sábado, 10 de julho de 2010
Uma pausa para a boa música
Nova história de Joe Sacco
O jornal inglês The Gardian publicou recentemente uma história de Joe Sacco ainda inédita em livro. Nela o jornalista volta ao seu país (Malta) para falar sobre a história dos imigrantes africanos que chegam à ilha fugindo das guerras e da pobreza no continente, em busca da sonhada europa. Clique aqui para acessar as páginas.
(do Blog Entrecomics)
Diário de Anne Frank vira história em quadrinhos
O Museu Anne Frank, em Amsterdã (Holanda), lançou nesta sexta-feira uma versão em quadrinhos do célebre diário escrito por uma adolescente que se tornou o documento mais conhecido sobre o Holocausto.
Annelies Marie "Anne" Frank (1929-1945) nasceu em Frankfurt (Alemanha) e morava na capital da Holanda quando o país foi invadido pelos nazistas.
Judia, durante meses a família Frank conseguiu viver escondida em uma casa em Amsterdã até ser denunciada e deportada para um campo de concentração. A garota relatou todo o drama — da vida reclusa ao horror da prisão — em uma série de diários.
Anne e sua irmã Margot morreram em março de 1945, vítimas de tifo, aos 15 e 19 anos, respectivamente, no campo de concentração de Bergen-Belsen, poucas semanas antes de sua libertação pelo exército britânico.
Best-seller
Annemarie Bekker, porta-voz do Museu Anne Frank (que funciona na casa onde a família se escondeu), disse que a versão em quadrinhos quer chegar aos jovens que, caso contrário, poderiam não ter acesso aos diários da menina.
Publicado pela primeira vez em 1947, o Diário de Anne Frank, relato simbólico da perseguição dos judeus pelos nazistas, foi traduzido desde então para 70 idiomas. Mais de 35 milhões de exemplares foram vendidos no mundo. Em 1959, Hollywood o adaptou ao cinema, com a atriz Millie Perkins no papel de Anne.
A versão para os quadrinhos do diário foi feita por Sid Jacobson e Ernie Colón, que assinam a adaptação no formato HQ para os relatórios dos atentados de 11 de setembro.
O livro deverá ser lançado ainda este mês nos Estados Unidos e em breve na Inglaterra. Traduções para o alemão, francês e italiano foram planejadas.
O museu colocou em seu canal no YouTube uma animação dos quadrinhos:
(publicada no jornal Diário Catarinense)
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Quadrinhos e denúncia
A fusão entre quadrinhos e internet tem resultado em projetos que estão revolucionando o cenário mundial das artes e principalmente do jornalismo. Há diversos sites na web que têm servido de plataforma para histórias que revelam os bastidores de acontecimentos recentes da política internacional. Dois exemplos desses portais são o Zarah´s Paradise e o Archomix.
O site Archomix foi criado em 2008 pelo americano Dan Archer e está voltado a oferecer ao público uma nova perspectiva sobre temas da política externa e interna dos Estados Unidos e ``dar voz àqueles que, de outro modo não poderiam ser ouvidos´´. Entre as diversas histórias disponibilizadas no site os leitores podem encontrar quadrinhos sobre as desventuras de mendigos nas ruas de Lagos (Nigéria), o envolvimento dos Estados Unidos no golpe contra Salvador Allende no Chile, a exploração do trabalho escravo de agricultores da América Central em fazendas de tomate da rede Burger King na Flórida ou ainda o recente golpe de estado em Honduras. Essa última história ganhou uma versão impressa que pode ser adquirida por meio do próprio site por apenas cinco dólares.
Assim como o jornalista Joe Sacco, o quadrinista Dan Archer não hesita em fazer suas escolhas. No caso do golpe de estado em Honduras ele claramente defende o ex-presidente Manuel Zelaya. O artista tem construído uma rede de articulações e já conseguiu traduzir suas histórias para diferentes idiomas, incluindo japonês. Recentemente Archer iniciou uma colaboração com uma lenda dos quadrinhos americanos Havery Pekar e tem desenvolvido uma história sobre a cultura e a literatura dos judeus que viveram no leste europeu.
Perseguição em Teerã
Outro site que tem utilizado a linguagem dos quadrinhos para contar histórias verdadeiras e fazer denúncias políticas é o Zahara´s Paradise. O site é resultado da inusitada reunião entre um escritor persa, um artista árabe e um editor judeu. Suas identidades são mantidas em anonimato para evitar perseguições políticas.
A história une ficção e realidade para denunciar os desrespeitos aos direitos humanos e políticos do povo iraniano a partir da eleição de 2009, que foi denunciada internacionalmente como uma fraude. Uma mãe busca desesperadamente notícias sobre o filho ativista desaparecido após os protestos que tomaram Teerã. O jovem Mehdi some sem deixar vestígios. Em nenhum dos lugares pelos quais sua mãe e seu irmão peregrinam há qualquer notícia que permita levar ao seu paradeiro.
O autor da história, que usa o pseudônimo de Amir, tem descendência americana e iraniana e é jornalista, documentarista e militante dos direitos humanos. Já o ilustrador, que usa o nome de Khalil tem um trabalho reconhecido internacionalmente. Zahra´s Paradise é sua primeira graphic novel.
