sábado, 26 de junho de 2010

Quatro vezes Moby Dick


A história da enorme baleia branca que destroi um navio e elimina sua tripulação foi eternizada no livro Moby Dick, lançado em 1851 pelo escritor americano Herman Melville. Moby Dick é considerado pela crítica como um dos livros fundamentais da literatura universal, ao lado de Ulisses, de James Joyce; Don Quixote, de Cervantes ou Em Busca do Tempo Perdido; de Marcel Proust.

As diferentes adaptações da obra em desenhos animados, como a série da Hanna Barbera exibida nos anos 70, acabaram banalizando a história e diminuindo a importância dramática do romance. Moby Dick representa o eterno conflito entre o Homem e seu destino ou entre e o Homem e a grandeza da natureza representada pela cachalote.

O mais impressionante é que a história criada por Melville foi baseada em fatos reais. Em 1820 o navio baleeiro Essex foi atacado por uma baleia enfurecida. O navio afundou rapidamente e os náufragos tiveram que navegar durante três meses e milhares de milhas do oceano Pacífico para encontrar o resgate. Apenas oito dos 21 marinheiros sobreviveram.

As pesquisas do Blog Nona Arte encontraram quatro versões em quadrinhos do clássico americano: uma leitura feita pelo mestre Will Eisner, a adaptação feita pelo argentino Enrique Breccia, a sombria versão de Bill Sienkiewicz lançada no Brasil na década de 1980 e a recém editada interpretação de Lance Stahlberg e Lalit Kumar Singh.

Clássicos Ilustrados

Bill Sienkiewcz é um artista americano de Pennsylvania nascido em 1958. Depois de cursar a Newark School o Fine and Industrial Art ele vem se dedicando aos quadrinhos. Entre os trabalhos já realizados por Bill estão o Quarteto Fantástico, Elektra, Batman, Hulk e histórias de Alan Moore... Em 1990 Bill Sienkiewcz lançou pela série Classics Illustrated sua visão sobre a história de Melville. Entres as três versões, a história de Bill é, sem dúvida, a melhor. O traço de Sienkiewicz é magistral. Fiel ao espírito do livro, onde a morte está presente desde o primeiro momento. A edição do texto original de Melville também é muito eficiente. O trabalho foi lançado no Brasil pela editora abril e fez história.

Moby de Eisner 

Eisner lançou sua versão para Moby Dick dentro de uma série em que ele se propunha a adaptar clássicos da literatura para crianças. Na mesma série ele adaptou Don Quixote e A Princesa e o Sapo. A versão de Will Eisner é menos ambiciosa que o trabalho de Bill Sienkiewicz. O texto é simples, minimalista, quase infantil...O traço vai na mesma linha, nada parecido com outros trabalhos fantásticos de Eisner, como Um Contrato com Deus ou Avenida Dropsie. Eisner se detém nos planos fechados e econômicos. Foi uma forma de economizar nos detalhes do navio ou das roupas e personagens.

Enrique Breccia, o mestre argentino 

Nascido em Buenos Aires em 1945, Breccia é um dos mais destacados artistas argentinos ao lado de Hector Oesterheld. Os dois chegaram a trabalhar juntos em uma adaptação sobre a vida de Ernesto Che Guevara. O trabalho de Breccia é feito em P&B. O traço é clássico e bem mais detalhista que a obra de Eisner. A versão do mestre argentino é de 1999. Anos antes, em 1980, o artista já havia feito ilustrações para uma edição argentina de Moby Dick.

Versão moderna

A adaptação mais recente da obra de Melville acaba de chegar ao Brasil como parte de um projeto da editora Farol Literário. Uma interpretação mais moderna, que busca equilibrar imagem e textos. Se a arte deste livro não alcança o primor estético da versão de Bill Sienkiewcz, os desenhos são eficientes e conseguem segurar assegurar o nível do trabalho. A Farol Hq tem como meta publicar no Brasil clássicos da literatura universal, como: 20 mil léguas submarinas, A ilha do tesouro, Robinson Crusoé, Viagem ao centro da terra, entre outros. Vale a pena conferir.

domingo, 20 de junho de 2010

Uma homenagem ao mestre Saramago

Este blog presta uma homenagem ao gênio da literatura, José Saramago, com um curta de animação feito a partir de uma história infantil do escritor.

Um deleite.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Jambocks - Um resgate histórico



“A ordem deles era: ‘Não se entregar!’ – ‘O reforço vem! Lutem e esperem!’ Mas “eles” não sabiam – ou se sabiam, ignoravam – que a aviação ‘deles’ não operava mais por ali… A munição ia acabar, a comida ia acabar, o frio castigava, mas “eles” não se entregavam! Os ‘tedescos’ diziam pra eles, que se entregarem para nós, brasileiros, era melhor! Era garantia de sobrevivência! Os estadunidenses ‘passavam fogo’ mesmo!”

Em três dias eu comi duas vezes, só! Um dia veio uma ‘ração’ dos estadunidenses, no outro veio uma pior ainda! A gente aquecia no capacete! Se colocasse depois, o capacete quente na cabeça gelada pela neve, dava uma “coisa” chamada ‘escama de peixe’! Ficava em carne viva! O capacete era pesado e ninguém gostava de usar… Mas todo mundo usava e nem precisava os oficiais recomendarem aos Sargentos e os Sargentos nos ‘mijar’! “Todo mundo usava porque às vezes você ouvia só um deslocamento de ar’ – ‘Shhhhhhfffffff” e era projétil saindo do nada e a qualquer hora – mesmo não sendo avanço ou tiroteio! Às vezes eu acho que algum praça alemão olhava lá de cima e pensava: ‘Vou atirar naquele ali!’ Mas o pior de tudo era o silencio da noite! O silêncio da noite na guerra é o único que pode ser ouvido de tão forte que é! Tudo que se move é suspeito… A respiração, tudo! 


Pedro Bozzetti - Ex-Combatente – Soldado – 1º Regimento de Infantaria – Corpo Médico
Texto escrito em 1993


Passados 70 anos, a Segunda Grande Guerra parece às novas gerações algo tão distante e exótico quanto a Guerra dos 100 anos. Algo que a gente vê nos filmes, estuda nos livros escolares mas não nos diz absolutamente respeito. O tempo e a eclosão de outras centenas de guerras na Ásia, África, América e na própria Europa fizeram com que a humanidade acabasse esquecendo os horrores da maior catástrofe da história.

Seis anos de conflitos causaram mais de cinqüenta milhões de mortos, deixaram oito milhões de mutilados, destruíram centenas de cidades e dizimaram florestas inteiras que jamais se recuperaram.

Neste contexto, a participação dos soldados da Força Expedicionária Brasileira na Guerra vem caindo no ostracismo devido à ausência de uma filmografia que resgate para as novas gerações este momento da história.  O projeto Jambocks, de Celso Menezes e Felipe Massafera, lançado pela editora Zarabatana vai resgatar agora parte desta dívida com o passado.

História recontada

Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, Celso Menezes, roteirista de Jambocks revelou que a inspiração para o projeto veio de conversas com os poucos ex-combatentes ainda vivos: “Quando eles voltaram da guerra, o presidente Vargas estava no poder há 15 anos e tinha medo dessa onda de liberdade que ganhou força com a vitória dos aliados. Eles desfilaram no dia que chegaram, mas depois todos foram proibidos de falar no assunto. Muitos ficaram sem carreira, foram perseguidos diretamente e a esmagadora maioria chegou em péssima condições físicas ou psicológicas e sem nenhuma assistência, inclusive financeira. Existe uma grande incidência de suicídios e alcoolismo entre os veteranos da FEB e da FAB também. Os veteranos se sentem completamente esquecidos depois de terem se sacrificado tanto”.

A saga dos pracinhas será contada em quatro volumes. O primeiro número mostra a entrada do país na guerra , os bastidores das negociações entre o presidente americano Roosevelt e o ditador Getúlio Vargas que relotou até o último instante para decidir por qual lado o Brasil lutaria.

O roteiro de Celso Menezes costura fatos históricos e fictícios para dar maior dinamicidade à narrativa. No início da trama vemos a mobilização popular para que o país declarasse guerra à Alemanha. As notícias de navios brasileiros torpedeados por submarinos nazistas causavam verdadeiro furor. Boatos amplamente difundidos na época davam conta de que Hitler teria dito que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra (o que deu origem à expressão "A Cobra Fumou", que virou lema da FEB). A mobilização tomou vulto e o país acabou enviando para a Europa 25.334 soldados. Desses combatentes, 467 morreriam na Europa.

Traço sofisticado


Além de resgatar para as novas gerações as histórias de soldados anônimos, envolvidos em uma guerra sem precedentes, Jambocks também tem outros méritos e qualidades.

O primeiro ponto a favor é a qualidade artística do projeto. Felipe Massafera, responsável pelos desenhos, usa diferentes técnicas de traço para contar a história. Em alguns momentos do primeiro volume o estilo de Felipe se assemelha muito ao mestre americano Alex Ross, aclamado mundialmente por seu estilo “fotográfico”.

