras – mostra o detetive investigando a morte de uma ex-namorada, que havia se envolvido com um perigoso gangster. No segundo volume – Nação Ártica – Blacksad investiga o seqüestro de uma menina ´´mestiça´´ em meio um conflito racial.

A Editora Panini deve lançar “Alma Vermelha” ainda neste ano. Um grande mérito da Editora foi o de manter os livros a preços acessíveis e disponibilizá-los em bancas. Isso mostra uma preocupação com a formação de novos públicos. Fato – infelizmente – raro por aqui quando, quase sempre, as boas HQs se transformam em livros caros, para leitores iniciados.

Confira uma edição de imagens de "Alma Vermelha" ao som de um excelente jazz. O clima perfeito para uma fantástica história policial.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Magneto: o sobrevivente


Uma criança separada dos pais, em pleno campo de concentração de Auschwitz, contorce as grades de ferro da cadeia apenas com o poder da mente... Quando Bryan Singer, diretor do filme X-Men, criou a sua versão para a origem do personagem Magneto, deixou uma legião de fãs imaginando: como teria sido a história da humanidade, se seres com poderes extraordinários tivessem existido e confrontado a violência de regimes como as ditaduras de Hitler ou Stalin.

Aquela criança, que se tornaria o poderoso personagem Magneto, fez sua estreia nos quadrinhos em 1963 e de lá para cá, esteve presente ao longo de toda a saga dos X-Men. Agora Magneto ganha uma edição especial, que acaba de chegar ao Brasil pela editora Panini. A história foge completamente ao padrão das demais histórias da série. Em lugar de centrar sua atenção sobre as incríveis habilidades de Magneto, o livro prefere se dedicar integralmente ao relato do drama dos judeus durante o Holocausto. As poucas manifestações do poder de Magneto ao longo da história passam praticamente sem serem notadas. Nada de barras de ferro contorcidas ou de armas e soldados destruídos. Em lugar disso, apenas morte e sofrimento.
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O livro começa na adolescência de Magneto – ainda chamado de Max Eisenhardt – e narra o início da repressão contra os judeus na Alemanha, a fuga de milhares deles para a Polônia, a deportação para os campos e o genocídio. Magneto-Testamento é cuidadoso na reprodução de dados históricos. Ao longo de todo o livro, há notas informativas que ajudam a situar o leitor sobre os acontecimentos. Como o assassinato do adido alemão Ernest vom Rath em Paris por um adolescente judeu – Herschel Grynszpan – cuja família havia sido deportada da Alemanha para a Polônia. O crime daria início a uma onda de violência indiscriminada contra judeus na Alemanha e na Aústria. Cerca de 7.500 estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus foram saqueados e depredados. A partir deste momento, a legislação anti-semita se tornaria cada vez mais dura.
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Os dois momentos mais marcantes da história, entretanto, seriam: a narrativa sobre a vida no Gueto de Varsóvia, onde todos os judeus deportados seriam obrigados a viver em uma área vigiada de 3,5 quilômetros de extensão; e – como não poderia deixar de ser – as histórias do Campo de Auschwitz.
O trabalho de pesquisa dos autores é extremamente minucioso. Desde o cuidado com a reprodução dos ambientes e roupas, até o rigor na reconstituição histórica da rotina dos prisioneiros judeus. O traço e a opção de cores, acentuam o tom sombrio da história. A qualidade estética do trabalho é excelente, o que é valorizado pela excelente edição brasileira.