Zahra´s Paradise está disponível no site em inglês, farsi, árabe, francês, italiano, espanhol, português e deve ganhar versões em outros idiomas em breve. O projeto tem despertado a atenção da mídia internacional e já foi destaque em jornais e revistas internacionais, como a alemã Der Spiegel, a inglesa The Economist ou o jornal brasileiro Folha de S.Paulo.
Folhetim
Zahra´s Paradise é publicada em formato de folhetim. Todas segundas, quartas e sextas uma nova página é lançada no site. Até o dia nove de julho, já haviam sido publicadas 66 páginas da história. A história revela a ocorrência de prisões ilegais ocorridas dentro de hospitais, onde até mesmo manifestantes feridos foram levados pela polícia política iraniana.
Uma das páginas está dedicada a Neda Agha Soltan, a jovem iraniana assassinada em junho de 2009 durante uma passeata e que ser tornou mártir e símbolo da resistência contra a violência da polícia iraniana. A morte de Neda foi registrada em vídeo e massificada através de blogs no mundo inteiro.
Assista a um filme de animação que conta os últimos momente de vida de Neda.
sábado, 26 de junho de 2010
Quatro vezes Moby Dick
A história da enorme baleia branca que destroi um navio e elimina sua tripulação foi eternizada no livro Moby Dick, lançado em 1851 pelo escritor americano Herman Melville. Moby Dick é considerado pela crítica como um dos livros fundamentais da literatura universal, ao lado de Ulisses, de James Joyce; Don Quixote, de Cervantes ou Em Busca do Tempo Perdido; de Marcel Proust.
As diferentes adaptações da obra em desenhos animados, como a série da Hanna Barbera exibida nos anos 70, acabaram banalizando a história e diminuindo a importância dramática do romance. Moby Dick representa o eterno conflito entre o Homem e seu destino ou entre e o Homem e a grandeza da natureza representada pela cachalote.
O mais impressionante é que a história criada por Melville foi baseada em fatos reais. Em 1820 o navio baleeiro Essex foi atacado por uma baleia enfurecida. O navio afundou rapidamente e os náufragos tiveram que navegar durante três meses e milhares de milhas do oceano Pacífico para encontrar o resgate. Apenas oito dos 21 marinheiros sobreviveram.
As pesquisas do Blog Nona Arte encontraram quatro versões em quadrinhos do clássico americano: uma leitura feita pelo mestre Will Eisner, a adaptação feita pelo argentino Enrique Breccia, a sombria versão de Bill Sienkiewicz lançada no Brasil na década de 1980 e a recém editada interpretação de Lance Stahlberg e Lalit Kumar Singh.
Clássicos Ilustrados
Bill Sienkiewcz é um artista americano de Pennsylvania nascido em 1958. Depois de cursar a Newark School o Fine and Industrial Art ele vem se dedicando aos quadrinhos. Entre os trabalhos já realizados por Bill estão o Quarteto Fantástico, Elektra, Batman, Hulk e histórias de Alan Moore... Em 1990 Bill Sienkiewcz lançou pela série Classics Illustrated sua visão sobre a história de Melville. Entres as três versões, a história de Bill é, sem dúvida, a melhor. O traço de Sienkiewicz é magistral. Fiel ao espírito do livro, onde a morte está presente desde o primeiro momento. A edição do texto original de Melville também é muito eficiente. O trabalho foi lançado no Brasil pela editora abril e fez história.
Moby de Eisner
Eisner lançou sua versão para Moby Dick dentro de uma série em que ele se propunha a adaptar clássicos da literatura para crianças. Na mesma série ele adaptou Don Quixote e A Princesa e o Sapo. A versão de Will Eisner é menos ambiciosa que o trabalho de Bill Sienkiewicz. O texto é simples, minimalista, quase infantil...O traço vai na mesma linha, nada parecido com outros trabalhos fantásticos de Eisner, como Um Contrato com Deus ou Avenida Dropsie. Eisner se detém nos planos fechados e econômicos. Foi uma forma de economizar nos detalhes do navio ou das roupas e personagens.
Enrique Breccia, o mestre argentino
Nascido em Buenos Aires em 1945, Breccia é um dos mais destacados artistas argentinos ao lado de Hector Oesterheld. Os dois chegaram a trabalhar juntos em uma adaptação sobre a vida de Ernesto Che Guevara. O trabalho de Breccia é feito em P&B. O traço é clássico e bem mais detalhista que a obra de Eisner. A versão do mestre argentino é de 1999. Anos antes, em 1980, o artista já havia feito ilustrações para uma edição argentina de Moby Dick.
A adaptação mais recente da obra de Melville acaba de chegar ao Brasil como parte de um projeto da editora Farol Literário. Uma interpretação mais moderna, que busca equilibrar imagem e textos. Se a arte deste livro não alcança o primor estético da versão de Bill Sienkiewcz, os desenhos são eficientes e conseguem segurar assegurar o nível do trabalho. A Farol Hq tem como meta publicar no Brasil clássicos da literatura universal, como: 20 mil léguas submarinas, A ilha do tesouro, Robinson Crusoé, Viagem ao centro da terra, entre outros. Vale a pena conferir.
domingo, 20 de junho de 2010
Uma homenagem ao mestre Saramago
Um deleite.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Jambocks - Um resgate histórico
“A ordem deles era: ‘Não se entregar!’ – ‘O reforço vem! Lutem e esperem!’ Mas “eles” não sabiam – ou se sabiam, ignoravam – que a aviação ‘deles’ não operava mais por ali… A munição ia acabar, a comida ia acabar, o frio castigava, mas “eles” não se entregavam! Os ‘tedescos’ diziam pra eles, que se entregarem para nós, brasileiros, era melhor! Era garantia de sobrevivência! Os estadunidenses ‘passavam fogo’ mesmo!”