Outra qualidade de Jambocks é a opção de contar a história na perspectiva de pessoas comuns. Deste modo, Celso Menezes torna a narrativa mais humanizada e próxima do leitor. Algo semelhante foi desenvolvido pelo artista francês Emmanuel Guibert  na série “A guerra de Alan” (já comentada neste blog e que será em breve lançada no Brasil).

Jambocks, entretanto, falha pela falta de profundidade. Com pouco mais de 30 páginas (no formato revista), o primeiro volume “Prelúdio para a Guerra”, não consegue ir suficientemente fundo na história, tornando o roteiro raso e ingênuo. Um projeto que pretende resgatar para as novas gerações um momento tão decisivo da história precisa de mais fôlego. Apenas como exemplo, lembramos do projeto “Chibata – João Cândido e a revolta que abalou o Brasil” lançado pela editora Conrad em 2008 e que tinha mais de 200 páginas no formato Album. Neste sentido, Chibata tornou-se não apenas uma leitura "curiosa" sobre um fato praticamente desconhecido na história brasileira, mas um verdadeiro documento sobre a revolução dos marinheiros contra os maus tratos cometidos pela Marinha brasileira.

Por conta desta limitação de espaço, Jambocks acaba não sendo mais minuncioso (pelo menos no primeiro volume) em aspectos extremamente importantes para a compreensão do contexto em que se deu a entrada do Brasil na Guerra, como: a pressão exercida pelos Estados Unidos para que o país entrasse na luta ao lado dos aliados (inclusive com ameaças de invasão por parte dos americanos); a intensa propaganda política usada por Getúlio para justificar a posição brasileira, entre outros pontos.

Esta crítica, no entanto, não deve desencorajar Celso Menezes e Felipe Massafera. Ao contrário. Esperamos que o projeto ganhe corpo e possa – quem sabe – inspirar outros projetos sobre a participação brasileira na Segunda Guerra, bem como de outras passagens da história do país.

Para quem ficou curioso em conhecer mais sobre o Projeto Jambocks, fica a dica para visitar o blog da obra: jambocks.blogspot.com

Para os interessados em saber mais sobre as histórias dos ex-combatentes, vale a pena conferir este documentário realizado como projeto experimental de alunos do curso de jornalismo da Universidade Feevale de Novo Hamburgo.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Muro

Do blog português "Ler BD"


 É bem possível, ampliando o que se indica no prefácio de Simone Bitton a este livro, que o nome de Mahmoud Abu Srour deveria estar contemplado na capa deste livro. Explicamos. Apesar deste livro ser escrito e desenhado por Maximilien Le Roy, na verdade a história é contada na primeira pessoa, e acompanhamos a vida de um jovem palestiniano, habitante em Gaza, que se chama Mahmoud Abu Srour, trabalha na mercearia da família, e que sonha com duas coisas: as jovens estrangeiras que ali trabalham e se relacionam com ele, por vezes amorosamente, e com uma carreira de artista, ilustrador, desenhador, banda desenhista... Tudo nos leva a crer que Mahmoud não é uma invenção, mas sim um jovem homem, real, tangível, com quem Le Roy rapidamente nutriu uma forte amizade e, juntos, construíram esta história: afinal, toda a sua matéria, inclusive algumas partes gráficas – os desenhos do próprio Mahmoud – são do palestiniano. O autor francês moldou tudo isso na forma deste livro, que nos é apresentado.

Não obstante, estando longe da sua confirmação (não fizémos entrevista, investigação directa, perguntas), poderemos eventualmente também estar perante um exercício de ficção, de auto-ficção ou de algum grau de alteração da verdade, por razões de justeza, justiça e protecção. Tal qual como Joe Sacco alterará parte das entrevistas e reportagens que faz para proteger as suas fontes de eventuais represálias, é bem possível que Mahmoud também seja uma confluência de outras pessoas. Ou não. Não temos modo de o saber com precisão.

Seja qual for a verdade, Faire le Mur coloca no seu centro a vida quotidiana e as aspirações deste jovem. Gaza não é mais do que uma prisão, um apartheid a seu modo, e todos os seus habitantes têm as suas histórias, projecções, medos, raivas, aspirações e fantasias. O último livro de Sacco, Footnotes in Gaza, de que falamos aqui, dá voz directa a muitas dessas pessoas, ainda que essas múltiplas vozes sirvam para criar a umagem unida de um evento histórico circunscrito. Faire le Mur apenas segue um jovem, que pensa as coisas, que não quer guardar rancores, nem se vitimizar, nem pedir simpatia ou pena de ninguém. Mahmoud quer apenas viver a sua vida como pessoa digna e, por mais que caia, voltar-se-á a levantar para retomar o caminho (e são vários os momentos em que percebemos as suas quedas, sem que jamais sejam transformadas em momentos melodramáticos, de queixume fatídico).

O autor francês emprega várias matérias gráficas para dar a ver essa experiência: há uma linha mais contínua de desenhos num desenho nervoso, mas realistas, de contornos “riscados”, e numa escolha relativamente reduzida de cores – vários tons da azeitona que por ali cresce?; há uma outra, de abordagens mais esboçadas, quase de apontamentos infográficos, esquematizados, de coloração incompleta, que servem para a representação de episódios históricos, ou figuras icónicas culturalmente reonhecíveis, como momentos-chave da história local ou mundial (quantas vezes estas se confudem na luta pelos direitos do homem), personagens importantes (para bem ou para mal), ou até mesmo pela amalgamação de lutas e princípios; há ainda momentos de vinhetas em branco, apenas co contornos a preto, que servem para mostrar momentos anteriores, analepses, lembranças relatadas; existem pequenos momentos, ilhas de acalmia de fim de tarde, em que os desenhos ganham cores mais densas, sombrias, e se nota perfeitamente a textura do papel sobre o qual se desenhou, texturas meio-reveladas por deslizar o lápis ao de leve, quase exclusivamente para passeios pela natureza, em silêncio, contemplativos (mas a diferença é quase mínima da linha principal); e finalmente existem os desenhos de Mahmoud, de vivas cores expressivas, sobretudo vermelhos, a lápis de cor, com uma figuração estilizada e quase alucinada, sem concentração realista, onde irrompem olhos e braços e movimento, como se quisessem dizer muito mais daquilo que aparentam dizer.

Algures no prólogo, a autora fala de “generosidade” de Maximilien Le Roy. Bom, discordemos. Essa generosidade seria mais clara se o nome de Srour estivesse na capa, como co-autor, que de facto é. Não poderemos inverter os factores? A generosidade não será do jovem palestiniano, ao emprestar a voz ao autor francês? Não é tanto Le Roy que “dá a voz” a Srour, como ocorre no caso do jornalista-Sacco em relação aos entrevistados em Gaza, mas sim a do homem-Srour ofertando matéria de expressão ao autor-Le Roy para este seu livro. A direcção é convergente entre os dois, no fim da jornada.

O livro ainda é complementado por vários “anexos”. Em primeiro lugar, e no seguimento preciso da narrativa principal, um breve conjunto de fotografias pessoais da vida de Mahmoud, que lhe confirmam a existência e são reveladoras da felicidade da vida familiar – fotos antigas da mãe (?), dos pais (?), dele em criança (?), com o irmão (?). Segue-se uma pequena reportagem fotográfica de Maxence Emery sobre os aspectos de controlo social da parte do exécrito israelita sobre a vida em Gaza, inclusive acções de protesto e a sua própria prisão (para identificação). Uma entrevista-conversa ilustrada com Alain Gresh, importante autor de livros afectos à questão israelo-palestiniana, à relação entre o Islão e a nossa modernidade, e editor do Le Monde Diplomatique. E ainda uma pequena lista de livros aconselhados por le Roy, quer contemplando ensaios e livros históricos, como romances, entrevistas e bandas desenhadas: Sacco, Squarzoni, Spiegelman e Mazen Kerbaj, cujo Beyrouth saiu na L’Association. Tudo isso são elementos que contribuem para o mesmo fito político de Faire le Mur, evidentemente, sublinhando a justeza da realidade retratada, ou forçando a ideia de verdade da sua ficção.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Museu Italiano de Quadrinhos faz campanha publicitária

O Museu Italiano de Quadrinhos (Fumeto, como são chamados na Itália), lançou uma bem-humorada campanha publicitária para chamar a atenção dos visitantes italianos e dos turistas estrangeiros. O Museu está localizado no coração da cidade de Lucca.

A campanha se utiliza de algumas das mais famosas pinturas da história para propor uma brincadeira, em formato de tirinhas de jornal. Confira algumas das peças ...





A teoria do Caos


Uma borboleta que bate asas na China pode provocar um tornado em Nova York... Esta frase, que vem sendo citada por ambientalistas nas últimas décadas, é uma interpretação popular para uma teoria que vem se fortalecendo e ganhando espaço – desde as universidades aos livros de auto-ajuda: a Teoria do Caos ou Teoria da Complexidade.

