quarta-feira, 29 de setembro de 2010

História de massacres


Entrevista foi publicada originalmente no jornal O Estado de S.Paulo

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo



Um breve relatório da ONU, datado de 13 de novembro de 1956, dava conta de rumores de atrocidades na Faixa de Gaza. Questionada, a então ministra de Assuntos Exteriores de Israel, Golda Meir, confirmou o registro de “algumas baixas” entre palestinos após uma tentativa de pilhagem. Era situação resolvida, afirmou.
Teria sido também esquecida se, quase meio século depois, uma citação àquele relatório da ONU em um livro de Noam Chomsky não tivesse chamado a atenção do maltês naturalizado americano Joe Sacco. 

Desenhista autodidata e jornalista por formação, pioneiro do chamado jornalismo em quadrinhos, Sacco resolveu investigar o caso a fundo. Era algo que já havia feito com passagens mais recentes da história na graphic novel Gorazde, sobre a Bósnia, e em Palestina, pela qual ganhou, em 1996, um American Book Award.

Ao revirar arquivos e entrevistar mais de 100 pessoas envolvidas, Sacco descobriu que os rumores se referiam a dois massacres ocorridos nas cidades de Khan Younis e Rafah, em 3 e 12 de novembro de 1956, quando foram mortos a tiros, respectivamente, 275 e 111 civis palestinos.

Eram crimes que poderiam passar despercebidos em meio ao intermináveis conflitos no Oriente Médio, mas que, em Notas Sobre Gaza, lançada no ano passado em língua inglesa e que sai neste semestre pela Quadrinhos na Cia., ganha contornos tão humanos quanto difíceis de acreditar. Em conversa por telefone com o Estado, de Portland, onde vive, Sacco falou sobre o trabalho que lhe tomou sete anos entre pesquisa e realização. Veja trechos a seguir.

No livro, vários palestinos dizem que o que aconteceu em 1956 não era importante. Por que tinha tanta certeza de que era?

Os massacres em si eram importantes. Na história do conflito entre palestinos e israelenses, os dois incidentes estão entre os maiores com morte de civis. O de Khan Younis teve o maior número de mortes de civis num único dia em solo palestino. Se os sobreviventes estavam vivos, por que não falar com eles em vez de apenas confiar nos poucos parágrafos do relatório da ONU, que não esclarecem o que houve? Mas ainda há outro lado. Os incidentes fazem parte de um continuum de ataques. As pessoas mais novas, especialmente, perguntavam: “Por que quer saber dessas histórias velhas com tudo o que está acontecendo?” O ponto é que, como jovem no Oriente Médio, você não digere o que aconteceu porque há sempre algo novo sendo enfiado goela abaixo. É triste alguém pensar que não vale a pena olhar para trás.

Mas, entre os mais velhos, havia interesse em falar das guerras de 1948 e 1967.

Sim, isso é verdade. Também acontecia de eles confundirem períodos. Houve tanta coisa difícil na história deles que às vezes eles não sabiam mais dizer o que aconteceu e quando.

Como foi o trabalho de filtrar depoimentos contraditórios?

Bem, você tem que olhar para as lembranças de pessoas sobre o que aconteceu há 50 anos com… não diria ceticismo, mas é preciso olhar de perto para dizer o quanto é de fato verdadeiro, o quanto do que outras pessoas disseram a elas passa a fazer parte das memórias delas também. Não é que não confiasse nelas, mas fiz questão de mostrar em Notas Sobre Gaza essas contradições nos depoimentos para que o leitor conhecesse um problema que enfrentei. O que importa é que o arco da história é real. Algumas pessoas se confundiram, outras disseram coisas que não encaixam na história, mas o arco é real.

Foi difícil achar ex-soldados israelenses dispostos a falar?

Sim, muito. Falei com militares e pesquisadores israelenses que tentaram me ajudar, e também fiz buscas em arquivos. Dois comandantes com quem falei disseram não se lembrar de nada daquilo. Não disseram que não aconteceu, disseram que não se lembravam. Eu questionava às pessoas como podia saber mais sobre o assunto e me recomendavam algum historiador. Daí o historiador dizia que talvez tivesse ouvido algo, mas que não tinha examinado mais detidamente. Minha esperança é que o livro possa fazer as pessoas se voltarem a esse assunto.

Você não teria interesse em retratar como se sentem os israelenses em meio aos conflitos?

Sei que eles sofrem, não há dúvida. A sociedade israelense também sofre com os atentados de palestinos, um lado alimenta o ódio no outro. Mas moro nos EUA, onde a história do lado israelense é muito bem contada, todos conhecem. Aqui, é do lado palestino que nunca se fala. Quero falar das pessoas que saíram como perdedoras na história. Nos EUA, em especial, a palavra palestino é associada ao terrorismo. Quero mostrar o contexto do que acontece. Poderia escrever sobre o lado de Israel, mas sobre isso é possível ler o tempo todo nos jornais.

Houve reações fortes a Notas Sobre Gaza em Israel?

