sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Os Sertões finalmente em quadrinhos


Um dos maiores clássicos da literatura em língua portuguesa finalmente chega ao universo dos quadrinhos: "Os Sertões" de Euclides da Cunha. Não deixe de conferir, em breve, um comentário aqui no Nona Arte. Isso é... se sobrar dinheiro no final do ano para compra o Livro... Quem sabe um Papai Noel não ajuda?

Marjane Satrapi leva nova história ao cinema


Depois da aclamada adaptação cinematográfica da banda desenhada "Persépolis" (2007), a realizadora Marjane Satrapi vai levar "Poulet aux Prunes" ao grande ecrã, contando desta vez com um elenco de carne e osso. A portuguesa Maria de Medeiros foi uma das atrizes escolhidas.

As rodagens começam em julho na capital alemã, Berlim. Maria de Medeiros irá contracenar com Mathieu Amalric, Chiara Mastroianni, Djamel Debbouze, Isabella Rossellini e Golshifteh Farahani, para dar vida à história de um músico que decide morrer depois de o instrumento que toca se partir.

"Poulet aux Prunes" (Frango com Ameixas, em português), já lançado no Brasil, valeu a Marjane Satrapi o prémio de melhor álbum de BD no Festival de Angoulême.

Recorde-se que Satrapi, uma exilada iraniana a residir em França, ganhou reconhecimento no mundo da realização após o lançamento do filme de animação "Persépolis", baseado na sua banda desenhada autobiográfica com o mesmo nome. O filme estreou no Festival de Cannes de 2007, onde recebeu o prémio do júri.

(do site português Boas Notícias)

sábado, 4 de dezembro de 2010

Uma guerra muito pessoal


Narrativas sobre conflitos armados são uma tradição literária desde que o grego Homero escreveu a história sobre o cerco de Troia. Desde então, a literatura mundial está repleta de grandes livros, como: Guerra e Paz (Tolstoi), Por quem os sinos dobram (Hemingway), Nada de novo no Front (Erich Remarque), Os Sertões (Euclides da Cunha) entre outros. A literatura em quadrinhos, na trilha desses sucessos editoriais também já elegeu os seus clássicos, entre eles: Maus (Spielgman), Guerra de Trincheiras (Tardi), Gorazde (Joe Sacco), Valsa para Bashir (Ari Folman) só para citar alguns.

Infelizmente, o mais recente lançamento da editora Zarabatana Books – A Guerra de Alan, do francês Emmanuel Guibert – não pode ser inserido nessa lista. O livro foi lançado no mercado europeu em uma sequencia de três volumes. O último só publicado em 2008, oito anos após o lançamento do primeiro número.

O livro remonta as memórias do soldado Alan Ingram Cope durante a II Guerra Mundial. Alan entrou no exército no final de 1944 e só chegou ao palco do conflito em 1945. Sem disparar um único tiro ao longo de toda sua passagem pela Europa, Alan esteve envolvido em tarefas burocráticas e efadonhas. Suas ações de guerra se limitaram a vigílias noturnas e administração de documentos.

É uma pena que o talento de Emmanuel Guibert, que já teve a série o Fotógrafo publicada no Brasil, tenha sido desperdiçado com uma história tão frágil. O verdadeiro problema de A Guerra de Alan não é a narrativa ou os desenhos de Guibert, mas o próprio Alan...Ninguém esperava corpos despedaçados, atos heroicos, lutas sangrentas entre aliados e nazistas... Outros artistas já mostraram que é possível fazer grandes histórias a partir dos pequenos acontecimentos do dia a dia. Só que o leitor, sinceramente, merecia mais desta história. Alan faz um relato extenso, mas superficial da guerra... Enfim... Passe longe.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Música e traço


Os artistas gráficos Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho juntaram seus talentos e uma flagrante paixão pela música e desde setembro estão fazendo a alegria de uma legião de seguidores do seu site quadrinhos rasos. A cada semana eles vêm publicando versões em quadrinhos para clássicos da música popular brasileira e internacional.

A versatilidade das músicas escolhidas pelos dos ilustradores chama a atenção. No site, Caetano Veloso, Engenheiros do Hawaii, Mamonas Assassinas, Gonzaguinha, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, entre outros artistas têm trabalhos seus ilustrados de forma competente pela dupla.

Não deixe de acompanhar o site e conferir as novas músicas, digo quadrinhos, semanalmente.


domingo, 28 de novembro de 2010

Tintin no tribual


Um tribunal belga ouviu na última sexta-feira os argumentos expostos por um cidadão congolês e uma associação francesa que exigem a proibição da história de Banda Desenhada “Tintin no Congo”, por a considerarem racista e ofensiva em relação aos africanos.

“Não queremos que seja um julgamento contra Hergé (o autor da série de BD Tintin), mas sim contra uma época na qual o racismo estava entranhado nas mentalidades”, declarou o advogado de um dos autores da acção, citado pela agência belga. O julgamento começou a 28 de Abril, depois do processo aberto por Bienvenu Mbutu Mondondo, cidadão congolês residente na Bélgica, e o Conselho Representativo de Associações Negras (CRAN) da França.

Os autores da acção querem proibir a venda de “Tintin no Congo”, publicado em 1931, ou, pelo menos, exigir que as novas edições tenham uma advertência e um prefácio onde se explique o contexto da época.

Uma decisão a respeito é esperada para os próximos meses.

Do jornal de Angola

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Bob Dylan em Quadrinhos

Do site: El Referente.es

Cuando escuchamos una canción, la que sea, recreamos mentalmente la historia que nos cuenta cada nota musical. Un amor imposible, algo trágico, el mayor sentiemiento de felicidad...cualquier situación que nos narre el artista a través de su música toma forma y cobra vida en nuestra imaginación.

Con las canciones de Bob Dylan se nos acercan ahora estas historias en forma de cómic, una idea que, sin duda, será bien recibida por los amantes de su música.

El cómic: Bob Dylan Revisited

Bob Dylan es un artista del renacimiento. Compositor, poeta, pintor… su arte se extiende a muchas otras disciplinas como demuestra su carrera, y la influencia que supone para otros creadores como fotógrafos, diseñadores, escritores, cineastas…

Por supuesto tampoco los autores de cómic son ajenos a ello, por lo que ya era hora que el noveno arte le rindiera un homenaje como es debido. BOB DYLAN REVISITED reúne 13 canciones míticas del compositor norteamericano adaptadas por 13 distintos autores de cómic. 13 versiones dibujadas para disfrutar mientras se escuchan las canciones originales, o mientras se tararean o recuerdan.