Esta teoria foi citada pela primeira vez em 1963 pelo meteorologista Edward Lorenz, do Instituto de Tecnolgia de Massachusetts. Lorenz desenvolvia um modelo que simulava em computador a evolução de mudanças climáticas. A partir de valores iniciais de vento e temperatura, o computador fazia uma simulação da previsão do tempo. Ele imaginava que pequenas modificações nas condições iniciais acarretariam alterações também pequenas na evolução do quadro como um todo.

Mas, para a supresa de Lorenz, o estudo mostrou que mudanças infinitesimais nas entradas poderiam ocasionar alterações drásticas nas condições futuras do tempo. Uma leve brisa em Nevada, a queda de 1 grau na temperatura no oceano... podem ter uma repercussão ampliada em outro lugar do planeta. O nome Efeito Borboleta (que está diretamente associado à Teoria) é resultado da representação gráfica do modelo matemático criado pelo computador e que se assemelha às asas do inseto. A teoria revolucionou a compreensão de causa X efeito – como a Ciência sempre encarou a natureza – e abriu espaço para novas formas de compreensão do universo.

A partir da premissa de que o mundo funciona como uma complexa rede onde fios – quase invisíveis – estão conectados, o desenhista francês Pierre Schelle criou uma novela gráfica inovadora: A Teoria do Caos, lançada na França em 2001, após cinco anos de trabalho.  O romance gráfico – ainda inédito no Brasil – é inovador ao propor uma narrativa rara para os quadrinhos: a completa ausência de diálogos ou textos. Algo semelhante ao que o artista Peter Kuper havia feito na década de 80, com a história “O sistema”.

O esforço e esmero técnico de Pierre Schelle são recompensados. O traço do artista é refinado, detalhista e atento à complexidade de cada quadro. O resultado se assemelha a um novelo que vai lentamente sendo desenrolado. Todos os personagens e acontecimentos estão ligados entre si... O autor faz uma proposta ao leitor e elabora o roteiro da história de modo a brincar com os conceitos. O primeiro capítulo do livro, intitulado "Efeito Borboleta" propõe uma leitura dos impactos do bater de asas de uma borboleta na China sobre um tufão em nova York. A segunda história "O fator Humano" mostra que a evolução não é fruto da sorte, mas do caos: "a natureza aborrece o vazio. E, se consideramos que o homem está no topo da evolução, então o homem é o maior propagador de caos do Universo". Por último, Pierre Schelle joga com a Lei de Murphy e nos propõe uma reflexão bem humorada sobre o caos que adviria de uma "revoada" de borboletas: "Por causa de uma borboleta, nasceu o 130º Prêmio Nobel da Paz; por conta de uma segunda borboleta, foi eleito no Vaticano o primeiro Papa negro da história e uma terceira borboleta ocasionou a primeira eleição democrática na Birmânia...


Confira um documentário da TV Britânica BBC sobre a Teoria do Caos:


domingo, 18 de abril de 2010

Anos loucos – a história de Kiki



"Essa Paris me abalou dos pés a cabeça"
Joan Miró

"Se você tiver a sorte de ter vivido em Paris... então onde quer que vá para o resto de sua vida, ela permanece com você, porque Paris é uma festa."
Ernest Hemingway

"A América é minha terra, mas Paris é minha casa."
Gertrude Stein

As primeiras três décadas do século XX foram intensas e decisivas para os rumos da cultura, da economia e da política mundiais. A um só tempo, e em diferentes partes do mundo, explodiam guerras, revoluções, novas descobertas na ciência, movimentos artísticos de profunda ruptura: Guerra Civil Espanhola, Revolução Russa, a Revolução Mexicana, 1º Guerra Mundial, o cubismo, o Jazz, o dadaísmo, a moda, a massificação do rádio e do cinema... Foi como se uma força colossal e represada irrompesse de uma única vez.

Foi nesse contexto que surgiram personagens fantásticos como: Picasso, Duchamp, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Tristan Tzara, Hemingway, James Joyce, Ezra Pound, Villa Lobos, Chagall... Mas o epicentro desta revolução era Paris. Era lá que os maiores expoentes se encontravam. 

Foi lá que Alice Prin, menina pobre nascida em Chatillon-sur-Seine transformou-se em Kiki de Montparnasse, musa inspiradora de alguns dos maiores artistas do século: Moise Kisling, Modigliane, Fujita Tsuguharu, Man Ray, entre outros.

A história de Kiki foi reproduzida em um romance gráfico que conquistou alguns dos maiores prêmios do mundo dos quadrinhos. Kiki de Montparnasse – de Catel Muller e Louis Bocquet – foi vencedor do Prix Essentiel FNAC em Angoulême, do Grand Prix RTL Comic Strip e do Millepages BD. O livro chega agora ao Brasil pela Editora Record.

Uma mulher seu tempo
Kiki foi o retrato de uma época. Liberal, intensa, amoral... Difícil de rotular, Kiki foi Cantora, atriz, modelo, prostituta, pintora, dançarina... Neste sentido, é difícil não lembrar de Tina Modotti (fotógrafa, atriz, revolucionária...) que viveu em diferentes  países no mesmo período de Kiki (o romance gráfico sobre Tina Modotti já foi comentado neste blog).

Criada pela avó, longe da mãe e sem conhecer seu pai, Alice sempre teve um espírito irrequieto. Aos 12, Alice foi juntar-se à mãe em Paris. Trabalhou em uma fábrica de sapatos e em uma padaria, onde era explorada (na época, o trabalho infantil – em especial das crianças pobres – era algo natural). Aos 14, ela decide deixar a padaria, após uma briga com a proprietária, e faz o seu primeiro trabalho como modelo para um escultor: Ronchin. Por conta disso, Alice é expulsa de casa pela mãe e vai viver de favores de artistas e boêmios do bairro de Montparnasse (reduto dos artistas em Paris). A partir daí, Alice vai construindo a sua transformação para Kiki e entrando para a história como uma das personagens mais marcantes dos chamados “anos loucos”.

“Paris não era só um aglomerado de escritores exilados de terras mais provincianas. Era Coco Chanel, que mudou a cara da cidade com seus vestidos elegantes e confortáveis e seu perfume N.º5, até hoje uma mina de ouro. Chanel e o art déco da grande exposição de artes decorativas de 1925 são, para todo o sempre, a mais atraente imagem da década.
Paris virou vitrina e todo mundo queria entrar nela. Os negros americanos do le jazz hot chegaram na companhia de Josephine Baker, uma pantera desfilando outra pantera na coleira. Tinha Jean Cocteau e seu Le Boeuf sur le Toit. Mas o paraíso era dos americanos. Os milionários chegavam poderosos como Nancy Cunard, Sara e Gerald Murphy, Caresse e Harry Crosby, com Zelda e Scott Fitzgerald como testemunhas. Tudo era fácil e barato. Até 1929 e a queda da Bolsa. Aí todos foram embora, mas a história já estava feita. Nenhum outro século saberá repeti-la.” (do site anos loucos)

Kiki viveu o céu e o inferno. Dormiu com alguns dos homens e mulheres mais influentes do mundo das artes, ficou imortalizada em quadros e fotos, drogou-se, apanhou de prostitutas, foi agredida por seus amantes e morreu só no mesmo bairro que a imortalizou.

O traço é de Kiki é de Catherine Muler, conhecida como Cathy Muller ou simplesmente Catel. A artista estudou na Escola de Artes Plásticas de Estrasburgo e especializou-se em ilustrações para crianças. Catel oscila entre a caricatura de humor e o retrato. O desenho é envolvente e foi resultado de amplas pesquisas visuais sobre a Paris dos anos 20 a 50. Catel estudou sobre a arquitetura e a moda parisiense da época para compor a história. O texto de José-Louis Bocquet também foi resultado de intensas investigações. O autor, em entrevista a um blog Português, disse que para criar o roteiro de apenas quatro páginas do encontro entre dois personagens, ele teve de ler duas biografias porque queria que as poucas frases fossem “reais”.


A leitura de Kiki é uma oportunidade imperdível para conhecer mais sobre os anos loucos e a Paris dos anos 20 e 30. Confira abaixo algumas fotos e pinturas inspiradas em Kiki.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Bordados – como ser uma mulher no Irã


Como ser mulher em um mundo onde apenas os homens podem tudo e a elas é reservado – unicamente – o papel de obedecer: ao pai, aos irmãos, ao marido, aos anciãos? Como resistir a uma cultura onde meninas de 13 anos são dadas como esposas a homens de 69 anos? Como sobreviver à opressão de um machismo perverso?

A quadrinista iraniana Marjane Satrapi tornou-se a mais importante porta-voz das mulheres do oriente a partir da publicação do seu primeiro livro “Persépolis”. Através das suas memórias pessoais e da família, a autora relembra a história recente do Irã dos aiatolás: a queda do Xá (que governava o país com uma tendência “europeizante”), a ascenção dos radicais religiosos, o fim do liberalismo cultural... O livro, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares, teve uma versão para cinema que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.




Depois de Persépolis, Marjane repetiu a mesma fórmula com “Frango com ameixas” que conta a história do tio músico, que não consegue se adaptar ao radicalismo religioso. E agora lança no Brasil, pela Companhia das Letras, o seu terceiro livro: “Bordados”.