Não repercutiu muito. Uma jornalista israelense escreveu um longo artigo sobre o livro e aquele período. Não soube de muitas reações. Um dos comandantes com quem falei disse à Associated Press: “Isso nunca aconteceu”. Vi as notas da nossa conversa, e ele não tinha negado. Disse só que não tinha ouvido falar. O que é diferente.

Além de resgatar o passado, você relata fatos no presente, como as demolições de casas palestinas próximo à fronteira por forças israelenses…

Bem, não podia deixar de fora o que estava vendo porque, em última instância, eu estava lá e vi tudo. Alguém tinha que registrar aquilo de alguma maneira. As demolições agora também fazem parte da história.

Houve algum trecho específico da história que tenha sido mais difícil de retratar?

Perto do final, quando mostro as pessoas pegando os corpos depois dos massacres, as mulheres removendo os corpos. Foi muito difícil. Tive que fazer daquilo uma passagem curta porque me senti nauseado de desenhar tantos cadáveres, era uma coisa tão repulsiva…

Mas, mesmo com o traço tão realista, com imagens que chocam, você evitou uma certa morbidez que seria possível ao retratar os massacres.

Bem, não queria esfregar tudo na cara dos leitores. A coisa boa do desenho é que serve como filtro. Não sei quanto a você, mas se eu visse um filme com aquelas imagens… É de deixar doente. Mesmo fotografias, seria difícil ver um livro com fotografias de situações como aquelas. Com desenho, não se pode dizer que seja agradável, mas é possível olhar. Além disso, até onde sei, não há fotos daqueles massacres. Com o desenho, com acesso a fotografias de como eram as pessoas ou os campos de refugiados, você pode até certo ponto recriar isso.

Esse cenário conflituoso você já tinha retratado em Palestina. Como começou a se interessar por aquela região?

Quando estava no colégio, eu associava palestinos com terrorismo porque toda vez que ouvia falar neles tinha a ver com bombas ou ameaças. Então fui estudar jornalismo, e, quando comecei a entender o que acontecia no Oriente Médio, me dei conta: os americanos sempre se colocaram como os grandes expoentes do jornalismo, mas nunca me contaram direito o que está acontecendo. Eu me senti traído pela minha profissão. Então, nos anos 80, quis tirar essa história a limpo. Não estava certo do que veria, mas achei que podia retratar minhas experiências na Palestina.

E foi daí que veio a ideia de fazer jornalismo em quadrinhos?

Bem, Palestina foi o primeiro exemplo disso. Não estava pensando em criar uma nova… forma de arte ou seja o que for. Não foi uma decisão consciente, foi meio orgânico. Pensei: vou viver essas experiências, falar com as pessoas, anotar e colocar isso junto. É claro, eu tinha o background jornalístico e isso teve impacto no formato que a coisa tomou, mas só depois comecei a pensar mais claramente no que estava fazendo. Foi na história sobre a Bósnia (Gorazde) que comecei a pensar conscientemente em jornalismo em quadrinhos.

Antes disso, quais eram suas influências como quadrinista?

Provavelmente minha maior influência foi Robert Crumb. Meu desenho era meio parecido com o dele e, a certa altura, achei que devia desenhar de maneira mais realista. Não sei, nunca estudei arte, só tentei tornar mais realista. Meus desenhos sempre serão cartuns, porque foi como comecei. Não consigo desenhar melhor do que desenho e está bem assim, acho que está realista o suficiente.

Você teria interesse em criar uma história de ficção?

Sim, tenho grande interesse. Para ser honesto, estou meio cansado de fazer jornalismo. E passei sete anos fazendo esse livro. Há outras coisas que gostaria de experimentar. Algo mais satírico, engraçado, ou um ensaio, teologia, filosofia, não sei bem.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Os maiores clássicos de Batman - Primeira parte

Como eu havia prometido, segue uma rápida reseha de algumas das mais importantes histórias de Batman já lançadas no Brasil. Não deixe de procurar no sebo mais perto da sua casa.

Vítimas inocentes
A história mostra Batman viajando a um país cujo nome lembra as repúblicas do leste europeu, para investigar a morte de um funcionário das indústrias Wayne, vítima de uma mina terrestre, e o desaparecimento de sua filha. Com roteiro de Dennis O’Neil e desenhos de Joe Staton. A história foi publicada originalmente em 1996 pela DC Comics, em parceria com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos e com o Fundo das Nações Unidas para a Infância e distribuída para milhões de crianças na Bósnia, América Central e Kosovo. O rendas pela comercialização da revista foram revertidas a entidades de combate às minas terrestres. A edição brasileira, lançada em 2003 pela Mythos Editora, reúne ainda uma série de informações sobre a campanha mundial pela erradicação de minas terrestres.


Absolvição
Batman empreende uma busca através de três continentes para achar uma mulher que dez anos antes havia sido responsável por um atentado às empresas Wayne. A personagem Jennifer Blake tenta encontrar o perdão para seu crime trabalhando como voluntária no atendimento de crianças e idosos na Índia. A história tem roteiro de J.M DeMatteis e desenhos de Brian Ashmore. Aliás, a arte desta revista é o seu ponto alto. Brian usa um jogo de luz e sombras que confere dramaticidade à narrativa. A edição brasileira foi lançada em 2005 pela Panini.