Además, la edición viene acompañada de un prólogo a cargo del periodista musical, eminente coleccionista y director de la Fira del Disc de Col·leccionista, Jordi Tardà.

LOS AUTORES

Thierry Murat adapta- Blowing in the wind


Grafista de profesión, Murat se acabó enamorando de la ilustración. Su carrera como dibujante comenzó en el mundo del libro infantil pero pronto pudo pasarse al cómic. Actualmente también dibuja para prensa y literatura juvenil.




 Lorenzo Mattotti adapta- A hard rain’s a-gonna fall


Mattotti es uno de los más grandes maestros del color en el mundo del cómic, actualmente. Natural de Italia, su particular estilo gráfico y narrativo pronto marcó un antes y un después. Es también muy conocido por su trabajo como ilustrador para NEW YORKER, LE MONDE o VANITY FAIR, entre otras.


Nicolas Nemiri adapta- I want you


Nicolas Nemiri, aunque francés, tiene un fuerte gusto por la ilustración, japonesa, algo no tan presente en su obra en cómic.

François Avril adapta-  Girl of the North Country

François Avril nació en 1961 en París. Aunque comenzó publicando ilustraciones de prensa, ha acabado trabajando para publicidad, editorial, cómics y libro infantil.

Jean-Claude Götting adapta-  Lay, lady, lay

Nace en París y es en la capital francesa donde da sus primeros pasos como dibujante de cómics. En 1986 gana el premio a Mejor Primer Álbum en el festival de Angoulême, justo antes de dedicarse principalmente a la ilustración y la pintura.




Alfred adapta- Like a rolling stone


Comienza a publicar en Delcourt pero no se casa con nadie y acaba trabajando un poco para casi todas las editoriales de cómic. Colabora en varias antologías y en 2007 publica Por qué he matado a Pierre, premio del público en Angoulême ese mismo año. Actualmente continúa explorando el mundo de la ilustración.



Christopher adapta- Positively 4th Street
Aunque nacido en Inglaterra, Christopher pasó toda su adolescencia en Aix-en-Provence. Realizó en París sus estudios de diseño gráfico y publicado en editoriales como Carabas o Dupuis.

Dave McKean adapta- Desolation row


Dave McKean es uno de los ilustradores y diseñadores gráficos más importantes y con un estilo más personal que hay en la actualidad. La fama le llegó a partir de sus muchas colaboraciones con Neil

Gradimir Smudja adapta-  Hurricane


Este dibujante y pintor nacido en Serbia, emigró en 1982 a Suiza, donde comenzó a trabajar para una galería. Fue más tarde, cuando se instaló en Italia, que comenzó su carrera como dibujante de cómics.

Con su estilo fuertemente influenciado por los pintores postimpresionista, y solo dos títulos publicados, Smudja ha conseguido hacerse un sitio en el mundo del cómic europeo.

Zep adapta-  Not dark yet

Zep nació en Suiza y es el autor del famosísimo TITEUF. El gran éxito conseguido con esta serie le ha permitido publicar otras obras más arriesgadas, con y sin Titeuf. Gran amante de la música, los diferentes

homenajes que ha hecho culminan en este volumen con la adaptación de su músico más admirado: Bob Dylan.

Benjamin Flao adapta- Blind Willie McTell


Ya a la temprana edad de 10 años, Flao podía pasarse horas dibujando. A los 14 años deja los estudios tradicionales para dedicarse de lleno al estudio de las artes gráficas. Ha estudiado todas las variantes del dibujo: ilustración, animación, cómic, graffiti… Con Christophe Dabitch publicó La línea de fuga.

Jean-Philippe Bramanti adapta- Knockin’ on Heaven’s door

Bramanti estudió Bellas Artes en Marsella y Angoulême. Fue en esta última ciudad donde conocidó a Guy Delcourt, quien se interesó por su trabajo. Está muy interesado en la vida de Winsor McCay, hasta el punto que ha dibujado su biografía en cómic.


Bézian adapta- Tombstone Blues


Bézian comenzó muy joven colaborando en varios fanzines, donde cultivó su gusto por la fantasía. Gracias a Adam Sarle ch, publicado en Humanoides en 1989, comenzó a ganar notoriedad, que culminó en 1994 cuando ganó un premio en el Festival de Angoulême.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ruanda 1994 - sangue no coração da África - Quadrinhos na África - Parte IV

Quantos assassinatos são necessários para se ter um genocídio?

Em 1994, enquanto centenas de milhares de pessoas eram trucidadas em Ruanda, diante da opinião pública mundial, os Estados Unidos e a Organização das Nações Unidas discutiam nos gabinetes sobre o significado da palavra para justificar sua total omissão.

O massacre de quase toda a população da etnia tutsi do país é considerado um dos piores crimes contra a humanidade do século XX. Os números são imprecisos. Mas é certo que em apenas 100 dias, mais de 800 mil pessoas (alguns historiadores afirmam que chegam a 1 milhão de assassinatos), foram mortas de forma cruel, com armas de fogo e - em sua maioria - com facões e martelos...

O ódio que levou ao genocídio em Ruanda tem sua origem ainda no período em que o país era uma colônia belga. Para dividir a população e manter mais facilmente o domínio sobre o território, os europeus difundiram a tese de que os tutsi (mais altos, com os narizes ligeiramente mais afilados e pele mais clara) descendiam dos antigos egipcios e - por isso - eram superiores às duas outras etnias (hutus e twa).  Baseados nessa teoria, os belgas colocaram os tutsi em postos de comando, pagaram a eles melhores salários e criaram a discórdia entre comunidades que até então se entendiam perfeitamente bem. Ao longo do período colonial, os tutsi seriam acusados, em alguns momentos, de tortura e assassinato contra os hutus. Esse ódio mútuo permanceria presente até explodir em 1994, com o assassinato do presidente de Ruanda, Juvenal  Habyarimana (um hutu moderado), que governou o país durante 20 anos.  Até hoje não se sabe se o atentado que derrubou o avião presidencial foi responsabilidade dos radicais hutus ou dos rebeldes tutsi que combatiam o governo ao norte do país. De todo modo, foi o pretexto que faltava para dar início ao massacre já planejado.