O romance gráfico investiga as lembranças e traumas das mulheres da família Satrapi e de suas amigas mais próximas. Em volta do samovar (uma peça tradicional no Irã, onde é servido o chá), oito mulheres se reúnem para contar suas histórias de dor, medo, humilhação e superação. Com um humor sutil e seu traço ingênuo (quase infantil), Marjane nos mostra como as mulheres iranianas conseguem tornar-se donas dos seus próprios destinos. Apesar de tudo, elas conseguem amar. Driblam a opressão de seus maridos, fazem cirurgias plásticas, traem, riem e fazem graça com sua própria condição. A autora faz um libelo feminista, sem cair no discurso panfletário.

sábado, 10 de abril de 2010

Limpeza de Sangue - as aventuras de Diego Alatriste

 
“Nos cárceres secretos de Toledo pude aprender, quase a custo de minha vida, que nada há de mais desprezível, nem perigoso, que um homem mau que toda noite se deita com a consciência tranquila. E ainda resulta pior quando atua como intérprete de uma só palavra, seja o Talmud, a Bíblia ou o Alcorão. Desconfie sempre de quem é leitor de um só livro.”


Mais uma vez o jovem Iñigo Balboa nos conduz pelas tortuosas ruas da Madri do século XVII, "com suas míseras luzes e suas ardentes sombras". O segundo livro da série de aventuras do capitão Diego Alatriste, escrita pelo espanhol Arturo Pérez Reverte, nos leva novamente a um cenário de traições, intrigas palacianas, corrupção e morte na Espanha de Felipe IV.

 A Europa – e a Espanha, em especial – viviam ainda sob o regime de medo e intolerância da Inquisição. Os autos de fé atraíam milhares de pessoas, desde a aristocracia até a população dos menores vilarejos. Quando celebrados em Madri, os autos eram presenciados pelas majestades reais. Nestes “espetáculos”, judeus muçulmanos, homossexuais, bígamos, protestantes e acusados de bruxaria, eram mortos em fogueiras, para delírio do público.

Neste período, vigorou uma política que ficou conhecida como “Limpeza de Sangue”, quando foram impostos regulamentos que impediam a judeus conversos ao cristianismo (e, logo depois toda ordem de pessoas condenadas pela Inquisição) e a seus descendentes de ocupar postos e cargos em diversas instituições – seja de caráter religioso, militar, universitário e civil.

“A perseguição levou a uma interminável caça às bruxa, completa com denunciantes pagos, vizinhos bisbilhoteiros e uma racista “limpieza de sangre”. Judeus conversos eram apanhados por intrigas e vestígios de prática mosaica: recusa de porco, toalhas lavadas à sexta-feira, uma prece escutada à soslaia, freqüência irregular à igreja, uma palavra mal ponderada. A higiene em si era uma causa de suspeita e tomar banho era visto como uma prova de apostasia para marranos e muçulmanos. A frase “o acusado era conhecido por tomar banho” é uma frase comum nos registros da Inquisição. Sujidade herdada: as pessoas limpas não têm de se lavar. Em tudo isto, os espanhóis e portugueses rebaixaram-se. A intolerância pode prejudicar o perseguidor (ainda) mais do que a vítima. Deste modo, a Ibéria e na verdade a Europa Mediterrânica como um todo, perdeu o comboio da chamada revolução científica”.


É neste contexto que Arturo Pérez Reverte insere o seu protagonista, Diego Alatriste. Um homem que, segundo o narrador da história – Íñigo Balboa, “não era o homem mais honesto, nem o mais piedoso, mas era um homem valente”. Um personagem com um talento inigualável de se meter em confusões.

No primeiro volume da série, já comentado neste blog, o espadachim se vê envolvido em uma trama palaciana para assassinar o herdeiro do trono da Inglaterra e acaba atraindo para si a ira da Igreja e de setores da aristocracia.


No segundo livro, Diego Alatriste e seu protegido Iñigo, são arrastados para dentro da Inquisição Espanhola. O próprio narrador é preso, torturado e interrogado nas masmorras. A única coisa que pode salvá-lo da fogueira é a sua pouca idade: o pajem de Diego tem apenas 14 anos.

Sombra e escuridão

O romance gráfico baseado na história de Arturo Reverte, tem roteiro de Carlos Gimenez e desenhos de Joan Mundet.

Mundet usa bico de pena e nanquim para reproduzir as ruas, vestuário, móveis e demais elementos que nos remetem ao período do reinado de Felipe IV. Ele não tem o requinte de detalhes de outros artistas autores de romances gráficos com fundo histórico (como Jacques Tardi, Joe Sacco e Stéphane Heuet), mas consegue alcançar uma expressividade no olhar, e no uso de luz e sombra que confere uma força adicional à narrativa.


Alatriste no cinema

A história de Diego Alatriste foi adaptada para o cinema, com Viggo Mortensen no papel principal. Confira um trailler abaixo

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sábado, 3 de abril de 2010

Novo livro de Joe Sacco lançado na Europa

Joe Sacco (Malta, 1960) se a convertido en la punta de lanza de ese subgénero dentro del cómic actual para adultos que se puede denominar periodístico. Periodístico no sólo porque trate temas de actualidad, sino porque parte de una investigación de campo, porque contrasta sus fuentes, porque ofrece un comentario siempre comedido y ajustado a los hechos y porque, a pesar de su presencia constante, el autor trata de no interferir entre la historia y el lector. Y en todos estos aspectos, Sacco hace un trabajo magnífico. Tras tres meses de trabajo sobre el terreno entrevistando a los protagonistas de los hechos y más de cuatro años de soledad reflexiva frente al tablero de dibujo, Sacco entrega al público una nueva obra maestra.

En Notas al pie de Gaza, Sacco retoma algunos de los temas que ya describió en Palestina hace casi dos décadas, pero en lugar de centrarse en la situación actual en los territorios palestinos ocupados y los campos de refugiados, echa la vista atrás para desentrañar los hechos oscuros que concluyeron con la matanza de cientos de palestinos civiles a manos de soldados israelíes en noviembre de 1956 en las ciudades de Khan Younis y Rafah. Sacco no es imparcial y no pretende serlo. Habiendo leído Palestina es obvio que sus simpatías están con el pueblo palestino y es su punto de vista y su historia la que el dibujante maltés quiere ofrecer al público. Con la realización de este libro, Sacco pretende por una parte, arrojar luz sobre lo que puede ser haber sido una gran mentira histórica promovida por los israelíes –que la mantaza se produjo ante la resistencia de los palestinos- y al mismo tiempo le interesa excavar hasta dar con las raíces del odio entre los dos pueblos. Esta clave de lectura ya la apunta el propio Sacco en el prólogo cuando reproduce las palabras de un testigo presencial que en 1956 tenía 9 años: “Sembraron el odio en nuestros corazones.” También en el prólogo se hace hincapié en el que será otro de los corolarios a los que llega el lector tras la lectura del libro: “los hechos son contínuos.” Los jóvenes palestinos no entienden la obsesión de Sacco con 1956 cuando hoy mismo sus casas están siendo derrumbadas, sus hay tiroteos diarios, cuando sufren constantes humillaciones. Sin embargo, en muchos aspectos, 1956 no es tan diferente de 2010. La lucha entre los dos pueblos continúa, la balanza sigue estando del mismo lado, la comunidad internacional sigue haciendo la vista gorda, el dolor de ayer se hace indistinguible del dolor de hoy. 1956 es hoy.

Gran parte de la fuerza de los libros de Sacco, y Notas al pie de Gaza es un ejemplo perfecto en este sentido, es su capacidad para individualizar y humanizar a los personajes –estas notas al pie, al fin desarrolladas- al tiempo que mantiene una actitud aséptica en sus textos de apoyo, transmitiendo al lector lo que podríamos llamar una “verosimilitud dramática”. Esta personalización se obtiene mediante pequeños detalles de su entorno y comportamiento –denotando el buen ojo periodístico del autor- y mediante detallados retratos. Los dibujos de Sacco tienen la capacidad de transportarnos al lugar de los hechos, y mientras sus escenarios extremadamente fieles a la realidad mantienen las perspectivas, las proporciones y son unívocos, los personajes a menudo –aunque menos que en Palestina, por ejemplo- se dibujan en perspectivas forzadas y deformantes que nos recuerdan que en esencia son una interpretación del autor. Este es otro de los temas importantes del libro, la recreación del autor de la historia, que constantemente es cuestionada, poniendo en entredicho tanto sus propias conclusiones como los recuerdos de muchos de los testigos presenciales entrevistados. Su memoria es en ocasiones un puro ejercicio de reconstrucción de la realidad de segunda mano o incluso una remodelación (de)formada a lo largo cinco décadas de sufrimiento. En cualquier caso, a pesar de todas estas consideraciones sobre la fiabilidad del relato que está construyendo, de sus propias motivaciones y de su papel como periodista extranjero, Sacco logra de nuevo componer una narración tan absorbente e informativa como emocionante, conmovedora y humana. Los abundantes textos y el detalle en el dibujo invitan a la lectura sosegada y ayudan a rumiar las ideas que se van apuntando, al tiempo que su claridad expositiva y capacidad de síntesis hacen la lectura fluida y apasionante. Dos de los sentimientos más presentes en el libro, el miedo y la resignación, vienen en gran medida transmitidos por el propio dibujo, que en más de una ocasión remite a los condenados al Infierno en los grabados de Gustavo Doré para La Divina Comedia de Dante. Notas al pie de Gaza es un cómic que no solo se precibe a nivel intelectual, sino que se siente.