Ultraje Final






Para além da ficção, entretanto, o livro revela aos leitores uma outra história fantástica: a trajetória da artista Dina Babbitt, sobrevivente de Auschwitz, que foi obrigada, durante sua permanência no Campo, a pintar dezenas de quadros de outros prisioneiros submetidos às sádicas experiências do Dr. Mengele (conhecido como o Anjo da Morte). Após o fim da guerra, Dina fez carreira como desenhista de animação (incluindo produções para os estúdios Warner Brothers, Disney e MGM. A história de Dina foi reproduzida, em quadrinhos, ao final da história de Magneto e faz parte de uma campanha mundial que diversos artistas estão movendo para que o Museu do Holocausto, em Auschwitz, devolva à família de Dina (falecida em 2009), os desenhos feitos por ela, que compõe seu acervo.
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O posfácio de Magneto-Testamento é assinado pelo Diretor Editorial da Marvel, Stan Lee, e foi lançado originalmente na edição americana quando Dina ainda era viva. Lee fazia uma veemente defesa para que os trabalhos criados pela artista durante o cativeiro lhes fossem (por direito) devolvidos. Leia o editorial de Lee abaixo e assista a um vídeo sobre a campanha em defesa de Dina.




Editorial de Stan Lee sobre Dina Babbitt


Karin In the depths of the hell called Auschwitz, Dina Gottliebova (Babbitt) painted a mural of Snow White on the children’s barracks. She used a cartoon character to bring a few moments of joy to the Jewish children whose lives were about to be extinguished by the Nazis. Cartoon characters are part of a universal language of imagination that touches children --and more than a few adults-- in every corner of the globe.

Dina knowingly risked her life by undertaking that defiant gesture of humanity. She knew the Germans would not tolerate such defiance. Trapped in a world of horror and evil, where heroes were all too few, Dina demonstrated that she was a true hero.

Dina’s mural was discovered but, miraculously, her life was spared because the Germans had use for her artistic talent. Snow White saved Dina’s life and, in turn, Dina tried to save others. Compelled by the infamous Dr. Josef Mengele to paint portraits of Gypsy prisoners, Dina dragged out the process for as long as possible, knowing that as long as the prisoners were being painted, they would remain alive.

In the years after her liberation from Auschwitz, Dina continued to use cartoon characters to bring joy to children’s lives. Today, every time someone watches a cartoon with Daffy Duck, Wily E. Coyote, or Cap’n Crunch, they may very well be enjoying images that Dina helped create.

As for the images Dina created in Auschwitz, seven of those portraits somehow survived, and are being held by the Auschwitz State Museum. Dina wants them back, and she has every right to get them back. Surely she should be allowed to keep this one small piece of the life that the Nazis ripped from her and her family.

Those of us who work in the world of comic books and cartoons bear a special obligation to raise our voices in support of Dina’s effort to regain the portraits she painted in Auschwitz. When others were in need, Dina stood up for them. Today, we must stand up for Dina.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Calvin e Haroldo em movimento

Vale a pena conferir estes curtas feitos pelo jovem cineasta francês Kevin Cienki, e pelo italiano Donato DiCarlos, a partir de histórias de Calvin e Haroldo.

O caso dos biscoitos desaparecidos



Meus Pais e Eu


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Morre Harvey Pekar

 

Foi encontrado morto em sua casa, hoje, nos Estados Unidos, o escritor de histórias em quadrinhos Harvey Pekar, de 70 anos. Ele era o autor da série "American Splendor", que deu origem ao filme "Anti-herói Americano", em 2003, com Paul Giamatti. Autoridades foram chamadas à casa de Pekar no subúrbio de Cleveland pela mulher do autor, por volta da 1h (hora local), informou o capitão da polícia Michael Cannon. O corpo foi encontrado na cama.

Pekar vinha sofrendo de câncer de próstata, pressão alta e depressão, segundo Cannon. O artista havia ido para a cama às 16h30 de domingo, sentindo-se bem, segundo a mulher dele. Um porta-voz do escritório do juiz investigador do condado disse que uma autópsia deve ser realizada. O funcionário afirmou que ainda não foi determinada a causa da morte.

Os quadrinhos de "American Splendor", que começaram a ser publicados em 1976, traziam reclamações de Pekar sobre temas como trabalho, dinheiro e a monotonia da vida. Os comentários inusitados tornaram a obra um cult, por seus insights de humor e um toque politicamente incorreto.