O Estigma do Batman
Uma inusitada história de Batman onde o homem morcego não aparece uma única vez. O roteiro de Christopher Golden e Tom Sniegoski apresenta um jovem com deficiência mental leve que vive um mundo de fantasia e se considera o próprio herói em pessoa. Para salvar seus amigos em perigo ele enfrenta as gangues do bairro e acaba espancado na rua. Além do roteiro criativo, o traço de Marshall Rogers é refinado, com um toque de humor. “O Estigma...” foi lançado no Brasil pela Mythos Editora em 2002.

O Messias
A história tornou-se um dos maiores clássicos de Batman. Lançada originalmente no Brasil em 1989, “O Messias” foi reeditada em 2007. O roteiro é assinado por Jim Starlin e a arte é de Bernie Wrightson. A história mostra o homem morcego enfrentando um fanático religioso que usa alucinógenos para subjugar uma legião de seguidores. O próprio Batman é submetido a elevadas doses de droga e se transforma em um corrompido seguidor do misterioso líder Blackfire. Messias revelou aos fãs uma face poucas vezes vista do herói.

Batman Ano 100
Publicada em dois volumes, a história do premiado Paul Pope e José Villarrubia mostra o personagem Batman ambientado em uma Gotham futurista, em 2039. Em um mundo totalitário, dominado por uma polícia psíquica, o homem de capa ressurge 100 anos depois da sua primeira aparição como símbolo de um passado de resistência. A revista foi lançada pela Panini e teve como mérito revelar aos leitores brasileiros o trabalho do fabuloso artista Paul Pope.

Batman Houdini
O maior mágico de todos os tempos se une ao maior de todos os detetives. Ambientada no ano de 1907, a história mostra o mágico e Batman juntos para encontra e prender o misterioso assassino de crianças nas ruas de Gotham. O roteiro é assinado por Howard Chaykin e John Francis Moore e os desenhos são de Mark Chiarello. A edição brasileira foi lançada em 1995 e se tornou um item de colecionador.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Camelot 3000 - clássico revisitado



Uma grande notícia! 

A editora Panini anuncia o relançamento de um dos maiores clássicos da História em Quadrinhos: Camelot 3000. Lançada originalmente no Brasil na década de 80, a história tornou-se uma lenda ao lado de Watchmen, V de Vingança, O Cavaleiro das Trevas e Piada Mortal – todas elas publicadas nos anos 80.   

Camelot 3000 traz a história do Rei Artur e sua távola redonda transposta para o futuro. Os autores Mike W. Barr e Brian Bolland criam uma trama revolucionária para a época, inclusive com cenas explícitas de homosexualidade. Com a terra invadida por criaturas alienígenas, Artur e seus companheiros vão travar uma batalha com armas futuristas para salvar o planeta.

Uma pedida imperdível para quem quer ter na estante uma das obras fundamentais da Nona Arte e que influenciou uma legião de artistas nos anos seguintes.

A expectativa fica por conta da qualidade gráfica desta reedição e do preço que a editora deve colocar em capa. A última reedição de Camelot 3000, pela Editora Mythos, foi alvo de muitas críticas pelo preço e pela qualidade da 
revista (papel, tinta...)

Agora é torcer os dedos e aguardar...


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mulheres que amam demais


Por que uma mulher resolve procurar na cadeia um homem condenado por assassinatos e estupros? Que tipo de fascínio esses assassinos em série despertam sobre centenas de mulheres a ponto de se tornarem campeões em número de correspondências recebidas? O que leva uma mulher a se casar (na cadeia) com um homem que responde por 10 assassinatos e violência sexual contra outras mulheres?

Para tentar buscar respostas para estas perguntas, o jornalista Gilmar Rodrigues realizou uma pesquisa de quatro anos. Ao longo deste período ele entrevistou quase 100 pessoas, entre presos, mulheres, delegados, policiais, psiquiatras e outros personagens e buscou traçar o perfil psicológico destas mulheres. O resultado desta investigação pode ser conferido no livro “Loucas de Amor”, lançado pela Editora Ideias a Granel e na versão em quadrinhos do livro-reportagem feito em parceria com o artista Fido Nesti (um nome já respeitado no universo dos quadrinhos brasileiros).


O projeto é inédito. Pela primeira vez o mercado editorial do país faz um lançamento simultâneo em quadrinhos e leitura convencional. Uma forma ousada de levar o conteúdo da reportagem de Gilmar Rodrigues a novos públicos. A proposta do quadrinho era desvendar os bastidores da investigação jornalística. São sete histórias que se encadeiam: os tranqueiras, os jacks (modo como os assassinos sexuais são conhecidos na cadia), eu não sou Jack, o bandido uiva para a lua, anão de Ananindeua, as mulheres dos jacks, cartas marcadas de batom e querido diário. Gilmar e Fido abordam a trajetória de assassinos que alcançaram notoriedade pública, como: o maníaco do parque – Francisco de Assis Pereira e o bandido da luz vermelha – João Acácio da Costa.