Muchos reseñistas ajenos al mundo del cómic han considerado Notas al pie de Gaza como un “libro ilustrado”, tal vez porque no conciben que esta densidad, esta seriedad ensayística pueda darse en un cómic, cuando precisamente su enorme impacto viene dado por el medio que soporta el relato. Cuenta Sacco que, cuando estaba realizando su investigación en Gaza y se topaba con posibles testigos de los hechos, a menudo su guía les mostraba una copia de Palestina. “Cuando abrían el libro veían lo que estaban viviendo. Si hubiera sido prosa, no habrían sabido lo que yo hacía. Gracias a que era un cómic, lo entendían al momento.” Aunque en realidad, el mayor mérito de Sacco es que nosotros lo entendamos.

(do site espanhol Entrecomics)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Jerusalém, cidade dividida


“Jerusalém é uma cidade sagrada onde todos seus habitantes vivem amaldiçoados... Uma cidade feita para Deus, não para os homens.”

Árabes e judeus vivendo juntos na mesma cidade, compartilhando as mesmas lojas, as mesmas ruas, o mesmo café... O sonho de paz em Jerusalém já foi real um dia, quando um milhão de palestinos e cerca de cem mil judeus conviviam em um mesmo e único País - apesar de suas diferenças.

O artista espanhol Alfonso Zapico reproduz em “Café Budapest” um dos momentos mais importantes da história do século XX e que ainda hoje tem reflexo na geopolítica mundial: a criação do estado de Israel. Em uma entrevista concedida ao site da editora espanhola Astiberri, Zapico conta que o conflito entre palestinos e judeus, por sua extrema complexidade, sempre o deixou instigado. Seu desejo era fazer uma novela gráfica que contasse: “Começou tudo”.

Café Budapest é uma viagem no tempo. O leitor é transportado aos últimos meses do ano de 1947, às vésperas da conferência da ONU que decidiria pela divisão da Palestina (então sob domínio inglês). Outros livros de quadrinhos já exploraram, nos últimos anos, o conflito entre na Palestina. Sobre esse tema, o trabalho mais conhecido no Brasil é o do jornalista Joe Sacco, com dois livros publicados sobre a Intifada (Palestina, uma nação ocupada e Palestina, na faixa de Gaza). Sacco é considerado o criador e maior expoente do gênero quadrinho jornalístico, realizando verdadeiras reportagens sobre o drama do povo palestino (o artista não tem qualquer receio em tomar partido por um dos lados em conflito).

Também está disponível no Brasil (pela Jorge Zahar Editor) a série criada pelo artista francês Joann Sfar – O gato do rabino – que igualmente explora a relação entre árabes e judeus, analisando semelhanças e diferenças entre as duas culturas. A série foi transformada em filme e deve estar chegado aos cinemas ainda este ano.

O grande diferencial de Café Budapest é o de enfocar o momento exato da transformação, quando vizinhos – que até então tomavam chá juntos – são obrigados a dizer adeus. Um dos personagens do livro – o árabe Doutor Hassan – chega a acreditar que nunca haveria fronteiras entre os dois povos “porque entre irmãos a terra no se reparte, se comparte”. Mas em pouco tempo os fatos mostrarão que ele estava errado. O próprio Hassan reconheceria sua ingenuidade e concluiria: “Não existe como compartilhar a terra. Imagine a dois irmãos que vivem na mesma casa, em quartos diferentes e continuam convivendo... isso é compartilhar. Mas, se estes irmãos vão de quarto em quarto arrancando a pele um do outro à dentadas e sujando as paredes com seu sangue, isso não é compartilhar, é barbárie”.

Zapico conta a história de um jovem violinista judeu que deixa a Europa do pós-guerra e viaja com a mãe ao encontro do tio que vive na Palestina. A mãe de Yechezkel é uma sobrevivente do campo de concentração de Birkenau (onde o marido e pai de Yechezkel foi assassinado). Shprintza vive em uma depressão e isolamento profundos e guarda um segredo aterrador que só será revelado no final do livro.

O tio de Yechezkel – Yosef – tem um Café em Jerusalém, onde mantém amizade com assíduos clientes árabes. Mas, a situação não é tranquila. Há uma sensação de medo no ar. Uma expectativa, quase um prenúncio dos novos tempos que virão: “Em princípio de setembro, a vida em Jerusalém transcorria relativamente tranquila. Os vizinhos de toda a vida continuam sorrindo e saudando uns aos outros. Até que deixaram de acenar. Logo deixaram de passar pelas mesmas ruas. E finalmente, as portas se fecharam com tristeza... A Jerusalém até então conhecida começa a desmoronar”.

Provocativamente, Zapico coloca os personagens em rota de colisão. Como Yechezkel que acaba se apaixonando por uma garota árabe - Yaiza, e se torna amigo do senhor Hassan (com quem faz duetos de violino e violoncelo ao final da tarde).

Ou autor, ao contrário de Joe Sacco, tenta manter uma distância dos dois lados do conflito. Os extremista de ambos os lados (palestino e judeu) são alvo da crítica de Zapico: a Haganah - uma espécie de milícia armada isralense - e os militantes árabes. Talvez para evitar se comprometer, Zapico prefere não abordar os ataques a civis que se seguiram ao anúncio da criação do estado de Israel. Os primeiros conflitos, os primeiros atentados, os primeiros de muitos morticínios estão retratados no livro. Em especial os confrontos do dia 9 de março de 1948 em que árabes e judeus guerrearam entre as ruas de Jerusalém. Mas o artista silencia diante do ataque à aldeia de Der Yassin, na vizinhança de Jerusalém. A 9 de Abril de 1948, forças isralenses entraram na aldeia e massacraram mais de cem pessoas, homens, mulheres e crianças.

Mas, não é o propósito do artista espanhol construir um relato jornalístico.

Café Budapest é um dos melhores romances gráficos de ambientação histórica lançados nos últimos anos. Uma leitura fundamental para quem quer conhecer um pouco mais sobre a questão palestina.

Neste sentido, recomendo a leitura de um artigo recém publicado na revista Piaui sobre Edward Said, um dos maiores pensadores árabes modernos. Edward, que morreu em 2003, desagradou árabes e judeus com suas teorias e foi um dos primeiros a ter a coragem de anunciar que a única saída real para o conflito é palestinos e judeus voltando a viver juntos sob um mesmo estado.

veja o link http://www.revistapiaui.com.br/edicao_41/artigo_1249/O_cosmopolita_desenraizado.aspx





segunda-feira, 29 de março de 2010

A lanterna dos afogados


Grave bem este nome: Ludovic Debeurme.

O autor francês é uma das melhores revelações da literatura em quadrinhos nos últimos anos. Seu livro “Lucille”, lançado em 2007, foi escolhido com uma das obras essenciais do maior festival de quadrinhos no mundo (o Salão de Angoulême).

Lucille tem uma força narrativa e uma expressividade que o coloca como um dos mais importantes comic books já publicados, ao lado de outras obras de referência, como: Maus, Um Contrato com Deus ou Persépolis.

A história conta a trajetória de dois personagens imensamente complexos: Lucille e Arthur. Ela é uma adolescente anoréxica que sofre com a perda da autoestima e uma relação conflituosa com a mãe. Ele é um garoto desajustado, filho de um marinheiro alcoólatra e que vive rodeado de conflitos. Os dois formam um casal improvável, mas verdadeiro e intenso. Por mais estranho que possa parecer, é para Arthur que Lucille consegue se expor. Ao mesmo tempo, é pela magra e frágil menina que o adolescente se apaixona.

Os dois parecem náufragos agarrados à última bóia salva-vidas: o pai de Arthur, se suicida deixando para o menino a responsabilidade de cuidar da família. Lucille é internada para tratar o baixo peso. O mundo desmorona e um só tem ao outro para se apoiar.

No aspecto gráfico, é impossível ler “Lucille” e não lembrar de outro romance gráfico lançado no ano passado pela Companhia das Letras: “Umbigo sem Fundo”, do americano Dash Shaw. Ludovic usa a página com maestria. Seu traço é minimalista, mas intenso. Com poucas linhas ele consegue recriar toda a atmosfera que envolve o mundo de Lucille e Arthur. Um cenário rude, pobre, desolado...