Em 2003, o Círculo de Críticos de Filmes de Nova York considerou "Anti-herói Americano" como melhor filme de diretor estreante, prêmio dado à dupla de diretores e roteiristas Shari Springer Berman e Robert Pulcini. Em parte representado e em parte um documentário, com elementos animados adicionados, o filme trazia como ator principal Giamatti, no papel do outsider Pekar.

Em 1997, Pekar disse que não pretendia parar de escrever a série "American Splendor". "Não há fim à vista para mim. Eu quero continuar a fazer isso", afirmou o artista. "É uma autobiografia contínua, o trabalho de uma vida."

Confira um trailer do filme:

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Jambocks - Um resgate histórico



“A ordem deles era: ‘Não se entregar!’ – ‘O reforço vem! Lutem e esperem!’ Mas “eles” não sabiam – ou se sabiam, ignoravam – que a aviação ‘deles’ não operava mais por ali… A munição ia acabar, a comida ia acabar, o frio castigava, mas “eles” não se entregavam! Os ‘tedescos’ diziam pra eles, que se entregarem para nós, brasileiros, era melhor! Era garantia de sobrevivência! Os estadunidenses ‘passavam fogo’ mesmo!”

Em três dias eu comi duas vezes, só! Um dia veio uma ‘ração’ dos estadunidenses, no outro veio uma pior ainda! A gente aquecia no capacete! Se colocasse depois, o capacete quente na cabeça gelada pela neve, dava uma “coisa” chamada ‘escama de peixe’! Ficava em carne viva! O capacete era pesado e ninguém gostava de usar… Mas todo mundo usava e nem precisava os oficiais recomendarem aos Sargentos e os Sargentos nos ‘mijar’! “Todo mundo usava porque às vezes você ouvia só um deslocamento de ar’ – ‘Shhhhhhfffffff” e era projétil saindo do nada e a qualquer hora – mesmo não sendo avanço ou tiroteio! Às vezes eu acho que algum praça alemão olhava lá de cima e pensava: ‘Vou atirar naquele ali!’ Mas o pior de tudo era o silencio da noite! O silêncio da noite na guerra é o único que pode ser ouvido de tão forte que é! Tudo que se move é suspeito… A respiração, tudo! 


Pedro Bozzetti - Ex-Combatente – Soldado – 1º Regimento de Infantaria – Corpo Médico
Texto escrito em 1993


Passados 70 anos, a Segunda Grande Guerra parece às novas gerações algo tão distante e exótico quanto a Guerra dos 100 anos. Algo que a gente vê nos filmes, estuda nos livros escolares mas não nos diz absolutamente respeito. O tempo e a eclosão de outras centenas de guerras na Ásia, África, América e na própria Europa fizeram com que a humanidade acabasse esquecendo os horrores da maior catástrofe da história.

Seis anos de conflitos causaram mais de cinqüenta milhões de mortos, deixaram oito milhões de mutilados, destruíram centenas de cidades e dizimaram florestas inteiras que jamais se recuperaram.

Neste contexto, a participação dos soldados da Força Expedicionária Brasileira na Guerra vem caindo no ostracismo devido à ausência de uma filmografia que resgate para as novas gerações este momento da história.  O projeto Jambocks, de Celso Menezes e Felipe Massafera, lançado pela editora Zarabatana vai resgatar agora parte desta dívida com o passado.

História recontada

Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, Celso Menezes, roteirista de Jambocks revelou que a inspiração para o projeto veio de conversas com os poucos ex-combatentes ainda vivos: “Quando eles voltaram da guerra, o presidente Vargas estava no poder há 15 anos e tinha medo dessa onda de liberdade que ganhou força com a vitória dos aliados. Eles desfilaram no dia que chegaram, mas depois todos foram proibidos de falar no assunto. Muitos ficaram sem carreira, foram perseguidos diretamente e a esmagadora maioria chegou em péssima condições físicas ou psicológicas e sem nenhuma assistência, inclusive financeira. Existe uma grande incidência de suicídios e alcoolismo entre os veteranos da FEB e da FAB também. Os veteranos se sentem completamente esquecidos depois de terem se sacrificado tanto”.