Em suas entrevistas, Gilmar encontrou mulheres com alguns traços em comum: autoestima baixa, com poucas perspectivas e “problemas na formação do sentimentos”. Muitas apresentam um histórico de abandono ou abuso sexual e uma dificuldade de lidar com o sexo masculino. A maioria delas relata que são tratadas como rainhas pelos condenados... “As mulheres que se correspondem com o Maníaco do Parque dificilmente falam em sexo. Quanto mais perigoso, sanguinário e sexualmente predador, mais elas desenvolvem uma visão romântica deles”, diz Gilmar. As mulheres ouvidas pelo jornalista eram de diferentes idades e classes sociais. Algumas com pós-graduação.


Ao final, Gilmar não consegue desvendar completamente o enigma... Fica a mesma dúvida do início da sua investigação: "Essas mulheres correm o risco de se tornarem vítimas desses criminosos... na penitenciária de Itaí, no interior paulista, onde estão confinados apenas homens condenados por crime sexual, há mulheres, até casadas, que escrevem para os presos, ansiosas por um relacionamento amoroso", diz.

Um dos casos mais surpreendentes é o ocorrido com o Maníaco do Parque. “Marisa Mendes Levy, pós-graduada em História, de família judaica e classe média alta, o viu pela primeira vez na televisão, concedendo entrevista. Ela se interessou e mandou uma camiseta com alguns dizeres. Depois que ela havia desistido, o viu novamente na TV vestindo a camiseta. Ela escrevia de dois em dois dias para ele, cartas enormes", afirma Rodrigues em entrevista concedida à revista época. "Durante todo o trabalho, busquei uma razão capaz de explicar o fenômeno, explicar essa atração feminina. Em vez de encontrar duas ou três respostas diretas, elas se multiplicaram em cada caso, cada vida. Em mim sobrou uma profunda tristeza. Um retrato perturbador da solidão e da miséria humana".

Confira uma entrevista com Gilmar Rodrigues na MTV

Pausa para a boa música

O clássico Let It Be, em uma versão gospel. A cena faz parte do filme "Across the Universe" - imperdível para os fãs dos Beatles...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O universo paralelo de José Carlos Fernandes



O voo 713 para Belize nunca chegou ao seu destino. O aparelho foi encontrado dois dias depois, nas profundezas da selva do Yucatan, perto de Uxmal, não muito danificado. Mas da tripulação e passageiros, nem rasto. Quando os peritos aeronáuticos analisaram as caixas negras do aparelho ficaram perplexos: em vez do registo das conversações no cockpit e das comunicações entre o avião e os controladores aéreos, as fitas continham apenas histórias insólitas e aparentemente sem nexo, narradas por uma voz arrastada e monocórdica, que não foi identificada como pertencendo a qualquer dos membros da tripulação...


O português José Carlos Fernandes, um dos maiores expoentes da nona arte da atualidade, está lançando no Brasil (com um atraso de 4 anos) um dos seus projetos mais audaciosos: Black Box Stories. O artista já é conhecido mundialmente graças à série “A Pior Banda do Mundo” (já comentada no Nona Arte). José Carlos é dono de uma criatividade sem igual. O artista tem um ritmo intenso de produção e conseguiu produzir um universo paralelo, com tipos inacreditáveis dignos de um romance de Mia Couto...

A produção de José Carlos é tão intensa que ele já acumula centenas de histórias prontas para serem convertidas em quadrinhos. Para dar vazão a parte dessas histórias, o artista português decidiu buscar uma parceria com outros desenhistas e lançou a primeira parte de uma nova e promissora série a “Black Box Stories” ou Histórias da Caixa Preta... Nesta primeira edição, José Carlos Fernandes tem a companhia do desenhista Luís Henriques, um desconhecido e talentoso artista português.

Com estas parcerias, José Carlos consegue dois excelentes resultados: dar vazão às suas histórias e oferecer aos seus leitores outras interpretações – muitas vezes mais adequadas às suas histórias que o seu próprio traço.

Em “Tratado de Umbrografia”, o artista nos brinda com seis histórias fascinantes: Tratado de Umbrografia, Elegia americana, A substância de que são feitos os sonhos, A feira de políticos manuseados, Zuma – o tatuador e O avanço do deserto. Assim como já havia feito nos seis volumes já lançados de “A pior banda do mundo”, José Carlos revela personagens fantásticos, como: o homem que tem seus sonhos materializados, o tatuador que cria imagens que submetem seus clientes às suas vontades ou o homem que busca encontrar uma forma de arte para expor seus sentimentos...

Sem deixar de adotar uma boa dose de humor (sua marca registrada), José Carlos alcança em "Tratado..." um nível inédito de lirismo. Ao mesmo tempo, o jovem e talentoso Luís Henriques consegue imprimir uma personalidade de traço para cada história... desde o etéreo "A substância de que são feitos os sonhos" até o agressivo "Zuma - o tatuador"...