Em três dias eu comi duas vezes, só! Um dia veio uma ‘ração’ dos estadunidenses, no outro veio uma pior ainda! A gente aquecia no capacete! Se colocasse depois, o capacete quente na cabeça gelada pela neve, dava uma “coisa” chamada ‘escama de peixe’! Ficava em carne viva! O capacete era pesado e ninguém gostava de usar… Mas todo mundo usava e nem precisava os oficiais recomendarem aos Sargentos e os Sargentos nos ‘mijar’! “Todo mundo usava porque às vezes você ouvia só um deslocamento de ar’ – ‘Shhhhhhfffffff” e era projétil saindo do nada e a qualquer hora – mesmo não sendo avanço ou tiroteio! Às vezes eu acho que algum praça alemão olhava lá de cima e pensava: ‘Vou atirar naquele ali!’ Mas o pior de tudo era o silencio da noite! O silêncio da noite na guerra é o único que pode ser ouvido de tão forte que é! Tudo que se move é suspeito… A respiração, tudo!
Pedro Bozzetti - Ex-Combatente – Soldado – 1º Regimento de Infantaria – Corpo Médico
Texto escrito em 1993
Passados 70 anos, a Segunda Grande Guerra parece às novas gerações algo tão distante e exótico quanto a Guerra dos 100 anos. Algo que a gente vê nos filmes, estuda nos livros escolares mas não nos diz absolutamente respeito. O tempo e a eclosão de outras centenas de guerras na Ásia, África, América e na própria Europa fizeram com que a humanidade acabasse esquecendo os horrores da maior catástrofe da história.
Seis anos de conflitos causaram mais de cinqüenta milhões de mortos, deixaram oito milhões de mutilados, destruíram centenas de cidades e dizimaram florestas inteiras que jamais se recuperaram.
Neste contexto, a participação dos soldados da Força Expedicionária Brasileira na Guerra vem caindo no ostracismo devido à ausência de uma filmografia que resgate para as novas gerações este momento da história. O projeto Jambocks, de Celso Menezes e Felipe Massafera, lançado pela editora Zarabatana vai resgatar agora parte desta dívida com o passado.
História recontada
Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, Celso Menezes, roteirista de Jambocks revelou que a inspiração para o projeto veio de conversas com os poucos ex-combatentes ainda vivos: “Quando eles voltaram da guerra, o presidente Vargas estava no poder há 15 anos e tinha medo dessa onda de liberdade que ganhou força com a vitória dos aliados. Eles desfilaram no dia que chegaram, mas depois todos foram proibidos de falar no assunto. Muitos ficaram sem carreira, foram perseguidos diretamente e a esmagadora maioria chegou em péssima condições físicas ou psicológicas e sem nenhuma assistência, inclusive financeira. Existe uma grande incidência de suicídios e alcoolismo entre os veteranos da FEB e da FAB também. Os veteranos se sentem completamente esquecidos depois de terem se sacrificado tanto”.
A saga dos pracinhas será contada em quatro volumes. O primeiro número mostra a entrada do país na guerra , os bastidores das negociações entre o presidente americano Roosevelt e o ditador Getúlio Vargas que relotou até o último instante para decidir por qual lado o Brasil lutaria.
O roteiro de Celso Menezes costura fatos históricos e fictícios para dar maior dinamicidade à narrativa. No início da trama vemos a mobilização popular para que o país declarasse guerra à Alemanha. As notícias de navios brasileiros torpedeados por submarinos nazistas causavam verdadeiro furor. Boatos amplamente difundidos na época davam conta de que Hitler teria dito que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra (o que deu origem à expressão "A Cobra Fumou", que virou lema da FEB). A mobilização tomou vulto e o país acabou enviando para a Europa 25.334 soldados. Desses combatentes, 467 morreriam na Europa.
Traço sofisticado
Além de resgatar para as novas gerações as histórias de soldados anônimos, envolvidos em uma guerra sem precedentes, Jambocks também tem outros méritos e qualidades.
O primeiro ponto a favor é a qualidade artística do projeto. Felipe Massafera, responsável pelos desenhos, usa diferentes técnicas de traço para contar a história. Em alguns momentos do primeiro volume o estilo de Felipe se assemelha muito ao mestre americano Alex Ross, aclamado mundialmente por seu estilo “fotográfico”.
Outra qualidade de Jambocks é a opção de contar a história na perspectiva de pessoas comuns. Deste modo, Celso Menezes torna a narrativa mais humanizada e próxima do leitor. Algo semelhante foi desenvolvido pelo artista francês Emmanuel Guibert na série “A guerra de Alan” (já comentada neste blog e que será em breve lançada no Brasil).
Jambocks, entretanto, falha pela falta de profundidade. Com pouco mais de 30 páginas (no formato revista), o primeiro volume “Prelúdio para a Guerra”, não consegue ir suficientemente fundo na história, tornando o roteiro raso e ingênuo. Um projeto que pretende resgatar para as novas gerações um momento tão decisivo da história precisa de mais fôlego. Apenas como exemplo, lembramos do projeto “Chibata – João Cândido e a revolta que abalou o Brasil” lançado pela editora Conrad em 2008 e que tinha mais de 200 páginas no formato Album. Neste sentido, Chibata tornou-se não apenas uma leitura "curiosa" sobre um fato praticamente desconhecido na história brasileira, mas um verdadeiro documento sobre a revolução dos marinheiros contra os maus tratos cometidos pela Marinha brasileira.