Jornalistas que acompanharam o genocídio afirmam que o assassinato em massa foi preparado com antecedência. Há, inclusive, notícias da importação de milhares de facões da China, que foram distribuídos largamente entre a população hutu. O nível de violência foi tão assustador que não há praticamente na sociedade uma pessoa que não tenha tido um parente assassinado ou que tenha cometido um assassinato. Os observadores internacionais afirmam que se todas as pessoas que cometeram crimes fossem condenadas, cerca de 10% da população do país estaria na cadeia.


O Nona Arte localizou duas publicações que abordam o genocídio: Rwanda 1994, do congolês Pat Masioni e Deogratias, do belga Jean-Philippe Stassen. 


O livro de Jean Stassen ganhou o prêmio Goscinny de 2000 - considerado uma das mais importantes premiações para quadrinhos na Europa. A história é um romance com fundo histórico e conta a trajetória de um menino adolescente, dependente de álcool que vaga pelas ruas de Ruanda após o fim do massacre. O leitor é levado a conhecer a história de vida do protagonista e as razões que levaram o jovem à situação de abandono e doença. Incluindo a relação do menino, da etnia hutu, com uma garota tutsi. "Deogratias" significa - "obrigado a Deus por exisitir" - e é também o nome do personagem principal. Stassen vive atualmente em Ruanda com a familia.

Pat Masioni revelou que publicou seu primeiro desenho aos 14 anos, com ajuda de dois padres espanhóis que ajudaram sua família e apoiaram financeiramente os seus estudos. Ele estudou pintura na Academia de Kinshasa e em 1985 tornou-se o ilustrador. Não demorou muito para que se tornasse um profissional. Seus livros se tornaram sucesso de vendas e seu nome passou a ser conhecido. Principalmente com trabalhos de ilustração em livros religiosos e charges nos jornais. Anos mais tarde, como co-fundador da L'atelier ACRIA Associação, Masioni se tornou o diretor artístico de três edições do festival de quadrinhos de Kinshasa. Hoje o artista mora em Paris. Ele fugiu do Congo depois que caricaturas suas para os jornais "Le Palmares 'e' Le Gri-Gri internacional", incomodaram políticos locais.

A fama internacional, entretanto, só viria em 2005, quando Pat publicou sua revista em quadrinhos em duas partes, relatando o massacre de Ruanda. "A arte me libertou da pobreza e obscuridade, mas não demorou muito para também me trazer problemas. Ao longo de minha vida como artista em Kinshasa, República Democrática do Congo, fui preso em várias ocasiões, algumas vezes por crianças-soldados. Tenho sido espancado por meus desenhos. Tenho visto coisas que ninguém deve ver, coisas que eu nunca vou esquecer." diz Masioni. O artista fala sobre o seu trabalho: "posso me definir como um ilustrador politicamente engajado e um cidadão do mundo".

Para conhecer mais sobre a guerra civil em Ruanda eu recomendo um documentário disponível na internet, e que aborda a omissão das Nações Unidas e da opinião pública mundial que silenciou e assistiu passivamente o genocídio: os fantasmas de Ruanda, produzido pelo programa de TV americano "Frontline".

sábado, 13 de novembro de 2010

Beirute: A guerra e o cotidiano


O que fazem as pessoas de uma cidade mergulhada em anos de guerra civil? Como vivem? Que fazem no seu dia-dia para fugir das balas dos franco-atiradores, para driblar as blitze de milícias armadas nas ruas pelos diferentes grupos em conflito?

A artista libanesa, Zeina Abirached, revela em seu livro “O jogo das andorinhas” o cotidiano da sua família e dela própria, em meio ao drama da guerra que mergulhou Beirute no caos durante mais de 40 anos.
Em uma prosa fluida Zeina desfia as memórias: “Meus avós paternos viviam a poucas ruas da nossa casa. As pessoas do bairro inventaram um sistema para circular entre os edifícios evitando os franco-atiradores. Para atravessar as poucas ruas que nos separavam, tínhamos que executar uma complexa e perigosa coreografia. Eu fui criada no andar térreo do apartamento em que nasceu meu pai. Seguindo o modelo da época, a nossa casa era composta de um grande salão retangular no centro, que se comunicava com as demais partes da casa. Com a falta de segurança dos cômodos expostos à rua, fomos pouco a pouco condenando a cozinha, o refeitório, os dormitórios, até ficarmos confinados ao hall de entrada da casa.”

Zeina revelou em uma entrevista que, em abril de 2006, ela assistiu uma reportagem filmada em Beirut 22 anos antes. Os jornalistas conversavam com os moradores de uma rua próxima à linha que dividia a cidade em duas partes (crtistã e muçulmana). “Uma mulher, bloqueada pelos bombardeios na entrada de sua casa disse uma frase que me marcou: ‘Eu diria que, pelo menos, aqui estamos provavelmente mais ou menos a salvo.’ Aquela mulher era minha avó.”

É impossível ler Zeina Abirached e não lembrar de outra artista que conquistou o ocidente: a iraniana Marjane Satrapi, autora da premiada série Persépolis. Tanto na narrativa, quanto no traço que se assemelha à xilogravura, em seu inconfundível contraste de branco e preto (herança da arte mulçumana dos séculos X e XI). Zeina vive em Paris desde 2006, onde freqüentou a Escola Nacional de Artes Decorativas e publicou os seus três primeiros romances: ‘’Rue Youssef Semaani”, “38” e “O jogo das andorinhas” - todos ainda inéditos no Brasil.

Intolerância religiosa

A guerra civil no Líbano surgiu com a disputa de poder entre os diferentes grupos religiosos que vivem no país: cristãos maronitas, sunitas (muçulmanos que acreditam que o chefe de estado deve ser eleito pelos represenanttes do islã), drusos, xiitas e cristãos ortodoxos. Em 1958, com os sucessivos conflitos na região e a emigração de 170 mil palestinos, o complicado equilíbrio foi rompido.

“A guerra civil explodiu em 1958, com insurreições muçulmanas contra o presidente maronita Camille Chamoun (pró-norte-americano), sob inspiração dos regimes nacionalistas pró-soviéticos da Síria e do Egito. Tropas norte-americanas desembarcam no país, provocando imediato protesto soviético. A crise é contornada, depois de negociações, com a substituição de Chamoun e a retirada norte-americana.