Tratado de Umbrografia está sendo lançado pela Editora Devir. Imperdível. 

domingo, 29 de agosto de 2010

Pausa para a boa música - Mais um Jazz de Blacksad

Blacksad - um detetive com sete vidas


Durante o período da Guerra Fria, qual seria o melhor modo de impedir o início de um conflito nuclear entre as duas maiores potências mundiais? Ao longo das quatro décadas que duraram a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética, essa era a pergunta que dominava o cenário da política internacional. O fato é que, por mais paradoxal que possa parecer, foram as armas atômicas o maior argumento para evitar a Guerra Total... Em outras palavras, foi apenas por saber que o adversário tinha armas iguais às suas, que russos e americanos jamais começaram uma nova guerra mundial.

Partindo desse contexto, os artistas espanhois Juan Díaz Canales e Juan Guarnido produziram um dos mais criativos romances gráficos desde de Watchmen (de Alan Moore). Blacksad – Alma Vermelha conta a história de um cientista/pacifista que repassa segredos nucleares aos inimigos para tentar assegurar um tênue equilíbrio de forças entre as duas superpotências. A história faz parte de uma das mais bem sucedidas séries dos quadrinhos mundiais, vencedora de prêmios na Espanha, França, Bélgica e Estados Unidos. Detalhe fundamental: todos os personagens de Blacksad são seres antropomorfos – fusão entre homens e animais. O personagem que dá nome à série, o detetive John Blacksad, é um gato preto metido constantemente em confusões com tigres, cachorros, jacarés, raposas, ursos... 

Essa não é a primeira vez que um autor usa este tipo de recurso em um romance gráfico. O artista americano Art Spielgman havia representado judeus e alemães como ratos e gatos no seu clássico ´´Maus´´ - que conta a história dos campos de Auschwitz. Mas Juan Canales e Juan Guarnido se utilizam deste recurso de forma ainda mais ousada e magistral. O traço de Guarnido é um dos melhores do quadrinho atual. Ele consegue imprimir, com enorme competência, expressões humanas a rostos de animais... O autores brincam com os estereótipos e retratam gorilas e lagartos como seguranças de mafiosos, raposas jornalistas, gatas insinuantes, cachorros policiais...

As duas primeiras histórias de Blacksad foram lançadas no Brasil em 2006, com um atraso de seis anos da primeira edição francesa. A primeira história – Em algum lugar entre as sombras – mostra o detetive investigando a morte de uma ex-namorada, que havia se envolvido com um perigoso gangster. No segundo volume – Nação Ártica – Blacksad investiga o seqüestro de uma menina ´´mestiça´´ em meio um conflito racial.

A Editora Panini deve lançar “Alma Vermelha” ainda neste ano. Um grande mérito da Editora foi o de manter os livros a preços acessíveis e disponibilizá-los em bancas. Isso mostra uma preocupação com a formação de novos públicos. Fato – infelizmente – raro por aqui quando, quase sempre, as boas HQs se transformam em livros caros, para leitores iniciados.

Confira uma edição de imagens de "Alma Vermelha" ao som de um excelente jazz. O clima perfeito para uma fantástica história policial.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Uma boa e uma má notícia



A editora HQ Maniacs acaba de divulgar uma notícia que ao mesmo tempo em que atende a uma antiga expectativa dos  colecionadores de quadrinhos, frustra aqueles que almejam o crescimento do número de leitores e a valorização da linguagem dos quadrinhos na cultura nacional.

A HQM está relançando no Brasil a fantástica série Classics Illustrateds,  editada no Brasil pela Editora Abril na década de 80. A coleção original, publicada nos Estados Unidos, reunia 27 títulos. Mas apenas 12 números chegaram por aqui.

A HQ Maniacs promete agora lançar toda a série e outros três títulos inéditos que nunca haviam sido publicados em nenhum outro país. O primeiro livro será uma versão de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, pelo premiado artista Kyle Baker.

A minha crítica fica por conta do preço pelo qual a série será vendida no Brasil - R$ 39,00 para o primeiro volume. É lamentável ver uma excelente oportunidade de atrair e formar novos leitores para a Nona Arte ser perdida desta forma. Por este preço, a coleção acabará restrita às livrarias (ao contrário da primeira versão lançada pela Abril, que foi comercializada nas bancas de revistas). 

A Abril lançou nos anos 80 os títulos: Moby Dick, Grandes Esperanças, Hamlet, O Conde de Monte Cristo, A Ilha do Dr. Moreau, As aventuras de Tom Sawyer, A Queda da Casa dos Usher, O Morro dos Ventos Uivantes, A Letra Escarlate, A Ilha do Tesouro, Cyrano de Bergerac, e O Presente de Natal e Outras Histórias.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Pausa para a boa música

David Fonseca, ex-lider da banda portuguesa Silence 4

Batman para gente grande


Quem acompanha o Nona Arte sabe que quadrinhos é coisa séria. Mas em meio a tantos posts sobre romances gráficos, biografias históricas, narrativas de guerras, talvez você estranhe esta nota sobre Batman. Afinal, pode pensar um leitor incauto, o que faz um heroi em um blog sobre literatura e quadrinhos? Explico....