Por conta desta limitação de espaço, Jambocks acaba não sendo mais minuncioso (pelo menos no primeiro volume) em aspectos extremamente importantes para a compreensão do contexto em que se deu a entrada do Brasil na Guerra, como: a pressão exercida pelos Estados Unidos para que o país entrasse na luta ao lado dos aliados (inclusive com ameaças de invasão por parte dos americanos); a intensa propaganda política usada por Getúlio para justificar a posição brasileira, entre outros pontos.
Esta crítica, no entanto, não deve desencorajar Celso Menezes e Felipe Massafera. Ao contrário. Esperamos que o projeto ganhe corpo e possa – quem sabe – inspirar outros projetos sobre a participação brasileira na Segunda Guerra, bem como de outras passagens da história do país.
Para quem ficou curioso em conhecer mais sobre o Projeto Jambocks, fica a dica para visitar o blog da obra: jambocks.blogspot.com
Para os interessados em saber mais sobre as histórias dos ex-combatentes, vale a pena conferir este documentário realizado como projeto experimental de alunos do curso de jornalismo da Universidade Feevale de Novo Hamburgo.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O Muro
É bem possível, ampliando o que se indica no prefácio de Simone Bitton a este livro, que o nome de Mahmoud Abu Srour deveria estar contemplado na capa deste livro. Explicamos. Apesar deste livro ser escrito e desenhado por Maximilien Le Roy, na verdade a história é contada na primeira pessoa, e acompanhamos a vida de um jovem palestiniano, habitante em Gaza, que se chama Mahmoud Abu Srour, trabalha na mercearia da família, e que sonha com duas coisas: as jovens estrangeiras que ali trabalham e se relacionam com ele, por vezes amorosamente, e com uma carreira de artista, ilustrador, desenhador, banda desenhista... Tudo nos leva a crer que Mahmoud não é uma invenção, mas sim um jovem homem, real, tangível, com quem Le Roy rapidamente nutriu uma forte amizade e, juntos, construíram esta história: afinal, toda a sua matéria, inclusive algumas partes gráficas – os desenhos do próprio Mahmoud – são do palestiniano. O autor francês moldou tudo isso na forma deste livro, que nos é apresentado.
Não obstante, estando longe da sua confirmação (não fizémos entrevista, investigação directa, perguntas), poderemos eventualmente também estar perante um exercício de ficção, de auto-ficção ou de algum grau de alteração da verdade, por razões de justeza, justiça e protecção. Tal qual como Joe Sacco alterará parte das entrevistas e reportagens que faz para proteger as suas fontes de eventuais represálias, é bem possível que Mahmoud também seja uma confluência de outras pessoas. Ou não. Não temos modo de o saber com precisão.
Seja qual for a verdade, Faire le Mur coloca no seu centro a vida quotidiana e as aspirações deste jovem. Gaza não é mais do que uma prisão, um apartheid a seu modo, e todos os seus habitantes têm as suas histórias, projecções, medos, raivas, aspirações e fantasias. O último livro de Sacco, Footnotes in Gaza, de que falamos aqui, dá voz directa a muitas dessas pessoas, ainda que essas múltiplas vozes sirvam para criar a umagem unida de um evento histórico circunscrito. Faire le Mur apenas segue um jovem, que pensa as coisas, que não quer guardar rancores, nem se vitimizar, nem pedir simpatia ou pena de ninguém. Mahmoud quer apenas viver a sua vida como pessoa digna e, por mais que caia, voltar-se-á a levantar para retomar o caminho (e são vários os momentos em que percebemos as suas quedas, sem que jamais sejam transformadas em momentos melodramáticos, de queixume fatídico).
O autor francês emprega várias matérias gráficas para dar a ver essa experiência: há uma linha mais contínua de desenhos num desenho nervoso, mas realistas, de contornos “riscados”, e numa escolha relativamente reduzida de cores – vários tons da azeitona que por ali cresce?; há uma outra, de abordagens mais esboçadas, quase de apontamentos infográficos, esquematizados, de coloração incompleta, que servem para a representação de episódios históricos, ou figuras icónicas culturalmente reonhecíveis, como momentos-chave da história local ou mundial (quantas vezes estas se confudem na luta pelos direitos do homem), personagens importantes (para bem ou para mal), ou até mesmo pela amalgamação de lutas e princípios; há ainda momentos de vinhetas em branco, apenas co contornos a preto, que servem para mostrar momentos anteriores, analepses, lembranças relatadas; existem pequenos momentos, ilhas de acalmia de fim de tarde, em que os desenhos ganham cores mais densas, sombrias, e se nota perfeitamente a textura do papel sobre o qual se desenhou, texturas meio-reveladas por deslizar o lápis ao de leve, quase exclusivamente para passeios pela natureza, em silêncio, contemplativos (mas a diferença é quase mínima da linha principal); e finalmente existem os desenhos de Mahmoud, de vivas cores expressivas, sobretudo vermelhos, a lápis de cor, com uma figuração estilizada e quase alucinada, sem concentração realista, onde irrompem olhos e braços e movimento, como se quisessem dizer muito mais daquilo que aparentam dizer.