Após a saída das tropas dos Estados Unidos (EUA), é encontrada uma solução política, a pedido da ONU (Organização das Nações Unidas). Organiza-se um governo composto de líderes dos vários grupos religiosos do país. O frágil equilíbrio de poder, no entanto, rompe-se na década de 70. Uma nova derrota árabe na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e o massacre dos palestinos na Jordânia durante o Setembro Negro, em 1970, elevam para mais de 300 mil o número de refugiados palestinos no Líbano. “

Nessa época uma pessoa podia ser presa ou assassinada ao parar em uma blitz apenas por ter um documento que apontasse a “religião errada”. Enquanto isso, em casa, as pessoas se reuniam em volta de um rádio para acompanhar as notícias sobre os conflitos, como quem ouve notícias sobre o trânsito e engarrafamentos. O radialista anuncia: "Tiros de bazuca no perímetro da Vila Mansour. Bombardeios no setor próximo ao hipódromo, até agora temos 81 mortos e 221 feridos..."

O jogo das andorinhas
Uma frase pintada em um muro da cidade anuncia: "Morrer, partir e regressar é o jogo das andorinhas". De fato esta é a rotina de parte dos moradores da cidade: mudar-se constantemente. Assim como os pequenos pássaros que abandonam os ninhos onde nasceram e foram criados para voltar a eles anos depois...

Em uma entrevista à agência espanhola EFE, Zeina revela que começou a ler quadrinhos antes mesmo de aprender a ler. Seus pais tinham uma excelente biblioteca franco-belga e os quadrinhos eram parte importante da coleção. "Como nasci na guerra em 1981, minha infância está vinculada a ela e tudo acabava parecendo normal. Minha intenção ao escrever essa história era pintar a vida cotidiana e mostrar como, durante quinze anos, a gente conseguiu se acostumar com a tragédia." Apesar dos seguidos anos em guerra civil, ou talvez pelo impacto que o conflito gerou, Zeina não se interessava em contar a história oficial, nem seus aspectos políticos: "Eu queria contar a vida daquelas pessoas que viveram a guerra em suas próprias peles. Falar sobre as pequenas coisas e contar as piadas cotidianas", diz ela na entrevista. "O quadrinhos é para mim uma forma de encontrar respostas e dar respostas às gerações futuras e à minha própria".


Domínio narrativo

Zeina Abirached sorri quando comparam o seu trabalho ao de Marjane Satrapi. Ela se diz lisonjeada, mas afirma que não conhecia Satrapi quando começou a fazer seus quadrinhos. Seja como for, a comparação não é sem propósito. Ao contrário, assim como a artista iraniana, Zeina mostra um perfeito domínio sobre a narrativa gráfica. O que significa dizer que ela sabe explorar o silêncio, sabe criar uma ambiência para a história a partir de desenhos sem texto. Sem dúvida, Zeina consegue superar o receio original do leitor que imagina encontrar uma simples "cópia" de Persépolis (obra prima de Marjane Satrapi). As primeras paginas do livro já dão uma ideia do que o leitor vai encontrar. Ao longo de cinco páginas sem balões ou legendas, a autora nos leva a conhecer as ruas vazias de Beirute, suas barricadas, as paredes marcadas por tiros... Depois, em uma nova sequência de imagens, ela nos leva a refletir sobre o desafio de viver em uma cidade mutilada, onde ruas e quadras inteiras são "riscadas do mapa" pelo risco da atuação dos franco-atiradores.

O ponto alto do trabalho de Zeina é explorar o interior das casas e as relações de solidariedade que se constroi entre os vizinhos. "Durante a guerra, presentear um vizinho com frutas e verduras era uma atitude muito bonita. Mas, presentear frutas e verduras lavadas era um gesto de valor incalculável."

O Jogo das Andorinhas é uma daquelas obras fundamentais que precisam ser lidas. Esperamos que os leitores brasileiros não tenham de esperar tantos anos para ter acesso à obra.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Maria e Eu


O artista espanhol Miguel Gallardo é um bem-sucedido desenhista, com trabalhos publicados em importantes meios de comunicação espanhaois, como o jornal La Vanguadia e periódicos estrangeiros, como os americanos Herald Tribune e o The New York Times. Com diversos prêmios conquistados como ilustrador de livros infantis, Gallardo se lançou em 2007 em um projeto pessoal, corajoso e humano: uma história em quadrinhos sobre sua relação com a filha Maria.

Miguel Gallardo relembra: “Maria não nasceu de uma cegonha. Ela chegou de um planeta distante,como o Super-homem. Demorou 9 meses para chegar a casa e quando o fez, passava a maior parte do tempo dormindo. Maria se tornou nossa alegria. Mas em pouco tempo percebemos que algo se passava. Ela não parecia se dar conta das coisas que a rodeavam. Parecia não nos ouvir. Não correspondia aos nossos abraços. Era como se vivesse em um mundo próprio, sem conexão com o nosso. Em lugar de brincar com seus bonecos, os alinhava como se fosse um desfile...”  Maria vive hoje com a mãe nas Ilhas Canárias, tem 15 anos e é autista.

O trabalho de Gallardo é leve, suave tanto no texto quanto nas ilustrações.  Ele relembra uma de suas viagens de férias com Maria a um resort lotado de turistas alemães e ingleses. Ao longo do livro, o artista relata as dificuldades e prazeres da convivência com a filha. Antes de tudo, “Maria y Yo” é um contundente manifesto contra o preconceito e em defesa da vida. Gallardo aborda os olhares de crítica e estranheza que ele encontra quando passeia com a filha: “São caras que as pessoas põem quando, por exemplo, Maria começa a berrar no restaurante porque não a deixo comer depressa. Essas caras às vezes me deixam triste e outras vezes, me irritam.”

O livro revela as pequenas descobertas diárias de Maria e desvenda para o leitor um pouco de como se constrói a rotina de uma criança autista: “Na cabeça de Maria, tudo está classificado. Bem ordenado. Há uma caixa para cada coisa. Lhe angustiam as situações inesperadas”.