Batman é, na minha concepção, o melhor e mais complexo personagem dos quadrinhos mundiais. Seus conflitos psicológicos, seus traumas de infância, sua inteligência... fazem dele um heroi muito acima da média dos demais.

Algumas das histórias de Batman tornaram-se clássicos da cultura pop, como: Piada Mortal, de Alan Moore (o mesmo autor de Watchmen) ou Asilo Arkham....

A boa notícia para os fãs do cavaleiro das trevas é que está chegando ao mercado europeu um box que reúne algumas das melhores histórias já criadas com o homem morcego:
  1. Año uno, de Frank Miller y David Mazzucchelli
  2. Batman y los hombres monstruo, de Matt Wagner
  3. Batman y el monje loco, de Matt Wagner
  4. El hombre que ríe, de Ed Brubaker y Doug Mahnke
  5. Veneno, de Denny O’Neil, Trevor Von Eaden, Russell Braun y José Luis García López
  6. La broma asesina, de Alan Moore y Brian Bolland
  7. El largo Halloween, de Jeph Loeb y Tim Sale
  8. Victoria oscura, de Jeph Loeb y Tim Sale
  9. Momentos decisivos, de Greg Rucka, Ed Brubaker, Chuck Dixon, Steve Lieber, Dick Giordano, Bob Smith, Brent Anderson, Paul Pope y Claude St. Aubin
  10. Joker, de Brian Azzarello y Lee Bermejo
  11. Locura, de Jeph Loeb y Tim Sale
  12. Robin. Año uno, de Chuck Dixon, Scott Beaty, Javier Pulido, Marcos Martín y Robert Campanella
  13. Reglas de compromiso, de Andy Diggle y Whilce Portacio
  14. La gata y el murciélago, de Fabian Nicieza y Kevin Maguire
  15. El culto, de Jim Starlin de Berni Wrightson
  16. Una muerte en la familia, de Jim Starlin y Jim Aparo
  17. Justicia ciega, de Sam Hamm, Denys Cowan y Dick Giordano
  18. Arkham Asylum, de Grant Morrison y Dave McKean
  19. Secretos, de Alex Sinclair y Sam Kieth
  20. Un lugar solitario para morir, de Marv Wolfman, George Pérez y Jim Aparo
  21. Terrores nocturnos, de Chuck Dixon, Jim Aparo y Norm Breyfogle
  22. La venganza de Bane, de Chuck Dixon, Graham Nolan y Eduardo Barreto
  23. El murciélago roto, de Chuck Dixon, Jim Aparo y Graham Nolan
  24. El ángel oscuro, de Chuck Dixon, Graham Nolan
  25. La cruzada, de Chuck Dixon, Mike Manley y Graham Nolan
  26. Restos mortales, de Chuck Dixon, Graham Nolan
  27. Demonios, de Chuck Dixon, Graham Nolan
  28. Baile oscuro, de Doug Moench y Mike Manley
  29. La búsqueda, de Alan Grant y Bret Blevins
  30. El regreso del murciélago, de Doug Moench y Mike Manley
  31. Pródigo, de Chuck Dixon, Alan Grant, Doug Moench, Bret Blevins y Romeo Tanghal
  32. Troika, de Chuck Dixon, Graham Nolan
  33. Cataclismo, de Chuck Dixon, Graham Nolan
  34. Atrapado, de Chuck Dixon, Graham Nolan
  35. Al final de día, de Chuck Dixon y Mark Buckingham
  36. Ciudad muerta, de Chuck Dixon y Mark Buckingham
  37. Tierra de nadie, de Greg Rucka y otros
  38. La fe del miedo, de Greg Rucka y otros
  39. Guerra territorial, de Greg Rucka y otros
  40. Harley Quinn, de Paul Dini, Yvel Guichet y Aaron Sowd
  41. Ciudad sin ley, de Greg Rucka y otrosç
  42. Efectos personales, de Devin K. Grayson y Paul Ryan
  43. El regreso de Ra’s al Ghul, de Grant Morrison, Fabien Nicieza, Peter Milligan, Tony Daniel y otros
  44. La muerte y las doncellas, de Greg Rucka y Klaus Janson
  45. Un paseo por el parque, de Greg Rucka y Shawn Martinbrough
  46. Agente herido, de Greg Rucka, Ed Brubaker, Chuck Dixon y otros
  47. Santuario, de Ed Brubaker y Scott McDaniel
  48. Bruce Wayme ¿asesino?, de Ed Brubaker, Greg Rucka y otros
  49. Bruce Wayne fugitivo, de Ed Brubaker, Greg Rucka y otros
  50. Tabula rasa, de Scott Beatty y otros
  51. El regreso del caballero oscuro, de Frank Miller y Klaus Janson
Agora é torcer muito os dedos e esperar que este lançamento chegue ao mercado brasileiro. A maioria dessas histórias inseridas na série lançada na Espanha já foram publicadas no Brasil, algumas delas há quase vinte anos, e se tornaram objetos de cobiça de colecionadores.