A saga dos pracinhas será contada em quatro volumes. O primeiro número mostra a entrada do país na guerra , os bastidores das negociações entre o presidente americano Roosevelt e o ditador Getúlio Vargas que relotou até o último instante para decidir por qual lado o Brasil lutaria.

O roteiro de Celso Menezes costura fatos históricos e fictícios para dar maior dinamicidade à narrativa. No início da trama vemos a mobilização popular para que o país declarasse guerra à Alemanha. As notícias de navios brasileiros torpedeados por submarinos nazistas causavam verdadeiro furor. Boatos amplamente difundidos na época davam conta de que Hitler teria dito que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra (o que deu origem à expressão "A Cobra Fumou", que virou lema da FEB). A mobilização tomou vulto e o país acabou enviando para a Europa 25.334 soldados. Desses combatentes, 467 morreriam na Europa.

Traço sofisticado


Além de resgatar para as novas gerações as histórias de soldados anônimos, envolvidos em uma guerra sem precedentes, Jambocks também tem outros méritos e qualidades.

O primeiro ponto a favor é a qualidade artística do projeto. Felipe Massafera, responsável pelos desenhos, usa diferentes técnicas de traço para contar a história. Em alguns momentos do primeiro volume o estilo de Felipe se assemelha muito ao mestre americano Alex Ross, aclamado mundialmente por seu estilo “fotográfico”.

Outra qualidade de Jambocks é a opção de contar a história na perspectiva de pessoas comuns. Deste modo, Celso Menezes torna a narrativa mais humanizada e próxima do leitor. Algo semelhante foi desenvolvido pelo artista francês Emmanuel Guibert  na série “A guerra de Alan” (já comentada neste blog e que será em breve lançada no Brasil).

Jambocks, entretanto, falha pela falta de profundidade. Com pouco mais de 30 páginas (no formato revista), o primeiro volume “Prelúdio para a Guerra”, não consegue ir suficientemente fundo na história, tornando o roteiro raso e ingênuo. Um projeto que pretende resgatar para as novas gerações um momento tão decisivo da história precisa de mais fôlego. Apenas como exemplo, lembramos do projeto “Chibata – João Cândido e a revolta que abalou o Brasil” lançado pela editora Conrad em 2008 e que tinha mais de 200 páginas no formato Album. Neste sentido, Chibata tornou-se não apenas uma leitura "curiosa" sobre um fato praticamente desconhecido na história brasileira, mas um verdadeiro documento sobre a revolução dos marinheiros contra os maus tratos cometidos pela Marinha brasileira.

Por conta desta limitação de espaço, Jambocks acaba não sendo mais minuncioso (pelo menos no primeiro volume) em aspectos extremamente importantes para a compreensão do contexto em que se deu a entrada do Brasil na Guerra, como: a pressão exercida pelos Estados Unidos para que o país entrasse na luta ao lado dos aliados (inclusive com ameaças de invasão por parte dos americanos); a intensa propaganda política usada por Getúlio para justificar a posição brasileira, entre outros pontos.

Esta crítica, no entanto, não deve desencorajar Celso Menezes e Felipe Massafera. Ao contrário. Esperamos que o projeto ganhe corpo e possa – quem sabe – inspirar outros projetos sobre a participação brasileira na Segunda Guerra, bem como de outras passagens da história do país.