Algures no prólogo, a autora fala de “generosidade” de Maximilien Le Roy. Bom, discordemos. Essa generosidade seria mais clara se o nome de Srour estivesse na capa, como co-autor, que de facto é. Não poderemos inverter os factores? A generosidade não será do jovem palestiniano, ao emprestar a voz ao autor francês? Não é tanto Le Roy que “dá a voz” a Srour, como ocorre no caso do jornalista-Sacco em relação aos entrevistados em Gaza, mas sim a do homem-Srour ofertando matéria de expressão ao autor-Le Roy para este seu livro. A direcção é convergente entre os dois, no fim da jornada.
O livro ainda é complementado por vários “anexos”. Em primeiro lugar, e no seguimento preciso da narrativa principal, um breve conjunto de fotografias pessoais da vida de Mahmoud, que lhe confirmam a existência e são reveladoras da felicidade da vida familiar – fotos antigas da mãe (?), dos pais (?), dele em criança (?), com o irmão (?). Segue-se uma pequena reportagem fotográfica de Maxence Emery sobre os aspectos de controlo social da parte do exécrito israelita sobre a vida em Gaza, inclusive acções de protesto e a sua própria prisão (para identificação). Uma entrevista-conversa ilustrada com Alain Gresh, importante autor de livros afectos à questão israelo-palestiniana, à relação entre o Islão e a nossa modernidade, e editor do Le Monde Diplomatique. E ainda uma pequena lista de livros aconselhados por le Roy, quer contemplando ensaios e livros históricos, como romances, entrevistas e bandas desenhadas: Sacco, Squarzoni, Spiegelman e Mazen Kerbaj, cujo Beyrouth saiu na L’Association. Tudo isso são elementos que contribuem para o mesmo fito político de Faire le Mur, evidentemente, sublinhando a justeza da realidade retratada, ou forçando a ideia de verdade da sua ficção.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Museu Italiano de Quadrinhos faz campanha publicitária
A campanha se utiliza de algumas das mais famosas pinturas da história para propor uma brincadeira, em formato de tirinhas de jornal. Confira algumas das peças ...
A teoria do Caos
Uma borboleta que bate asas na China pode provocar um tornado em Nova York... Esta frase, que vem sendo citada por ambientalistas nas últimas décadas, é uma interpretação popular para uma teoria que vem se fortalecendo e ganhando espaço – desde as universidades aos livros de auto-ajuda: a Teoria do Caos ou Teoria da Complexidade.
O esforço e esmero técnico de Pierre Schelle são recompensados. O traço do artista é refinado, detalhista e atento à complexidade de cada quadro. O resultado se assemelha a um novelo que vai lentamente sendo desenrolado. Todos os personagens e acontecimentos estão ligados entre si... O autor faz uma proposta ao leitor e elabora o roteiro da história de modo a brincar com os conceitos. O primeiro capítulo do livro, intitulado "Efeito Borboleta" propõe uma leitura dos impactos do bater de asas de uma borboleta na China sobre um tufão em nova York. A segunda história "O fator Humano" mostra que a evolução não é fruto da sorte, mas do caos: "a natureza aborrece o vazio. E, se consideramos que o homem está no topo da evolução, então o homem é o maior propagador de caos do Universo". Por último, Pierre Schelle joga com a Lei de Murphy e nos propõe uma reflexão bem humorada sobre o caos que adviria de uma "revoada" de borboletas: "Por causa de uma borboleta, nasceu o 130º Prêmio Nobel da Paz; por conta de uma segunda borboleta, foi eleito no Vaticano o primeiro Papa negro da história e uma terceira borboleta ocasionou a primeira eleição democrática na Birmânia...Confira um documentário da TV Britânica BBC sobre a Teoria do Caos:
domingo, 18 de abril de 2010
Anos loucos – a história de Kiki
A leitura de Kiki é uma oportunidade imperdível para conhecer mais sobre os anos loucos e a Paris dos anos 20 e 30. Confira abaixo algumas fotos e pinturas inspiradas em Kiki.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Bordados – como ser uma mulher no Irã
Como ser mulher em um mundo onde apenas os homens podem tudo e a elas é reservado – unicamente – o papel de obedecer: ao pai, aos irmãos, ao marido, aos anciãos? Como resistir a uma cultura onde meninas de 13 anos são dadas como esposas a homens de 69 anos? Como sobreviver à opressão de um machismo perverso?
A quadrinista iraniana Marjane Satrapi tornou-se a mais importante porta-voz das mulheres do oriente a partir da publicação do seu primeiro livro “Persépolis”. Através das suas memórias pessoais e da família, a autora relembra a história recente do Irã dos aiatolás: a queda do Xá (que governava o país com uma tendência “europeizante”), a ascenção dos radicais religiosos, o fim do liberalismo cultural... O livro, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares, teve uma versão para cinema que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.
Depois de Persépolis, Marjane repetiu a mesma fórmula com “Frango com ameixas” que conta a história do tio músico, que não consegue se adaptar ao radicalismo religioso. E agora lança no Brasil, pela Companhia das Letras, o seu terceiro livro: “Bordados”.