A psiquiatra infanto-juvenil Amaia Hervas Zúñiga, que assina o epílogo, diz que o maior atrativo de “Maria y Yo” é o fato do livro corrigir muitos preconceitos que rondam as crianças com autismo – uma síndrome que é cada vez mais diagnosticada. Maria não é distante nem fria; mas emotiva e afetuosa. Tudo o que Maria faz tem um significado para ela. Nós também podemos fazer María mais feliz – assim como todas as crianças como ela – simplesmente aceitando-as tal como são: únicas como todos os demais.”

Maria y Yo em vídeo



O projeto de Gallardo foi transformado em filme patrocinado por uma organização espanhola dedicada a defender os direitos das crianças com autismo. O filme, nas palavras do diretor Félix Fernandez Castro, é uma viagem de um pai e uma filha em busca de se comunicarem. Uma história real que nos ensina que uma pessoa com autismo é única, como qualquer outra pessoa.

Além do longa metragem,  a Fundação Orange produziu também um curta de animação que vem sendo massivamente difundido na Internet com o objetivo de difundir o tema entre a opinião pública. Os dois filmes pretendem chegar ao público em geral e também lançam uma mensagem otimista para os pais e familiares de pessoas com autismo. Muita gente vai pensar que é uma mensagem boa e politicamente correta . Não para mim. Para mim é verdade. São incontáveis as coisas que tenho aprendido com Maria.

Curta de animação

Uma pausa para a boa música

O artista Manolo Garcia, ex-integrante do grupo espanhol El Último de la Fila, faz uma fusão entre o rock e a música espanhola e árabe.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Grande Catástrofe - O Massacre dos Armênios


O dia mais terrível para um país é aquele onde, para se sentir unido, a maioria começa a acreditar que se faz necessário eliminar seus cidadãos mais indesejáveis (Antonia Arslan - escritora italiana de origem armena)

O massacre de homens, mulheres e crianças armênios é considerado pelos pesquisadores como o primeiro genocídio planejado da história. Entre 1915 e 1918, cerca de 1 milhão e 500 mil pessoas foram assassinadas, de todos os modos possíveis, pelo exército turco, como parte de uma estratégia deliberada de extermínio e incorporação de territórios. Um dos representantes do governo turco, Nazim Bei, diria: "Se não existissem os armênios, com uma só indicação do Comitê de União e Progresso poderíamos colocar a Turquia no caminho requerido. O Comitê decidiu liberar a pátria desta raça maldita e assumir ante a história otomana a responsabilidade que este fato implica. Resolver exterminar todos os armênios residentes na Turquia, sem deixar um só deles vivo; nesse sentido, foram outorgados amplos poderes ao governo."

O artista italiano Paolo Cossi realizou um trabalho de pesquisa sobre o tema e conta em 144 páginas a história do massacre. O trabalho do quadrinista não segue o rigor da abordagem jornalística de Joe Sacco, tampouco consegue alcançar o status dos romances de fundo histórico como: "Café Budapest", "Berlim Cidade de Pedras" ou "Berlim Cidade da Fumaça", "O Gato do Rabino", "O Grito do Povo", "A Guerra de Trincheiras", entre outros clássicos dos quadrinhos mundiais. Mas tem o mérito inegável de resgatar para as novas gerações uma das passagens mais sombrias da história. O leitor de "La Gran Catástrofe" não vai encontrar um traço requintado ou personagens densos e sofisticados. A estrutura narrativa do livro também é convencional e o traço, bastante ingênuo. Mas  Paolo Cossi consegue produzir uma obra no mínimo curiosa e didática... vale a pena conferir.

Para conhecer mais sobre o genocídio do povo armênio, assista a esta série de documentários produzidos pelo History Channel 




sábado, 6 de novembro de 2010

Quadrinhos censurados pela ditadura de Franco


Esta nota vem do site espanhol El Reservado...

Hasta ahora, se han publicado estudios sobre los efectos de la censura en el cine, la literatura, la radio o la prensa, pero éste es el primer libro que analiza en profundidad los efectos de la censura franquista contra las publicaciones infantiles y juveniles.

También los tebeos sufrieron, como el que más, los efectos de la censura. Las mayores coacciones llegaron a partir de los años cincuenta, cuando el ministerio de Información y Turismo elaboró una serie de normativas que editores, dibujantes y guionistas debían acatar. Dichas normativas recomendaban “no confundir hadas con ángeles” o prohibían rotundamente cuestionar la autoridad paterna.

Vicent Sanchis Llàcer (Valencía 1961) se ha dedicado durante tres décadas al periodismo. Ha dirigido las revistas El Temps y Setze, y los diarios El Observador y Avui. También ha trabajado en televisión como guionista y director de programas culturales. Actualmente colabora en algunos medios como articulista y es profesor de la facultad de Comunicación Blanquerna de la Universidad Ramon Llull.

Ha escrito Franco contra Flash Gordon (la censura franquista aplicada a les publicacions infantils i juvenils), con el cual ganó el premio Joan Fuster de ensayo. También ha comisariado numerosas exposiciones centradas en el mundo de los cómics.

Tardi e a mãe de todas as Guerras

 
A canção de Craonne (1917)
Adeus à vida, adeus ao amor
Adeus a todas as mulheres
Tudo terminou, para sempre
Desta guerra infame
 

Eis Craonne sobre a bandeja
Todos os grandes que fazem a festa
Se para eles a vida é rosa
Para nós não é a mesma coisa
o invés de se esconder todos os aproveitadores
Fariam melhor de subir às trincheiras
Para defender seus bens, pois nada temos
Nós, os pobres desgraçados
Todos os camaradas aqui enterrados
Para defender os bens dos senhores
Os que têm o dinheiro, a eles retornarão
Porque é por eles que morremos
 

Mas tudo acabou, pois os soldados rasos
Vão todos entrar em greve
Será a vossa vez, grandes senhores
De subir à bandeja (de Craonne)
Porque se querem fazer a guerra
Paguem-na com a vossa pele


Canção de Craonne


Canção de Craonne (pequena cidade ao norte da França) é um clássico da música francesa que há gerações vem sendo usada como símbolo dos movimentos anti-belicistas. A origem da música é praticamente desconhecida. Ela narra a luta entre soldados franceses e alemãs no Chemin des Dames (Caminho das Damas) nos primeiros dias da ofensiva de abril de 1917 e que resultaria no massacre das forças francesas. A canção não só aborda a inutilidade e brutalidade das guerras como expõe a verdade por trás dos uniformes, desfiles, medalhas e hinos. A força da música é tão grande que cantá-la em público nos campos de batalha da primeira guerra poderia levar um soldado ao paredão por insubordinação; e a sua reprodução pública permaneceu proibida até 1974. Agora os franceses e todos aqueles que defendem o fim de todas as guerras têm mais um vigoroso argumento em sua defesa. Uma obra de arte que já surgiu como um documento definitivo: “Puta Guerra!”, do artista f rancês Jacques Tardi.