Para quem ficou curioso em conhecer mais sobre o Projeto Jambocks, fica a dica para visitar o blog da obra: jambocks.blogspot.com

Para os interessados em saber mais sobre as histórias dos ex-combatentes, vale a pena conferir este documentário realizado como projeto experimental de alunos do curso de jornalismo da Universidade Feevale de Novo Hamburgo.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Valsa com a Morte

Idosos, mulheres e crianças assassinados. Corpos decapitados pelas ruas. Mulheres violentadas na frente de suas famílias. 16 de setembro de 1982 entrou para a história como o dia do massacre de palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, localizados no subúrbio de Beirute. Até hoje não se sabe o número exato de mortos. Mas estima-se entre 700 e 3 mil o número de vítimas dos ataques. A dificuldade de precisar este número se deve ao fato de que a maioria dos corpos foram jogados em valas comuns ou queimados.

O massacre foi cometido por milícias cristãs que desejavam vingar a morte do presidente Bashir Gemayel – aliado de Israel assassinado um dia antes, em um atentado atribuído aos palestinos. A matança que se seguiu foi indiscriminada... E tudo ocorreu em territórios que estavam sob controle do Exército de Israel.

Esta história volta agora à mídia no momento em que a opinião pública mundial acompanha a crescente escalada de violência no conflito entre palestinos e israelenses. E sob um ponto de vista inusitado. Valsa com Bashir é um projeto nascido originalmente para animação e que foi adaptado para Quadrinhos. O filme foi escrito e dirigido por um artista israelense que discute o papel do Exército e o seu próprio na matança.

Filme Premiado

Valsa com Bashir (o filme) já coleciona uma série de importantes prêmios internacionais de cinema, como: Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro; o Broadcast; o British Independent Awards e o prêmio dos Críticos de Los Angeles, além de ter sido indicado ao Bafta, ao Satellite, ao César e ao European Film Awards, além do Oscar de melhor filme estrangeiro.

Ari Folman, cineasta que escreveu, produziu e dirigiu o documentário de animação reconstitui as suas memórias da época em que serviu como soldado no Exército de Israel, com apenas 19 anos. Ari sofreu uma perda de memória (fenômeno comum com soldados que vivem situações de estresse), e por mais de vinte anos apagou as lembranças da noite do massacre. O documentário e a História em quadrinhos, que chega agora ao Brasil, são uma forma de acertar as contas com o passado.



Valsa com Bashir impressiona pela coragem de apontar o dedo não apenas para as milícias cristãs, mas para o próprio exército de Israel que foi cúmplice do massacre ao tomar conhecimento das atrocidades que estavam sendo cometidas e silenciar. O próprio Ariel Sharon (ex-primeiro ministro de Israel e na época do massacre, ministro da defesa), foi comunicado sobre a matança de palestinos e nada fez para impedir. Ele foi denunciado posteriormente pela Corte Suprema de Israel que o responsabilizou pelo massacre, obrigado-o a renunciar. A história impressiona ainda mais pela honestidade que o autor tem ao desvendar também sua atuação nos dois dias que duraram o massacre.


Outra característica inovadora no livro e no documentário é a tecnica utilizada para criar os desenhos. Ari faz uma fusão de fotografia e desenho. Esta técnica é conhecida dos leitores brasileiros que tiveram a sorte de ler os dois primeiros volumes da série "O Fotógrafo" (lançada no Brasil pela Editora Conrad). A solução estética surpreende o leitor e confere uma força ainda maior à narrativa.

Valsa com Bashir é leitura obrigatória e se coloca ao lado de outros clássicos dos quadrinhos documentais, como: Maus, de Art Spielgman ou as reportagens em quadrinhos de Joe Sacco.