O romance gráfico investiga as lembranças e traumas das mulheres da família Satrapi e de suas amigas mais próximas. Em volta do samovar (uma peça tradicional no Irã, onde é servido o chá), oito mulheres se reúnem para contar suas histórias de dor, medo, humilhação e superação. Com um humor sutil e seu traço ingênuo (quase infantil), Marjane nos mostra como as mulheres iranianas conseguem tornar-se donas dos seus próprios destinos. Apesar de tudo, elas conseguem amar. Driblam a opressão de seus maridos, fazem cirurgias plásticas, traem, riem e fazem graça com sua própria condição. A autora faz um libelo feminista, sem cair no discurso panfletário.
sábado, 10 de abril de 2010
Limpeza de Sangue - as aventuras de Diego Alatriste
“Nos cárceres secretos de Toledo pude aprender, quase a custo de minha vida, que nada há de mais desprezível, nem perigoso, que um homem mau que toda noite se deita com a consciência tranquila. E ainda resulta pior quando atua como intérprete de uma só palavra, seja o Talmud, a Bíblia ou o Alcorão. Desconfie sempre de quem é leitor de um só livro.”
Mais uma vez o jovem Iñigo Balboa nos conduz pelas tortuosas ruas da Madri do século XVII, "com suas míseras luzes e suas ardentes sombras". O segundo livro da série de aventuras do capitão Diego Alatriste, escrita pelo espanhol Arturo Pérez Reverte, nos leva novamente a um cenário de traições, intrigas palacianas, corrupção e morte na Espanha de Felipe IV.
A Europa – e a Espanha, em especial – viviam ainda sob o regime de medo e intolerância da Inquisição. Os autos de fé atraíam milhares de pessoas, desde a aristocracia até a população dos menores vilarejos. Quando celebrados em Madri, os autos eram presenciados pelas majestades reais. Nestes “espetáculos”, judeus muçulmanos, homossexuais, bígamos, protestantes e acusados de bruxaria, eram mortos em fogueiras, para delírio do público.
Neste período, vigorou uma política que ficou conhecida como “Limpeza de Sangue”, quando foram impostos regulamentos que impediam a judeus conversos ao cristianismo (e, logo depois toda ordem de pessoas condenadas pela Inquisição) e a seus descendentes de ocupar postos e cargos em diversas instituições – seja de caráter religioso, militar, universitário e civil.
“A perseguição levou a uma interminável caça às bruxa, completa com denunciantes pagos, vizinhos bisbilhoteiros e uma racista “limpieza de sangre”. Judeus conversos eram apanhados por intrigas e vestígios de prática mosaica: recusa de porco, toalhas lavadas à sexta-feira, uma prece escutada à soslaia, freqüência irregular à igreja, uma palavra mal ponderada. A higiene em si era uma causa de suspeita e tomar banho era visto como uma prova de apostasia para marranos e muçulmanos. A frase “o acusado era conhecido por tomar banho” é uma frase comum nos registros da Inquisição. Sujidade herdada: as pessoas limpas não têm de se lavar. Em tudo isto, os espanhóis e portugueses rebaixaram-se. A intolerância pode prejudicar o perseguidor (ainda) mais do que a vítima. Deste modo, a Ibéria e na verdade a Europa Mediterrânica como um todo, perdeu o comboio da chamada revolução científica”.
É neste contexto que Arturo Pérez Reverte insere o seu protagonista, Diego Alatriste. Um homem que, segundo o narrador da história – Íñigo Balboa, “não era o homem mais honesto, nem o mais piedoso, mas era um homem valente”. Um personagem com um talento inigualável de se meter em confusões.
No primeiro volume da série, já comentado neste blog, o espadachim se vê envolvido em uma trama palaciana para assassinar o herdeiro do trono da Inglaterra e acaba atraindo para si a ira da Igreja e de setores da aristocracia.
No segundo livro, Diego Alatriste e seu protegido Iñigo, são arrastados para dentro da Inquisição Espanhola. O próprio narrador é preso, torturado e interrogado nas masmorras. A única coisa que pode salvá-lo da fogueira é a sua pouca idade: o pajem de Diego tem apenas 14 anos.
Sombra e escuridão
O romance gráfico baseado na história de Arturo Reverte, tem roteiro de Carlos Gimenez e desenhos de Joan Mundet.
Mundet usa bico de pena e nanquim para reproduzir as ruas, vestuário, móveis e demais elementos que nos remetem ao período do reinado de Felipe IV. Ele não tem o requinte de detalhes de outros artistas autores de romances gráficos com fundo histórico (como Jacques Tardi, Joe Sacco e Stéphane Heuet), mas consegue alcançar uma expressividade no olhar, e no uso de luz e sombra que confere uma força adicional à narrativa.
Alatriste no cinema
A história de Diego Alatriste foi adaptada para o cinema, com Viggo Mortensen no papel principal. Confira um trailler abaixo
sábado, 3 de abril de 2010
Novo livro de Joe Sacco lançado na Europa

Joe Sacco (Malta, 1960) se a convertido en la punta de lanza de ese subgénero dentro del cómic actual para adultos que se puede denominar periodístico. Periodístico no sólo porque trate temas de actualidad, sino porque parte de una investigación de campo, porque contrasta sus fuentes, porque ofrece un comentario siempre comedido y ajustado a los hechos y porque, a pesar de su presencia constante, el autor trata de no interferir entre la historia y el lector. Y en todos estos aspectos, Sacco hace un trabajo magnífico. Tras tres meses de trabajo sobre el terreno entrevistando a los protagonistas de los hechos y más de cuatro años de soledad reflexiva frente al tablero de dibujo, Sacco entrega al público una nueva obra maestra.