Uma Guerra esquecida
A Primeira Guerra Mundial tornou-se uma passagem da história praticamente esquecida nos últimos 90 anos. A eclosão de novos e mais violentos conflitos praticamente arrancaram este acontecimento da memória mundial. Entretanto, apesar do esquecimento a que foi relegada, a Primeira Grande Guerra tem uma importância inquestionável para a história da humanidade. Tanto que alguns historiadores a chamam de: a mãe de todas as guerras. Nenhum outro conflito, até aquele momento, poderia ser comparado a ela, seja  em volume de perdas humanas, devastação, letalidade das armas ou número de países envolvidos.

Desde os primeiros dias, os movimentos da Guerra ficaram marcados por um equilíbrio de forças que levaram a uma disputada violenta por pequenos avanços no terreno. Era a Guerra de Trincheiras, onde os exércitos franceses, alemães, ingleses e de outros países ficavam anos inteiros enterrados no chão em valas cheias de lama, ratos e corpos despedaçados. As condições de vida dos soldados era tão terrível que centenas deles nunca mais voltaram a andar de forma ereta.


O Horror da Guerra em quadrinhos

O artista Jacques Tardi é um aficcionado pela Primeira Guerra. Quando criança, ele ouvia as histórias do avô, um ex-combatente francês, que o marcaram profundamente. Tardi já havia revisitado a guerra em outros trabalhos (ver comentário já publicado aqui no Nona Arte). Mas nada comparado ao nível de excelência alcançado por ele e o seu parceiro no roteiro, Jean Verney, em “Puta Guerra!”.

A edição espanhola, publicada pela Norma Editorial, a qual o blog Nona Arte teve acesso, traz em 101 páginas de quadrinhos e mais um bônus de 42 páginas, um resumo dos fatos mais importantes da Guerra entre 1914 e o armstício em 1919. Diferentemente do livro Guerra das Trincheiras, Puta Guerra não tem diálogos. Toda a história é narrada por um soldado francês que atravessa todos os anos do confllito e consegue sobreviver. O olhar atento desse narrador onisciente revela o absurdo das ordens de oficiais despreparados, os raros e surpreendentes encontros amistosos entre inimigos, a presença de soldados africanos destacados para defender seus senhores coloniais (franceses e ingleses), a rotina da vida nas imundas trincheiras, a tragédia de jovens mutilados, a ampliação do poder de fogo das armas, os pelotões de fuzilamento, os ataques aos civis, os mutilados... Diferentemente do que havia feito em "A Guerra de Trincheiras" ou em "O Grito do Povo" (seu único trabalho editado no Brasil), neste novo trabalho, Tardi não cria histórias ficcionais dentro da trama ou o faz de modo muito suscinto. Nesses outros projetos, o autor cria personagens que desfiam seus dramas pessoais tendo como contexto ou pano de fundo os fatos históricos (I Guerra ou a Comuna de Paris). Desta vez, foi como se Tardi quisesse dar um tom mais documental ao projeto. Ele parece mais preocupado em dar ao leitor uma visão ampliada dos horrores da guera do que em buscar uma "identificação" entre o leitor e as histórias humanas e "verdadeiras" dos seus personagens.

Tardi realiza amplas e minunciosas pesquisas sobre fotos e documentos da época. Para conceber seus desenhos, o autor também vasculha museus para ver pessoalmente objetos, fardamentos, armas e outros subsídios para seus desenhos. O processo de criação do quadrinista está registrado em um documentário que acompanha a versão espanhola.




O trabalho de Jacques Tardi é um apelo eloquente para que a 1ª Grande Guerra jamais seja esquecida. Sua narrativa é cruel e verdadeira. Nada de romances ou atos grandiloquentes que vemos nos filmes... Não há nada de belo em uma guerra, nada do que se vangloriar, parece nos dizer Tardi.

Esperamos que o bom momento que o mercado editorial de quadrinhos vive no Brasil seja uma oportunidade para que alguma das editoras nacionais se motivem a lançar Puta Guerra também por aqui.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Mestre dos Magos

Apesar do Jô Soares, vale conferir esta entrevista de Will Eisner em uma visita sua ao Brasil em 1999 (quando o programa ainda era transmitido pelo SBT). O mestre e criador do conceito de graphic novell fala sobre seu processo criativo e sua relação com Nova Iorque. 
 

Parte 1


Parte 2

Tintin chega ao cinema pelas mãos de Spielberg e Peter Jackson


A notícia é uma novidade mundial e promete causar reboliço entre os amantes dos quadrinhos: os diretores e produtores Steven Spielberg e Peter Jackson estão juntos na produção do filme The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn. O filme será uma animação em 3D. Foi a forma, segundo Peter Jackson, de manter-se o mais fiel possível à obra de Hergé. Agora é aguarda para conferir. A estreia mundial do filme ainda não tem data agendada...

 

terça-feira, 26 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

História em quadrinhos incentiva a adoção em Recife

Esta notícia vem de Pernambuco.


"Tudo o que eles precisam é de um novo lar. Crianças abandonadas ou mesmo órfãs de pai e mãe sobrevivem à mercê das condições precárias de casas de amparo ou abrigos públicos. Conhecer a legislação e conscientizar a população para o hábito da adoção é um dos objetivos da revista “Adoção em Quadrinhos”, lançada hoje pela manhã no Fórum Tomás de Aquino, no bairro de São José, no centro do Recife.

A revista conta com textos e linguagem acessíveis para todas as idades e classes sociais. As histórias em quadrinhos discutem boa parte da legislação brasileira sobre adoção. Todo esse material foi idealizado pela juíza da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) Ana Paula de Lira e conta com desenhos do ilustrador Lucas Veríssimo. A produção em quadrinhos teve uma tiragem inicial de 8 mil exemplares e será distribuída gratuitamente em hospitais públicos e particulares do estado, além de associações de moradores e escolas do estado.