Prometo trazer em breve comentários sobre as melhores histórias....

Por enquanto, fique com um comercial sobre a coleção recém lançada...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Magneto: o sobrevivente


Uma criança separada dos pais, em pleno campo de concentração de Auschwitz, contorce as grades de ferro da cadeia apenas com o poder da mente... Quando Bryan Singer, diretor do filme X-Men, criou a sua versão para a origem do personagem Magneto, deixou uma legião de fãs imaginando: como teria sido a história da humanidade, se seres com poderes extraordinários tivessem existido e confrontado a violência de regimes como as ditaduras de Hitler ou Stalin.

Aquela criança, que se tornaria o poderoso personagem Magneto, fez sua estreia nos quadrinhos em 1963 e de lá para cá, esteve presente ao longo de toda a saga dos X-Men. Agora Magneto ganha uma edição especial, que acaba de chegar ao Brasil pela editora Panini. A história foge completamente ao padrão das demais histórias da série. Em lugar de centrar sua atenção sobre as incríveis habilidades de Magneto, o livro prefere se dedicar integralmente ao relato do drama dos judeus durante o Holocausto. As poucas manifestações do poder de Magneto ao longo da história passam praticamente sem serem notadas. Nada de barras de ferro contorcidas ou de armas e soldados destruídos. Em lugar disso, apenas morte e sofrimento.
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O livro começa na adolescência de Magneto – ainda chamado de Max Eisenhardt – e narra o início da repressão contra os judeus na Alemanha, a fuga de milhares deles para a Polônia, a deportação para os campos e o genocídio. Magneto-Testamento é cuidadoso na reprodução de dados históricos. Ao longo de todo o livro, há notas informativas que ajudam a situar o leitor sobre os acontecimentos. Como o assassinato do adido alemão Ernest vom Rath em Paris por um adolescente judeu – Herschel Grynszpan – cuja família havia sido deportada da Alemanha para a Polônia. O crime daria início a uma onda de violência indiscriminada contra judeus na Alemanha e na Aústria. Cerca de 7.500 estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus foram saqueados e depredados. A partir deste momento, a legislação anti-semita se tornaria cada vez mais dura.
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Os dois momentos mais marcantes da história, entretanto, seriam: a narrativa sobre a vida no Gueto de Varsóvia, onde todos os judeus deportados seriam obrigados a viver em uma área vigiada de 3,5 quilômetros de extensão; e – como não poderia deixar de ser – as histórias do Campo de Auschwitz.
O trabalho de pesquisa dos autores é extremamente minucioso. Desde o cuidado com a reprodução dos ambientes e roupas, até o rigor na reconstituição histórica da rotina dos prisioneiros judeus. O traço e a opção de cores, acentuam o tom sombrio da história. A qualidade estética do trabalho é excelente, o que é valorizado pela excelente edição brasileira.

Ultraje Final






Para além da ficção, entretanto, o livro revela aos leitores uma outra história fantástica: a trajetória da artista Dina Babbitt, sobrevivente de Auschwitz, que foi obrigada, durante sua permanência no Campo, a pintar dezenas de quadros de outros prisioneiros submetidos às sádicas experiências do Dr. Mengele (conhecido como o Anjo da Morte). Após o fim da guerra, Dina fez carreira como desenhista de animação (incluindo produções para os estúdios Warner Brothers, Disney e MGM. A história de Dina foi reproduzida, em quadrinhos, ao final da história de Magneto e faz parte de uma campanha mundial que diversos artistas estão movendo para que o Museu do Holocausto, em Auschwitz, devolva à família de Dina (falecida em 2009), os desenhos feitos por ela, que compõe seu acervo.
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O posfácio de Magneto-Testamento é assinado pelo Diretor Editorial da Marvel, Stan Lee, e foi lançado originalmente na edição americana quando Dina ainda era viva. Lee fazia uma veemente defesa para que os trabalhos criados pela artista durante o cativeiro lhes fossem (por direito) devolvidos. Leia o editorial de Lee abaixo e assista a um vídeo sobre a campanha em defesa de Dina.




Editorial de Stan Lee sobre Dina Babbitt


Karin In the depths of the hell called Auschwitz, Dina Gottliebova (Babbitt) painted a mural of Snow White on the children’s barracks. She used a cartoon character to bring a few moments of joy to the Jewish children whose lives were about to be extinguished by the Nazis. Cartoon characters are part of a universal language of imagination that touches children --and more than a few adults-- in every corner of the globe.

Dina knowingly risked her life by undertaking that defiant gesture of humanity. She knew the Germans would not tolerate such defiance. Trapped in a world of horror and evil, where heroes were all too few, Dina demonstrated that she was a true hero.