O primeiro volume do livro (com mais de 500 páginas) ainda não foi lançado no Brasil. Esperamos que, à reboque de lançamentos recentes como o próprio "Umbigo sem Fundo" e "Retalhos" (comic books com mais de 600 páginas cada um), esta obra imperdível chegue ao Brasil.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Batman bate Super-homem


Na última semana de fevereiro, um exemplar da Action Comics#1, o quadrinho onde apareceu o Super-homem pela primeira vez e que inaugurou o gênero dos super-heróis em 1938, marcou um recorde histórico alcançando pela primeira vez o valor de 1 milhão de dólares ao ser comprada por um colecionador.

Poucos dias depois, um exemplar de Detective Comics #27, publicado em 1939 e onde Batman fez sua primeira aparição superava por pouco a marca de Superman, alcançando 1milhão e 75 mil dólares.

O mago revelado


Esta dica de leitura vem do site espanhol Entrecomics. Uma entrevista com um dos maiores criadores de roteiros de quadrinhos de todos os tempos: Alan Moore. A entrevista foi publicada na revista espanhola Vice.



Hijo orgulloso de Northampton, la pequeña localidad inglesa en la que aún vive, Moore se fogueó a principios de los 80 en 2000 AD, la principal factoría británica de cómics de ciencia ficción y fantasía. Sus historias para el Juez Dredd reimaginaron el personaje dotándole de complejidades inexploradas hasta entonces. Su propia creación, Halo Jones, fue el primer título del medio en presentar a una protagonista femenina que no era una supertipa con grandes tetas ni una víctima.

A mediados de los 80 revolucionaba los cómics americanos, primero revitalizando un estancado título de DC, La Cosa del Pantano, que Moore convirtió en un libro sobre el examen de la existencia con trasfondo ecologista, y después creando Watchmen, el primer cómic que dio realmente la vuelta al tropo superheroico; una obra maestra de la que se rodó una aciaga adaptación cinematográfica que Moore, por supuesto, ha desautorizado.

Varias reyertas legales sobre propiedad y derechos de sus creaciones más tarde, Moore inauguró su propia línea de cómics, bautizada—no del todo en broma—como America’s Best Comics. Entre 1991 y 1996 produjo From Hell, una personal, bella y siniestra visión de la historia de Jack el Destripador que también se convirtió en una película de mierda que Alan desautoriza. La serie La Liga de los Caballeros Extraordinarios dio comienzo en 1999 y se ha convertido en un libro mastodóntico, torrencial, que mezcla felizmente historia real e imaginada con versiones de nuestra propia realidad. De nuevo película chunga, muy chunga, y desautorización de Moore. En V de Vendetta el inglés nos ofreció su punto de vista sobre el totalitarismo: peli al canto y, claro, desautorización al ídem.

En años recientes Moore ha producido una novela formalmente compleja, La Voz del Fuego (1996), y un poema de largo formato sobre chicas a las que les gustan las chicas y chicos a los que les gustan los chicos titulado El Espejo del Amor (2004). También ha publicado 25,000 Years of Erotic Freedom (2009), que examina exactamente lo que el título indica, y Lost Girls (2006), una creación en tándem con su compañera, Melinda Gebbie, en la que la Wendy de Peter Pan, la Alicia de Alicia en el País de las Maravillas y Dorothy, de El Mago de Oz, viven un montón de explícitas aventuras. Estimulante de verdad.

Actualmente Moore trabaja en una revista underground, Dodgem Logic; en una novela, Jerusalem, y en una guía sobre la magia. Porque, veréis, Moore practica la magia, y no la del tipo conejo-y-chistera. Hace poco le telefoneamos a su casa en Northampton y, al asegurarnos él que tenía una taza de té en la mano y “todos los tés que hagan falta a mi disposición”, quedó claro que Mr. Moore estaba más que dispuesto a hablar con nosotros durante largo rato sobre su trabajo y sus ideas. Y, sí, durante nuestra conversación surgió la magia.

Vice: ¿Podría hablarnos de su más reciente trabajo, Dodgem Logic?
Alan Moore: Dodgem Logic es una colisión agresivamente aleatoria de todo tipo de cosas, ya sean absurdistas piezas de ficción de Steve Aylett o nuevas ilustraciones de Savage Pencil y Kevin O’Neill. Estéticamente, en lo que se refiere a lo formal, surgió de la fascinación por la prensa underground, que es una cultura que precede a la misma prensa impresa pero cristalizó a nivel popular en las décadas de los 60 y los 70, cuando era parte vital de la contracultura.

¿Cuáles eran las publicaciones underground más importantes en Inglaterra en aquellos días?
En Inglaterra, International Times y Oz, que empezó en Australia como revista satírica y después se trasladó aquí, donde se convirtió en algo mucho más controvertido y psicodélico. Aquellos fueron tiempos embriagadores, y la prensa underground fue el pegamento que mantuvo aquel segmento de la sociedad unido y en contacto unos con otros. Sin esos periódicos, el underground habría consistido en un grupo de personas que vestían ropas similares, escuchaban similar música y tomaban parecidas drogas, pero sin un discurso político o cultural coherente.

¿Y Dodgem Logic se concibió como una continuación de esa tradición?
Decidimos hacer de Dodgem Logic una revista de 48 páginas llena de brillantes colores con la intención de reinventar la noción de publicación underground para el siglo XXI. Intentamos constantemente darle un acabado deliberadamente primitivo, tosco. No queríamos que fuese demasiado pulido porque la pulidez puede tener algo de intimidante, levantar una barrera entre la revista y su público.

Algunas páginas están compuestas mediante el método de recortar-y-pegar, lo cual hace que parezca un híbrido entre un periódico underground y un fanzine.
Me tomo eso como un cumplido. Los fanzines fueron una parte vital de la contracultura en la que crecí; de los fanzines de poesía de los años 60 a los de cómic, ciencia ficción y fantasía de los 70, que produjeron gran parte del talento que hoy sobresale en esos géneros. Eran pequeñas publicaciones que poseían una gran energía y eran increíblemente productivas. Puede que eso se debiera a lo fáciles que eran de hacer. Puede que ni mucho menos tan fáciles de hacer como lo es en la actualidad, pero ahora que existe la tecnología para realizar cosas mucho más ambiciosas de las que jamás soñamos, el ímpetu ha desaparecido. Tal vez el grado de pasión que se ponía en Sniffin’ Glue o en cualquiera de aquellos fanzines asociados con el movimiento punk siga existiendo ahora, pero en Internet. No lo sé. Puede que suene anticuado, pero todavía creo que siempre habrá una diferencia entre algo que ves en una pantalla y algo que puedes sostener en tu mano.

Las cosas físicas son mejores. Más reales.
Dan una sensación de artefacto que forma parte de una comunidad y parte de una cultura.

Un tema recurrente en su trabajo, de La Cosa del Pantano a Watchmen, entre otras obras, es el descontento con el gobierno y el inexorable declive de la civilización, junto a la preocupación por la erosión de una comunidad y cultura locales. Dodgem Logic parece un medio más directo de hablar de esos aspectos que abordarlos de forma oblicua a través de los cómics.
Si te digo la verdad, apenas tengo ya nada que ver con los cómics. Sigo dándole vueltas a La Liga de los Caballeros Extraordinarios y dibujo algunas tiras para Dodgem Logic, pero me he desvinculado de la industria del cómic. Ya no me considero parte de ella.

¿Sería factible llevar a un formato de cómic los asuntos que trata en Dodgem Logic?
Sí, sería factible hacerlo en modo cómic. Sin embargo, aunque eso sin duda encantaría al público habitual del cómic, los asuntos que abordamos en Dodgem Logic no llegarían a un público más amplio. Debo señalar que Dodgem Logic no es una revista que hable específicamente sobre Northampton. Tomamos la ciudad como referencia porque es aquí donde vivimos varios colaboradores y yo, pero partimos del punto de vista de que Northampton está en el centro exacto del país geográfica, política y económicamente. Es un buen modelo de representación de cualquier otra ciudad. Las calles principales están muertas, las tiendas están cerradas; no hay vida. El ayuntamiento abusa de los ciudadanos y hay basura por todas partes.

¿Qué le ha movido a encarar estos temas de un modo tan directo precisamente ahora? No es que en los 80 careciéramos de problemas sociales...
Hace un par de años contactó conmigo un grupo de ex delincuentes juveniles que trabajaban entonces en el campo de la música en Burrows, el área de Northampton donde yo nací, crecí y en el que está ambientada buena parte de mi próxima novela. Habían decidido que querían hacer una película sobre esta zona tan deprimida y, sabiendo que yo era de allí, me preguntaron si no me importaría dejarme entrevistar, y que la entrevista apareciese en la película. Trabajaban en colaboración con el Museo Central de Northampton; me pasé por allí, nos conocimos y nos llevamos tan bien que me propuse mantener el contacto con ellos más allá de la duración de aquel proyecto inicial, de manera que empecé a visitarles cada semana en las oficinas del CASPA, una organización de apoyo a la comunidad que estaba haciendo un brillante trabajo en la zona. Me reunía con ellos y con su coordinadora, una mujer joven y maravillosa llamada Lucy, e inevitablemente les contaba cosas acerca de la escena local, de los clubs de arte y cultura underground que había en la ciudad cuando yo era joven, y lo mucho que contribuyeron a moldearme, a convertirme en la persona que soy. Les explicaba también que producíamos revistas y fanzines y organizábamos veladas de lectura de poesía y cosas por el estilo. Estoy seguro de que mis historias les resultaban muy aburridas, pero las ideas parecieron cuajar. Resolvieron producir una revista por su cuenta, a la que yo contribuiría. Deseábamos, tanto los chicos como yo, hablar de algunos de los auténticos problemas que afectaban al área; lo malo era que probablemente no pudiéramos porque la subvención para hacer la revista procedía del ayuntamiento. Aun así, decidieron intentarlo. Yo escribí un artículo titulado “Los Destructores”. Trataba de la antigua planta incineradora, que estaba en Burrows. Allí era, en tiempos pasados, donde se eliminaban las basuras de toda la ciudad.