Serviço: "Valsa com Bashir" - L&PM Editores - Ari Folman e David Polonsky

Hiroshima - o Massacre em Quadrinhos


Na manhã do dia seis de agosto de 1945 Keiji Nakazawa brincava em sua escola, em Hiroshima (Japão), quando a Bomba Atômica foi lançada sobre a cidade. Ele tinha apenas seis anos e viu o pai e dois irmãos morrerem no incêndio que se seguiu à explosão. Keiji e a mãe conseguiram sobreviver. Mas as imagens de destruição ficaram marcadas em sua memória para sempre: pessoas com a pele derretendo de seus corpos, centenas de homens, mulheres e crianças se jogando no rio para tentar fugir aos incêndios que tomaram conta da cidade, prédios destruídos, corpos abandonados pelas ruas... Anos depois Keiji se tornaria um dos mais importantes artistas japoneses e sua obra mais famosa Hadashi no Gen (no Brasil a série foi traduzida como "Gen - Pés descalços") um dos mais aclamados quadrinhos já produzidos (no Japão os quadrinhos são chamados de Mangás) e um dos mais eloquentes manifestos já feitos em defesa da paz.

A história em quadrinhos que conta a saga de Gen Nakaoka, personificação de Keiji Nakazawa, começou a ser publicada no Japão em 1973 nas páginas da revista semanal Shonen Jump. Em pouco tempo "Gen - Pés descalços" se tornaria um obra de referência e leitura obrigatória para entender a tragédia dos ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki. O livro que reúne as páginas semanais do quadrinho foi traduzido para dezenas de idiomas e adotado como leitura obrigatória nas escolas do Japão e do próprio Estados Unidos.

Nakazawa conta que decidiu escrever a história - após anos de resistência em lembrar os horrores da bomba - quando ao cremar o corpo de sua mãe percebeu que, ao contrário do que geralmente ocorrem nestas cerimônias, os ossos haviam sido consumidos pelo fogo. "O césio radioativo tinha devorado o esqueleto de minha mãe, que foi reduzido a cinzas. A bomba atômica tinha tirado tudo de mim, até mesmo os ossos de minha mãe." diz o autor.

Um dos maiores feitos de Gen é dar ao leitor uma visão ampla do cotidiano da vida dos japoneses (em particular, da população de Hiroshima) antes e após a bomba. Pelo relato de Keiji sabemos, por exemplo, que nem toda a população da cidade foi atingida da mesma forma. Uma pequena elite continuou alheia à tragédia enquanto a imensa maioria do povo se viu obrigado a lutar por comida. Neste sentido, a narrativa que se extende por semanas após o lançamento da bomba, consegue ser tão chocante quanto a própria descrição do momento da explosão. Pessoas doentes, sem cabelos, com a pele tomada de feridas e vermes, vagavam pelas ruas, perdidas de suas famílias. A busca desesperada pela sobrevivência levava ao surgimento de quadrilhas especializadas em roubar alimentos para uso próprio e para manter o enorme mercado clandestino.

Outro grande mérito de Gen - Pés descalços é o de não cair no discurso fácil anti-americano (nada mais esperado em um livro que retrata os horrores do ataque nuclear). Nakazawa faz um consistente discurso pacifista e aponta suas críticas tanto aos Estados Unidos quanto ao militarismo do Império Japonês. "Eu odiei os Estados Unidos por terem usado a bomba atômica. O Japão já estava à beira da rendição. Por que os EUA lançaram a bomba em tais circunstâncias? E mais do que isso eu odiava os líderes japoneses que tinham levado o país à guerra", diz. "Não escrevi Gen simplesmente para denunciar a destruição causada pela bomba. Eu queria retratar o processo através do qual o povo japonês foi aprisionado num sistema imperial facista que exaltava o imperador e instigou a nação a uma guerra total", complementa.

A saga de Gen foi adaptada para a TV japonesa em uma novela e em uma animação. Confira abaixo.



















O Testamento das ruínas

Mais de 30 mil mortos, 50 mil presos e 7 mil deportados. Homens, mulheres e crianças fuzilados sumariamente pelas ruas ou soterrados sob os escombros da cidade destruída pelos disparos dos canhões. O massacre lembra Canudos. Mas, em lugar do agreste sertão baiano, o cenário desta história são as ruas e avenidas de Paris.