Dina’s mural was discovered but, miraculously, her life was spared because the Germans had use for her artistic talent. Snow White saved Dina’s life and, in turn, Dina tried to save others. Compelled by the infamous Dr. Josef Mengele to paint portraits of Gypsy prisoners, Dina dragged out the process for as long as possible, knowing that as long as the prisoners were being painted, they would remain alive.

In the years after her liberation from Auschwitz, Dina continued to use cartoon characters to bring joy to children’s lives. Today, every time someone watches a cartoon with Daffy Duck, Wily E. Coyote, or Cap’n Crunch, they may very well be enjoying images that Dina helped create.

As for the images Dina created in Auschwitz, seven of those portraits somehow survived, and are being held by the Auschwitz State Museum. Dina wants them back, and she has every right to get them back. Surely she should be allowed to keep this one small piece of the life that the Nazis ripped from her and her family.

Those of us who work in the world of comic books and cartoons bear a special obligation to raise our voices in support of Dina’s effort to regain the portraits she painted in Auschwitz. When others were in need, Dina stood up for them. Today, we must stand up for Dina.

sábado, 14 de agosto de 2010

Os quadrinhos revisitam Auschwitz - parte 1


É inevitável. Quando pensamos no terror e absurdo da Segunda Guerra, a primeira imagem que imediatamente vem à cabeça da maioria da população ocidental é dos campos de concentração de Auschwitz; um conjnto de três grandes campos de extermínio nazista e outros 40 pequenos campos de apoio construídos na Polônia, a sessenta quilômetros da capital Cracóvia.

A indústria do cinema eternizou, em dezenas de filmes, o massacre de judeus, ciganos, homossexuais, intelectuais,prisioneiros de guerra e outros grupos perseguidos pelos alemães. Filmes como "A Vida é Bela", "A lista de Schilinder", "A escolha de Sofia", "O menino do pijama listrado", "Amarga sinfonia de Auschwitz" entre outros, fizeram com que o holocausto não caísse no esquecimento, mesmo passados mais de 65 anos. Fenômeno que não ocorreu com outros massacres recentes, como: guerra da Bósnia, o genocídio de Rwanda, a matança em Timor Leste, apenas para citar alguns exemplos.

As histórias de Auschwitz, como não poderia deixar de ser, também chegaram aos quadrinhos. Já há alguns anos, diferentes artistas vêm se dedicando a construir roteiros e ilustrações para romances gráficos que têm os campos como cenário... O Blog Nona Arte faz a partir de hoje, a avaliação de trabalhos elaborados sobre o tema, alguns deles inéditos no Brasil. Acompanhe o Blog nas próximas semanas

Maus, de Art Spielgman











Magneto, Testamento











Auschwitz, de Pascal Crocci











A Busca, de Eric Heuvel

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Quadrinhos contra o terror


 Uma ONG da Indonésia deve enviar a escolas e bibliotecas do país a partir do mês que vem uma história em quadrinhos que conta a vida do único autor ainda vivo do atentado de 2002 contra o balneário indonésio de Bali, no qual morreram 202 pessoas.

Ketika Nurani Bicara (“Quando a Consciência Fala”, em tradução livre), com tiragem de dez mil exemplares, narra a história de Ali Imron de jovem muçulmano a terrorista condenado.

O objetivo da publicação é alertar os jovens do país sobre o perigo do extremismo islâmico. Ali Imron cumpre atualmente sentença de prisão perpétua pelo ataque. Ele só não foi condenado à morte porque se mostrou arrependido e aceitou colaborar com a polícia.

"A partir do momento em que fui instruído a levar a bomba (...) havia dúvidas em meu coração. Será que isso é mesmo jihad (guerra santa)?", disse ele durante seu julgamento, em 2003.

Trama
A HQ é publicada pela ONG Lasuardi Birru, baseada na capital indonésia, Jacarta. A organização combate o extremismo entre jovens. A chefe da ONG, Dhyah Madya Ruth, disse à BBC que levou um ano para coletar o material para a história. "O mais difícil foi convencer Imron a colaborar. Também tivemos dificuldade por ele ter sido condenado por terrorismo, o que significou lidar com uma complicada burocracia", disse ela. A trama começa após a prisão de Imron e, olhando para trás, mostra como ele foi recrutado, o planejamento dos ataques de 12 de outubro de 2002, sua vida como fugitivo e a captura.
A história mostra ainda um muçulmano de Bali que ajudou as vítimas e uma muçulmana que perdeu o marido no ataque.

"Por ser baseada em uma história real, tudo no livro é um relato fiel dos envolvidos", disse ela.
"O objetivo do livro é simples, Imron deseja compartilhar sua experiência porque lamenta ter se envolvido com terrorismo. Ele quer evitar que os jovens façam o que ele fez", completa. No julgamento, Imron disse que Bali foi escolhida por ser frequentada por americanos, mas o fato de a maioria das vítimas ser australianos e indonésios levou a polícia a pensar que os autores estavam mal-preparados ou estavam sendo manipulados. Imron citou um líder religioso que teria dito que o ataque seria "parte da guerra santa para proteger o povo afegão dos americanos".

do site da BBC Brasil

terça-feira, 10 de agosto de 2010