Un detalle revelador.
El mensaje respecto a lo que al ayuntamiento le importaban los habitantes de la zona estaba claro. Y, aunque la incineradora se clausuró en los años 30, el mensaje sigue pudiéndose aplicar hoy. Allí es donde el ayuntamiento envía todo aquello de lo que no se quiere ocupar: inmigrantes, ex convictos y personas que han estado en hogares de acogida. Toda la gente problemática termina hacinada en Burrows, a menudo en edificios condenados por los servicios antiincendios. Suceden cosas horribles cada día.

¿Y vetó el ayuntamiento el artículo?
Sí. Dijeron que no lo podíamos publicar porque el tono era crítico con ellos. Lucy y yo les propusimos entonces que ella trabajara en CASPA tres días a la semana y que los otros dos los dedicara a trabajar conmigo en una revista independiente. El ayuntamiento no tardó en decirle que si dedicaba dos días a trabajar en una revista independiente, no conservaría su empleo en el ayuntamiento. En ese punto me dije que ya había aguantado bastante: me harté e invité a Lucy a trabajar conmigo en Dodgem Logic a tiempo completo. Los temas de los que hablamos son importantes, y la revista ofrece un lugar en el que estas cosas se pueden debatir. No estamos atados por restricción alguna y decimos lo que queremos. Tampoco es nuestra intención deprimir a la gente, así que intentamos incluir, sin descuidar lo social y lo político, tanto material genuinamente entretenido como nos sea posible. Es una estrategia para ayudar a la gente a superar tiempos difíciles: darles la información que necesitan, pero también algo con lo que se lo pasen bien.


Es una buena causa.
En los últimos años no he hecho mucho más que pasear por el barrio. Encontrarme la buena gente que vive allí atravesando una situación tan penosa hizo que me decidiera a producir algo cuyo foco estuviese precisamente allí, en ese área. En cuanto a privación social, Burrows ocupa uno de los puestos más altos del Reino Unido. Hay áreas parecidas en todo el país, pero se las esconde debajo de la alfombra. Además, estoy ligado emocionalmente a Burrows. Siempre lo he estado. Vi la oportunidad de producir algo bonito y útil que partiera de ese entorno, creando al mismo tiempo un modelo para otros áreas similares.

En el pasado, tanto en su trabajo como a título personal, usted ha defendido la anarquía. ¿Sería esa su respuesta a los problemas sociales de los que se habla en Dodgem Logic?
Bueno, para el segundo número quiero escribir un artículo de introducción a la anarquía y explicar cómo se podría poner en práctica en nuestra situación actual. Es decir, que sí. Una de las cosas que deseo explicar es el principio de la lotería ateniense y el concepto de la selección por azar. Básicamente, éste dicta que cualquier asunto que deba resolverse a nivel nacional o administrativo lo juzgará un jurado designado mediante una lotería. Los miembros de ese jurado pueden provenir de cualquier ámbito del mundo de la cultura, y su selección depende únicamente del azar. Los pros y los contras del caso a resolver les son presentados y ellos escuchan, debaten y después votan. Tras emitir su decisión, dejan de formar parte del jurado. Regresan a la sociedad y, para el caso siguiente, se designa un jurado distinto. Para mí, ese sistema se aproxima a algo parecido a la democracia, que es algo que en estos momentos no tenemos. La palabra “democracia” viene de “demos”, el pueblo, y “cratos”, gobernar; es decir, “el gobierno del pueblo”. No dice nada de los representantes elegidos por la gente que está al mando, que es el sistema bajo el que actualmente vivimos. Pasándonos a algo próximo a la selección por azar crearíamos un sistema libre de muchos de los abusos de nuestro actual modelo de gobierno. Resulta bastante difícil comprar el favor de un jurado si no sabes quiénes son las personas a las que tienes que camelar. También haría difícil que ese cuerpo decisorio temporal actuase en su propio beneficio; tendría más sentido que actuaran en beneficio de esa sociedad a la que tendrían que retornar en breve.

Es interesante. Tiene elementos tanto de la democracia como de la anarquía.
Sí, cuadraría el círculo entre las ideas de anarquía y de gobierno. Mi definición de anarquía es la de los antiguos griegos: sin líderes. Es difícil pensar en una sociedad ordenada que se ajuste a ese ideal; todo y así, con la lotería ateniense no habría líderes sino individuos tomando decisiones equilibradas. Sé que adoptarla implicaría tener que acometer un montón de cambios constitucionales, pero me gusta sacar la idea a colación de manera que sea una posibilidad, algo de lo que se pueda hablar. Es evidente que nuestra presente forma de gobierno no funciona, y no podemos seguir poniendo parches a un sistema inherentemente defectuoso. Puede que haya llegado la hora de cambiar a un nuevo modelo en lugar de continuar manteniendo en marcha un vehículo que ha llegado al final de su vida natural.

¿Tratará también estos temas en sus obras de ficción? Lo pregunto porque Dodgem Logic trata de su entorno local de un modo muy directo, y la acción de su próxima novela, al igual que la primera, transcurre en ese área.
Hasta cierto punto. Ambos métodos se complementan. Dodgem Logic y Jerusalem se ocupan en esencia del mismo vecindario y territorio, pero de modos radicalmente diferentes. La experiencia de leer un número de Dodgem Logic será muy distinta a la de leer un capítulo o dos de Jerusalem. Dodgem Logic soy yo tratando de hacer algo inteligente pero a la vez accesible. En cuanto a Jerusalem, no me importa si a alguien le gusta o no, porque lo que pretendo es componer la mejor pieza literaria que me sea posible. Jerusalem es algo entre el mundo y yo. Si nadie la lee, el problema será mío, mientras que con Dodgem Logic creo importante que la gente conozca los temas de los que estamos hablando y se haga preguntas sobre ellos. Tanto la novela como la revista pretenden vitalizar y reinventar el vecindario, lo único que varía es el contexto. Con Dodgem Logic deseo, práctica y literalmente, infundir vigor al área y darle algo a sus gentes. Jerusalem está más cerca de lo que Iain Sinclair logró con su maravilloso libro Hackney, That Rose-Red Empire: capturar la esfera de nieve del Hackney que se estaba desvaneciendo justo debajo de sus pies; preservar la personalidad y la historia del barrio antes de que las apisonadoras les pasaran por encima para dejar sitio a la Villa Olímpica. Con la ficción tienes un medio, quizá el único, bien de resucitar, bien de preservar los lugares que están condenados a desaparecer; si no hoy, entonces mañana.

El concepto de preservar el pasado mediante la ficción es muy patente en La Liga de los Caballeros Extraordinarios. Cada viñeta está atiborrada de referencias históricas y culturales.
Con La Liga…, de la que por cierto puedo decirte que hoy mismo he terminado de escribir el tercer volumen, lo que intentamos crear es, a través de la ficción, un Arca de Noé cultural en la que todos los grandes escritores y todas las grandes ficciones que Kevin y yo creemos dignas de preservación sigan vivas algún tiempo antes de que acaben hundiéndose en el pozo del desconocimiento.

La Liga… existe en un extraño lugar entre la ficción y la realidad.
Totalmente cierto. Tenemos una realidad muy bien definida y se vuelve más y más sólida a medida que avanza la trama. Probablemente sea, por definición, la más larga y compleja línea de continuidad de la historia de la literatura, ya que subsuma las continuidades de cada personaje individual.

Incluye tantos personajes de ficción y sus respectivas historias que resulta impresionante que mantenga una cohesión.
Intentamos que todas esas fuentes de inspiración -todas esas ficciones, cada una de una época determinada-, encajen en nuestra línea de continuidad final. Tienes, por tanto, un mundo que los nazis consiguieron invadir y en el que Fu Manchu es real, pero que al mismo tiempo refleja nuestro propio mundo y su desarrollo. Puede que se trate de un espejo distorsionante, pero ayuda a ordenar nuestra percepción del mundo en el que vivimos. Vendría a ser un espejo onírico. Nuestra realidad no es como la de La Liga…, pero hubiera podido ser así tal como la soñamos, como la imaginamos mediante la ficción. Nos permite ver lo que podría haber sido y a lo que podríamos haber aspirado. Es la otra mitad de la historia.