En Notas al pie de Gaza, Sacco retoma algunos de los temas que ya describió en Palestina hace casi dos décadas, pero en lugar de centrarse en la situación actual en los territorios palestinos ocupados y los campos de refugiados, echa la vista atrás para desentrañar los hechos oscuros que concluyeron con la matanza de cientos de palestinos civiles a manos de soldados israelíes en noviembre de 1956 en las ciudades de Khan Younis y Rafah. Sacco no es imparcial y no pretende serlo. Habiendo leído Palestina es obvio que sus simpatías están con el pueblo palestino y es su punto de vista y su historia la que el dibujante maltés quiere ofrecer al público. Con la realización de este libro, Sacco pretende por una parte, arrojar luz sobre lo que puede ser haber sido una gran mentira histórica promovida por los israelíes –que la mantaza se produjo ante la resistencia de los palestinos- y al mismo tiempo le interesa excavar hasta dar con las raíces del odio entre los dos pueblos. Esta clave de lectura ya la apunta el propio Sacco en el prólogo cuando reproduce las palabras de un testigo presencial que en 1956 tenía 9 años: “Sembraron el odio en nuestros corazones.” También en el prólogo se hace hincapié en el que será otro de los corolarios a los que llega el lector tras la lectura del libro: “los hechos son contínuos.” Los jóvenes palestinos no entienden la obsesión de Sacco con 1956 cuando hoy mismo sus casas están siendo derrumbadas, sus hay tiroteos diarios, cuando sufren constantes humillaciones. Sin embargo, en muchos aspectos, 1956 no es tan diferente de 2010. La lucha entre los dos pueblos continúa, la balanza sigue estando del mismo lado, la comunidad internacional sigue haciendo la vista gorda, el dolor de ayer se hace indistinguible del dolor de hoy. 1956 es hoy. 
Gran parte de la fuerza de los libros de Sacco, y Notas al pie de Gaza es un ejemplo perfecto en este sentido, es su capacidad para individualizar y humanizar a los personajes –estas notas al pie, al fin desarrolladas- al tiempo que mantiene una actitud aséptica en sus textos de apoyo, transmitiendo al lector lo que podríamos llamar una “verosimilitud dramática”. Esta personalización se obtiene mediante pequeños detalles de su entorno y comportamiento –denotando el buen ojo periodístico del autor- y mediante detallados retratos. Los dibujos de Sacco tienen la capacidad de transportarnos al lugar de los hechos, y mientras sus escenarios extremadamente fieles a la realidad mantienen las perspectivas, las proporciones y son unívocos, los personajes a menudo –aunque menos que en Palestina, por ejemplo- se dibujan en perspectivas forzadas y deformantes que nos recuerdan que en esencia son una interpretación del autor. Este es otro de los temas importantes del libro, la recreación del autor de la historia, que constantemente es cuestionada, poniendo en entredicho tanto sus propias conclusiones como los recuerdos de muchos de los testigos presenciales entrevistados. Su memoria es en ocasiones un puro ejercicio de reconstrucción de la realidad de segunda mano o incluso una remodelación (de)formada a lo largo cinco décadas de sufrimiento. En cualquier caso, a pesar de todas estas consideraciones sobre la fiabilidad del relato que está construyendo, de sus propias motivaciones y de su papel como periodista extranjero, Sacco logra de nuevo componer una narración tan absorbente e informativa como emocionante, conmovedora y humana. Los abundantes textos y el detalle en el dibujo invitan a la lectura sosegada y ayudan a rumiar las ideas que se van apuntando, al tiempo que su claridad expositiva y capacidad de síntesis hacen la lectura fluida y apasionante. Dos de los sentimientos más presentes en el libro, el miedo y la resignación, vienen en gran medida transmitidos por el propio dibujo, que en más de una ocasión remite a los condenados al Infierno en los grabados de Gustavo Doré para La Divina Comedia de Dante. Notas al pie de Gaza es un cómic que no solo se precibe a nivel intelectual, sino que se siente.
Muchos reseñistas ajenos al mundo del cómic han considerado Notas al pie de Gaza como un “libro ilustrado”, tal vez porque no conciben que esta densidad, esta seriedad ensayística pueda darse en un cómic, cuando precisamente su enorme impacto viene dado por el medio que soporta el relato. Cuenta Sacco que, cuando estaba realizando su investigación en Gaza y se topaba con posibles testigos de los hechos, a menudo su guía les mostraba una copia de Palestina. “Cuando abrían el libro veían lo que estaban viviendo. Si hubiera sido prosa, no habrían sabido lo que yo hacía. Gracias a que era un cómic, lo entendían al momento.” Aunque en realidad, el mayor mérito de Sacco es que nosotros lo entendamos.
(do site espanhol Entrecomics)
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Jerusalém, cidade dividida

“Jerusalém é uma cidade sagrada onde todos seus habitantes vivem amaldiçoados... Uma cidade feita para Deus, não para os homens.”
Árabes e judeus vivendo juntos na mesma cidade, compartilhando as mesmas lojas, as mesmas ruas, o mesmo café... O sonho de paz em Jerusalém já foi real um dia, quando um milhão de palestinos e cerca de cem mil judeus conviviam em um mesmo e único País - apesar de suas diferenças.