Segundo a juíza da Ceja, a revista também integra as comemorações dos 20 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em Pernambuco. Para ela, com a implantação da nova legislação o perfil dos pais adotivos no Brasil mudou. “Antes da criação do cadastro  nacional, os candidatos à adoção preferiam crianças com menos de dois anos de idade. Hoje, essa perspectiva é outra, pois, já é possível observar pais que adotam grupo de irmãos de uma mesma família”, frisa.

Mas, a importância desse material é esclarecer, ainda, a população para a adoção de crianças dentro da própria família. Segundo a psicóloga do Ceja Tereza Figueiredo, este é o ponto forte do Novo Estatuto. “Fazemos o máximo para que uma criança fique com um tio ou avó caso os pais não possam ficar. Mas, quando isso não é possível, cadastramos a criança no banco de dados e verificamos o perfil do candidato para adoção”, pontua.

Com a implantação da Nova Lei da Adoção, no ano de dois mil e nove, houve também a diminuição das adoções internacionais, na qual pessoas residentes no exterior adotavam crianças do Brasil na ausência de candidatos do próprio país. Segundo dados da Ceja, só no estado de Pernambuco, no ano de 1993, foram realizadas 61 adoções internacionais. Porém, atualmente com a nova lei em vigor, foram registrados em 2009 apenas 25 adoções de crianças para países estrangeiros."

Do site do Diário de Pernambuco

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O casca-grossa chega aos cinemas



Goon é um personagem criado pelo artista americano Eric Powell. A história conta as aventuras de um anti-herói, abandonado na infância pelos pais e que acaba se impondo pela força e se tornando o "dono do pedaço" em uma cidade povoada por fantasmas, zumbis , seres extra-dimensionais, aliens e cientistas loucos.

Com um traço envolvente e um humor politicamente incorreto, Goon tornou-se um sucesso editorial e já conquistou o Eisner Award (o maior prêmio dos quadrinhos americanos) em 2004, 2005 e 2008. O lançamento de um filme com as histórias do casca-grossa foi anunciado em 2008 no site oficial do personagem e o trailler oficial do filme chegou à internet no último mês de julho. Agora é aguardar e - com muita sorte - assistir o filme no Brasil

As aventuras de Adéle Le Blanc


Os cinemas brasileiros devem começar a exibir esse mês o mais novo filme do diretor francês Luc Besson: As aventuras extraordinárias de Adèle Le Blanc-Sec. Desconhecida do público brasileiro, a personagem criada pelo quadrinista francês Jacques Tardi é extremamente popular entre os leitores de quadrinhos europeus.

Adèle é uma escritora com um enorme talento para detetive e que se defronta com os casos mais estranhos na Paris do início do século XX. A personagem faz sua primeira aparição em 1976, em uma série publicada no jornal Sud-Ouest (Adele e a Besta). O quadrinho apresenta a capital francesa assolada por um espantoso pterodátilo que ressuscitou do Museu de História Natural. Já, desde sua primeira história, as características da saga ficaram muito bem delimitadas: a detalhada descrição histórica, uma alta dose de ficção científica e a constante presença de elementos sobrenaturais. (Alguma semelhança com Indiana Jones?)


O sucesso da primeira história foi tanto que Tardi se viu compelido a criar uma nova aventura para a personagem. No mesmo ano foi lançada "O demonio na Torre Eiffel". A história começa pouco depois do primeiro episódio. Nela, uma valiosa estátua do demônio Assírio foi roubada por adoradores de uma seita satânica. O terceiro capítulo da série "O Sábio Louco" foi lançado em 1977 e mostra a experiência de cientistas loucos determinados a ressuscitar um homem das cavernas descoberto congelado na Sibéria.

A quarta história "Múmias Enlouquecidas" - lançada em 1978 - transcorre em 1914. Simultaneamente todas as múmias de Paris desaparecem sem deixar rastros. No fim desta história, Adèle termina congelada. Três anos depois Tardi lança "O Segredo da Salamandra" e em 1985 "O afogado de duas cabeças" - ambientada no fim da Primeira Grande Guerra.

Em 1994 é publicada "Todos os Monstros" e em 1998 a última história da saga (até o momento): "O Mistério das Profundezas". A próxima história não tem data para ser lançada, mas já tem nome: "O labirinto infernal".

Tardi, um pessimista?

Jacques Tardi é conhecido no Brasil pela fantástica história da Comuna de Paris. Fora do Brasil o autor tem uma verdadeira legião de seguidores é é considerado um dos maiores expoentes dos quadrinhos mundiais. Nascido em 1946, o artista passou a infância ouvindo as histórias do avô que havia lutado na primeira Guerra Mundial e lendo histórias de Tintin.

Quando perguntam a ele porque suas histórias transmitem uma sensação tão pessimista, Tardi responde: "Eu tenho dificuldades para ser otimista, porque a guerra parece continuar alegremente, o homem é apaixonadamente aficcionado pela ideia de estripar o seu próprio vizinho. Não exagero, é o que vejo na televisão todos os dias. Eu queria ser um otimista, mas é bastante dificil".

Confira um excelente vídeo que associa cenas do filme de Luc Besson a o quadrinho de Tardi:

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A pé em Gaza - Palestra de Joe Sacco sobre o seu mais recente trabalho

Confira a palestra proferida por Joe Sacco (o criador do conceito de jornalismo em quadrinhos) na Powell's City of Books em janeiro deste ano. O artista fala sobre os primeiros dias dos campos de refugiados de Gaza - após a criação do estado de Israel. Sacco relata o drama dos refugiados palestinos expulsos de suas casas, sem seus bens e que encontram pela frente nada além de areia.

Mais do que isso, Sacco realiza uma cuidadosa investigação sobre um dos piores crimes cometidos por soldados israelenses contra palestinos: o massacre de 111 pessoas na região da fronteira com Egito, em 1956. A história caiu no esquecimento da opinião pública mundial e só agora é resgata pelo trabalho do jornalista e quadrinista (já comentado no Nona Arte). O relato de Sacco consegue transformar o mais dramático conflito da nossa era em uma experiência pessoal e única ao seu universo de leitores.
 