Ajá.
Y también hay en la serie historia auténtica, pero esa es, en sí misma, otra clase de ficción. Luego está el tipo de historia que se presenta en nuestro arte, en nuestra literatura. La cual, en un sentido psicológico y peculiar, es más auténtica y fiable que la historia convencional, la que supuestamente se basa en los hechos y que bien podría no ser cierta en sentido alguno. A lo largo de La Liga… hemos creado la sensación de que la ficción es el cimiento sobre el que la humanidad se apoya, y que el mundo real está en última instancia basado en la ficción.

¿Cómo logra introducir tantas referencias literarias y culturales en La Liga…?
Son mis intereses y los intereses de Kevin y el resultado de una investigación que ambos hicimos cuando dimos con el concepto. Después nos pusimos a pensar seriamente en lo que sucedería si ésta fuese una historia en la que se pudiera incluir cualquier cosa procedente del mundo de la ficción. Esto significaba que necesitaría su propia geografía, que abordamos en el apéndice del segundo volumen. Y necesitaría también su propia historia, algo que resolvimos en The Black Dossier. Por ejemplo, en nuestra realidad ficticia no tenemos a un Adolf Hitler; en su lugar está el Adenoid Hynkel de El Gran Dictador, de Charlie Chaplin. En nuestra realidad, M, el líder del M15, resulta ser el Harry Lime de El Tercer Hombre, la novela de Graham Greene, quien basó su personaje en un amigo suyo de toda la vida, un auténtico espía llamado Kim Philby que desertó para pasarse al bando soviético. Decidimos que Harry Lime fuese un seudónimo de Robert Sherry, uno de los personajes que asistían a la Greyfriars School en los libros de la serie de Billy Bunter.

Qué locura.
A continuación decidimos hacer de Harry Wharton, el líder del grupo en Greyfriars, el Gran Hermano de George Orwell. También convertimos Greyfriars en una escuela pública inglesa en la que se recluta gente para el servicio secreto, algo que casa de forma muy fluida con la historia real. Lo que hizo que encajara fue descubrir que hubo un encontronazo entre Frank Richards, el autor de las historias de Billy Bunter, y George Orwell, que escribió un ensayo acerca de cómo los libros de Bunter representaban todo lo malo del imperio británico. Frank Richards cometió el desastroso error de escribir una réplica a Orwell en la que respondía a las acusaciones de presentar a los extranjeros de un modo en cierta manera cómico diciendo simplemente, “Es que lo son”. Ese vínculo entre realidad, ficción, y ficción debatiéndose en el plano real, convirtió en pertinente nuestra pequeña vuelta de tuerca.

Tanto La Liga… como V de Vendetta nos enfrentan con sendas distopías fascistas. ¿Alguna vez ha sentido temor de que futuros de ficción como los imaginados por usted se conviertan en una realidad?
No. Por supuesto, podría estar completamente equivocado y, de hecho, creo que aún nos tiene que provocar muchos disgustos, pero estoy convencido de que la raíz del fascismo consiste en una ignorancia tan profunda que veo imposible que pudiera lidiar con las realidades del siglo XXI. Es un concepto demasiado simple; carece de la complejidad necesaria para tratar con las caóticas realidades que se dan a diario en el mundo y el panorama de hoy. Sólo es efectivo a un nivel matón y callejero; lo cual, eso sí, puede darle muchos problemas a los grupos minoritarios y a los marginados. El fascismo es una realidad terrible para muchas personas, pero como fuerza política, a los fascistas no se les puede tomar en serio. Estoy de acuerdo con [el cómico] Reginald D. Hunter, quien dijo que “hay que dejar a los fascistas que hablen”. Permitirles hablar en público no les supondría ninguna ayuda. Su voz es tan chillona y desagradable que no obtendrían ningún beneficio electoral. Si intentas silenciarles, les das la oportunidad de alegar que están siendo oprimidos por la élite liberal.

¿Qué podemos esperar de Jerusalem? ¿Retomará los temas que ya trató en su anterior novela, La Voz del Fuego?
Ciertamente Jerusalem tendrá elementos en común con La Voz del Fuego, y seguirán habiendo elementos de experimentación formal, pero estructuralmente no será lo mismo. Jerusalem estará dividido en tres libros. Confío en que las tres partes aparezcan en un sólo volumen. La primera parte será reminiscente de La Voz del Fuego en tanto que irá pasando de un personaje a otro a lo largo de épocas diferentes y estará escrito en pretérito indefinido y tercera persona. El segundo libro tendrá una línea narrativa desarrollándose capítulo a capítulo, pero en él hago unas cuantas cosas peculiares con el lenguaje y la perspectiva, además de ser la sección en la que tienen lugar los elementos más fantásticos de la novela: la mayoría de los protagonistas son niños o fantasmas de niños muertos. En esta segunda parte hay también un paraíso de clase obrera, con ángeles de clase obrera que juegan al billar con las almas de los humanos; esta es una idea que me gusta mucho. La tercera parte, de la que me faltan nueve capítulos para su conclusión, es la más experimental y demente pieza narrativa que yo jamás haya escrito. La estoy haciendo en presente de indicativo y cada capítulo está escrito de un modo radicalmente distinto. El que justo acabo de terminar se titula “Round the Bend” [“Sin un tornillo”, majareta—ndt.] y trata sobre el hospital de St. Andrew, un lugar maravilloso. Mi mujer y yo nos casamos allí. Entre sus pacientes se cuentan Spike Milligan; Dusty Springfield; Patrick Stewart; Sir Malcolm Arnold, el compositor; J.K. Stephen, sospechoso de ser Jack el Destripador; y Lucia Joyce.

La hija de James Joyce.
Pasó 35 años allí como paciente psiquiátrico. En el capítulo que justo he terminado, Lucia Joyce vaga por los jardines del hospital, con la mente ausente; en su cabeza se encuentra con pacientes de otras épocas, con quienes posiblemente jamás podría coincidir físicamente. Es un tour alucinatorio por los terrenos del hospital y por la mente de Lucia, y está escrito en lo que estoy convencido de que es un irrisorio intento de remedar el lenguaje de su padre. William Blake es otra de las figuras que, por supuesto, gravita alrededor de Jerusalem, aunque no aparezca directamente en la novela; al igual que John Bunyan, que sí aparece. Ambos inspiraron los aspectos más visionarios de la novela. He tardado una eternidad en acabar el capítulo de Lucia Joyce.

¿Sigue trabajando en su libro sobre la magia?
Sí. Una vez haya acabado el último libro de La Liga… y Jerusalem, será de nuevo el momento de abordarlo.

¿Qué es lo que le parece tan interesante de la magia?
Para mí, la magia ofrece una nueva perspectiva para apreciar el mundo, tu vida y la realidad, y un nuevo enfoque a tu relación con tu propia conciencia.

Se suele meter la magia en el saco de las melonadas new age. A mucha gente se le hace difícil siquiera empezar a considerarla como algo válido.
Al principio yo era muy escéptico debido al enorme número de idiotas a los que se asocia con ella. Sin embargo, la ciencia no puede explicar o racionalizar el concepto de conciencia, ya que no es algo que puedan replicar en un laboratorio. Eso deja inexplorado nuestro mayor área de experiencia del mundo. Con la magia, todo tipo de posibilidades se abren al respecto de qué es la conciencia, qué áreas de la conciencia pueden tener extrañas cualidades, y qué aplicaciones prácticas podrían tener esas cualidades.

Tiempo atrás, los intelectuales y los filósofos podían interesarse abiertamente en la magia sin que les ridiculizaran por ello.
La magia es simplemente una forma de explorar el mundo, e implica conceptos que ciertas personas llevan explorando desde los albores de la humanidad. Algunos eran charlatanes, otros eran maníacos, y otros, buscadores de atención, pero algunos de ellos son los pilares sobre los que se sustenta nuestra realidad. Paracelso hizo avanzar la medicina moderna y fue la primera persona en explorar el concepto del inconsciente, siglos antes de que lo hicieran Freud o Jung. También era mago. Él no se habría aplicado el término; lo más probable es que pensara en sí mismo como en un filósofo natural…

Quizá sería bueno que recuperáramos ese término. Pero, por favor, continúe.
Un gran número de las piedras angulares de nuestra cultura tienen sus raíces en el ocultismo. Los primeros escritores y artistas provenían de las culturas chamánicas, y la ciencia proviene de la alquimia. Según parece, cuando Einstein murió tenía un ejemplar de La Doctrina Secreta, de Madame Blavatsky, en un rincón de su escritorio. De hecho, hay similitudes entre ese trabajo y la teoría de la relatividad. Pese a todo, tiende a verse la magia como una chifladura a la que no hay que tomarse en serio si queremos que nuestra cultura avance.

¿Qué le impulsó a escribir un libro sobre la magia?
La idea llegó cuando mi socio mágico Steve Moore y yo decidimos poner las cartas sobre la mesa y explicar lo que era la magia, cómo practicarla, y por qué la gente debería aprender sobre ella leyendo un libro que no se escudara en una imaginería pseudo-siniestra o en una incompresible jerga ocultista.