O artista espanhol Alfonso Zapico reproduz em “Café Budapest” um dos momentos mais importantes da história do século XX e que ainda hoje tem reflexo na geopolítica mundial: a criação do estado de Israel. Em uma entrevista concedida ao site da editora espanhola Astiberri, Zapico conta que o conflito entre palestinos e judeus, por sua extrema complexidade, sempre o deixou instigado. Seu desejo era fazer uma novela gráfica que contasse: “Começou tudo”.

Café Budapest é uma viagem no tempo. O leitor é transportado aos últimos meses do ano de 1947, às vésperas da conferência da ONU que decidiria pela divisão da Palestina (então sob domínio inglês). Outros livros de quadrinhos já exploraram, nos últimos anos, o conflito entre na Palestina. Sobre esse tema, o trabalho mais conhecido no Brasil é o do jornalista Joe Sacco, com dois livros publicados sobre a Intifada (Palestina, uma nação ocupada e Palestina, na faixa de Gaza). Sacco é considerado o criador e maior expoente do gênero quadrinho jornalístico, realizando verdadeiras reportagens sobre o drama do povo palestino (o artista não tem qualquer receio em tomar partido por um dos lados em conflito).
Também está disponível no Brasil (pela Jorge Zahar Editor) a série criada pelo artista francês Joann Sfar – O gato do rabino – que igualmente explora a relação entre árabes e judeus, analisando semelhanças e diferenças entre as duas culturas. A série foi transformada em filme e deve estar chegado aos cinemas ainda este ano.

O grande diferencial de Café Budapest é o de enfocar o momento exato da transformação, quando vizinhos – que até então tomavam chá juntos – são obrigados a dizer adeus. Um dos personagens do livro – o árabe Doutor Hassan – chega a acreditar que nunca haveria fronteiras entre os dois povos “porque entre irmãos a terra no se reparte, se comparte”. Mas em pouco tempo os fatos mostrarão que ele estava errado. O próprio Hassan reconheceria sua ingenuidade e concluiria: “Não existe como compartilhar a terra. Imagine a dois irmãos que vivem na mesma casa, em quartos diferentes e continuam convivendo... isso é compartilhar. Mas, se estes irmãos vão de quarto em quarto arrancando a pele um do outro à dentadas e sujando as paredes com seu sangue, isso não é compartilhar, é barbárie”.
Zapico conta a história de um jovem violinista judeu que deixa a Europa do pós-guerra e viaja com a mãe ao encontro do tio que vive na Palestina. A mãe de Yechezkel é uma sobrevivente do campo de concentração de Birkenau (onde o marido e pai de Yechezkel foi assassinado). Shprintza vive em uma depressão e isolamento profundos e guarda um segredo aterrador que só será revelado no final do livro.
O tio de Yechezkel – Yosef – tem um Café em Jerusalém, onde mantém amizade com assíduos clientes árabes. Mas, a situação não é tranquila. Há uma sensação de medo no ar. Uma expectativa, quase um prenúncio dos novos tempos que virão: “Em princípio de setembro, a vida em Jerusalém transcorria relativamente tranquila. Os vizinhos de toda a vida continuam sorrindo e saudando uns aos outros. Até que deixaram de acenar. Logo deixaram de passar pelas mesmas ruas. E finalmente, as portas se fecharam com tristeza... A Jerusalém até então conhecida começa a desmoronar”.
Provocativamente, Zapico coloca os personagens em rota de colisão. Como Yechezkel que acaba se apaixonando por uma garota árabe - Yaiza, e se torna amigo do senhor Hassan (com quem faz duetos de violino e violoncelo ao final da tarde).
Ou autor, ao contrário de Joe Sacco, tenta manter uma distância dos dois lados do conflito. Os extremista de ambos os lados (palestino e judeu) são alvo da crítica de Zapico: a Haganah - uma espécie de milícia armada isralense - e os militantes árabes. Talvez para evitar se comprometer, Zapico prefere não abordar os ataques a civis que se seguiram ao anúncio da criação do estado de Israel. Os primeiros conflitos, os primeiros atentados, os primeiros de muitos morticínios estão retratados no livro. Em especial os confrontos do dia 9 de março de 1948 em que árabes e judeus guerrearam entre as ruas de Jerusalém. Mas o artista silencia diante do ataque à aldeia de Der Yassin, na vizinhança de Jerusalém. A 9 de Abril de 1948, forças isralenses entraram na aldeia e massacraram mais de cem pessoas, homens, mulheres e crianças.
Mas, não é o propósito do artista espanhol construir um relato jornalístico.
Café Budapest é um dos melhores romances gráficos de ambientação histórica lançados nos últimos anos. Uma leitura fundamental para quem quer conhecer um pouco mais sobre a questão palestina.
Neste sentido, recomendo a leitura de um artigo recém publicado na revista Piaui sobre Edward Said, um dos maiores pensadores árabes modernos. Edward, que morreu em 2003, desagradou árabes e judeus com suas teorias e foi um dos primeiros a ter a coragem de anunciar que a única saída real para o conflito é palestinos e judeus voltando a viver juntos sob um mesmo estado.
veja o link http://www.revistapiaui.com.br/edicao_41/artigo_1249/O_cosmopolita_desenraizado.aspx