"O Grito do Povo", do desenhista francês Jacques Tardi, baseado no romance do escritor e roteirista Jean Vautrin, relembra o surgimento e queda da Comuna de Paris: uma revolução que durou apenas 62 dias mas deixou marcas profundas e definitivas na França e no mundo ocidental. O movimento popular, ocorrido entre março e maio de 1871, pretendia a abolição da propriedade privada e uma mudança radical na velha máquina do Estado. A Comuna influenciou grandes pensadores, como: Friedrich Engels, Trotski, Bakunin, Victor Hugo, Émile Zola, Alexandre Dumas, entre outros. Sobre o movimento, Karl Marx afirmou: "A Paris operária, com a sua Comuna, será para sempre celebrada como a gloriosa precursora de uma sociedade nova. A recordação dos seus mártires conserva-se piedosamente no grande coração da classe operária. Quanto aos seus exterminadores, a História já os pregou a um pelourinho eterno, e todas as orações dos seus padres não conseguirão resgatá-los."

A história do movimento que culminaria com a Comuna de Paris começa logo após a guerra da França contra a Prússia. Após uma derrota vexatória, a população acusou os oficiais franceses de abandonarem seus postos e fugirem da luta e resolveu, ela própria, pegar as armas e defender a cidade de Paris. Enquanto isso, o Governo francês se refugiou em Versalhes e começou a elevar os impostos para cobrir as indenizações de Guerra. Era urgente que o comércio e a indústria voltassem à normalidade. Mas os homens de negócios decidiram só recomeçar as operações comerciais e financeiras quando os miseráveis que ocupavam a capital fossem aniquilados.

Foi a tentativa de recuperar os canhões abandonados durante a guerra e "apropriados" pela população, que deu início à revolta. O Governo esperava uma operação simples, mas não contava com a organização popular e a sublevação das tropas.

"O Grito do Povo", que foi publicado no Brasil pela Conrad Editora, está dividido em dois volumes. No primeiro, Tardi e Vautrin rememoram os primeiros momentos da revolução onde, por um curto período, a população tentou organizar uma nova experiência de administração pública, que tinha como principais bandeiras as mudanças nas relações de trabalho e no sistema educacional. O segundo volume se concentra sobre a destruição da revolta... A última barricada de Paris caiu no domingo, 28 de maio de 1871. Ela havia sido construída precariamente em 15 minutos e estava defendida por um único homem.

Reconstituição histórica

A história é conduzida por Vautrin com muita destreza. A forma como o autor une elementos de ficção e realidade confere ritmo e força à narrativa. Um segredo une os dois personagens principais (Tarpagnan, capitão do exército que adere à Comuna e Horace Grodin, um agente de polícia que passou parte de sua vida na cadeia por um crime que não cometeu), e cria uma tensão que atravessa toda a obra. Já o traço de Tardi é único e faz dele um dos artistas mais respeitados nos quadrinhos europeus. Amante da arquitetura parisiense, o artista busca em fotos e postais antigos a inspiração para resgatar uma cidade que se perdeu no tempo. O artista consegue ser fiel. O horror da guerrra civil está retratado fielmente em suas atrocidades cometidas de lado a lado. Desde os padres fuzilados pela Comuna até as crianças mortas pelos soldados fiéis a Versalhes.

"O Grito..." é um preciso trabalho de reconstituição histórica de um período fundamental para a história moderna e leitura obrigatória para quem quer conhecer melhor o Universo dos Quadrinhos.

Para aqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre a Comuna de Paris, seguem algumas dicas:

- A Comuna de Paris, Leon Trotski. Editora Laemmert (1968)

- A Comuna de Paris: os assaltantes do Céu, Horácio Gonzales. Editora Brasiliense (1983)

- Crônicas da Comuna, Victor Hugo, Gustave Flaubert, Emile Zola, Guy de Maupassant, Arthur Rimbaud. Editora
Ensaio (1992)

Confira um excelente documentário sobre o movimento