Joe Sacco - Footnotes in Gaza, Jan. 12, 2010 from pdxjustice Media Productions on Vimeo.

sábado, 9 de outubro de 2010

Beatles e Quadrinhos - Parte II

Para aqueles que curtem Beatles e quadrinhos e dificilmente têm como desembolsar algumas centenas ou milhares de dólares para comprar os comics lançados nos anos 60 e 70 sobre os garotos de Liverpool, o Nona Arte encontrou uma dica imperdível.

O site Beatle Web apresenta a história de Paul, John, George e Ringo em uma série em quadrinhos de oito capítulos. O mais interessante é que todas as histórias estão totalmente disponíveis para download. O autor do site, Juan Carlos Mazas, dedicou oito anos de trabalho ao projeto. O texto original é espanhol. A versão para inglês foi feita com a ajuda do músico Rod Davis - fundador da primeira banda de John Lennon - The Quarrymen.


O primeiro volume "O Sonho" fala sobre o nascimento do Rock and Roll e os primeiros passos de John com a guitarra, a criação do grupo Blackjacks - que depois se chamaria The Quarrymen - e os primeiros contatos com  Paul McCartney. O segundo número "A Ambição" mostra a chegada de George Harrison ao grupo a saída de outros músicos do Quarrymen e a morte da mãe de John: Julia. "A Constância" é o terceiro episódio da série. Bill Harry, amigo de John, apresenta Stuart Sutcliffe. John e Paul formam um duo - Nerk Twins. Eles começam a tocar com Ken Brown no The Casbah. Com a expulsão de Ken, o grupo passa a ser formado por John Lennon, Paul McCartney e George Harrison e muda seu nome para Johny and the Moondogs. Depois disso, John Lennon convence a Stuart Sutcliffe para que compre um baixo. Stu entra no Quarrymen.

"A reta" é o quarto número da saga. Os garotos conhecem a Allan Williams que será o novo agente do grupo. Eles mudam seu nome para The Beatals.Tommy Moore entra no grupo como baterista.O grupo muda de nome mais uma vez para The Silver Beetles e fazem uma turne pela Escócia. O volume termina com a chegada de Pete Best.O quinto número "A Formação" mostra a primeira viagem para Hamburgo, agora como The Silver Beatles. Eles conhecem Astrid Kirchherr, Klaus Voorman y Jürgen Voolmer. Depois disso chegam ao nome que os consagraria. Astrid Kirchherr faz as primeiras fotografias dos The Beatles. Stuart Sutcliffe fica em Hamburgo com Astrid Kirchherr.


"A conquista"mostra a chegada de Chas Newby como baixista provisório dos Beatles. Depois disso, Paul McCartney começa a tocar o instrumento e se torna o baxista oficial da banda. Eles fazem a segunda viagem a Hamburgo. Conhecem Tony Sheridan e gravam um disco para a  Polydor. Allan Williams deixa de ser o gerente do grupo. O sétimo volume "O impacto" mostra a viagem de John e Paul a Paris para ver o amigo Jürgen Voolmer.Eles conhecem Brian Epstein que se torna o gerente da banda. Stuart morre de uma paralisia cerebral.

O último episódio "O Exito" mostra o grupo tocando no Star Club. Eles cohecem George Martin e gravam quatro músicas para a EMI. Eles gravam uma apresentação no Cavern Club e seu primeiro single para a Parlophone. Um número ainda inédito mostra a chegada de Ringo e a chegada dos Beatles à fama...

Esteticamente a série não corresponde à importância da história. O traço de Juan Carlos é um tanto infantil, grosseiro... Em termos de linguagem narrativa o autor também é previsível. A abordagem é muito convencional . Por isso, não espere muito da série neste aspecto. Por outro lado, o cuidado e rigor histórico compensa as fragilidades estéticas... A série é uma excelente oportunidade para quem busca conhecer melhor a história da banda que mudou para sempre o cenário do rock e da música mundial.

Confira abaixo uma animação feita por Juan Carlos, a partir dos desenhos da série:

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pausa para a boa música - John Lennon

Beatles Forever - Parte I



No dia em que John Lennon completaria 70 anos, duas paixões se econtram: Quadrinhos e Beatles... O Nona Arte vasculhou e descobriu algumas preciosidades. Confira:

O site Beatle Comics mostra parte do acervo de mais de 100 revistas - algumas raríssimas - integralmente dedicadas aos garotos de Liverpool ou com participações especiais dos Fab Four. Entre as pérolas apresentadas no site, destacamos:

Marvel Super Special Number 7 – Esta revista é tão rara que é considerada um "Santo Graal" entre colecionadores. Quase uma lenda. Ela sequer é listada na Overstreet Comic Guide, considerada a "Bíblia" de pesquisadores e fãs de Comics. O próprio autor da revista - o celebrado artista George Perez - afirmou que, há tempos, ele próprio não tem notícia desse trabalho. O preço estimado hoje para a revista é de 10 mil Libras. 


The Beatles - Complete Life Stories - Essa é provavelmente a segunda mais rara e difícil história em quadrinhos sobre os Beatles. Ela está avaliada em US$ 600,00. A revista foi lançada entre setembro a novembro 1964 pela editora Dell Publishin. A versão inglesa é mais difícil de encontrar que a sua similar americana.


Beatles Yellow Submarine - A obra do artista Paul S. Newman foi publicada em 1968. A revista é uma adaptação do filme de animação homônimo lançado no mesmo ano. Você pode conferir a história e fazer o download da revista no site Bordel do Rock.

Batman 222 – Um trabalho do artista Neal Adams (um dos maiores criadores de histórias de Batman). A história explora uma teoria da conspiração sobre a suposta morte de Paul McCartney, em 1969, em um acidente de carro e sua substituição por um sósia. A revista foi publicada em junho de 1970. O artista Frank Robbins alterou os nomes dos personagens para evitar problemas. Em lugar de Beatles a banda se chama "Oliver Twists" e os dois compositores (John e Paul) tiveram os nomes alterados para Glennan e Saul. Entretanto, as referências são inconfundíveis, como o fardão de Sgt. Peppers. Assim como na célebre capa do disco, a capa da HQ é cheia de "indicações misteriosas".

sábado, 2 de outubro de 2010

Quadrinhos em sala de aula



Este editor do Nona Arte localizou, em meio a buscas no universo dos quadrinhos na internet, um Blog fantástico que tenho o prazer de indicar aos amigos leitores. Essa dica vale para todos os fãs de quadrinhos, mas em especial para professores do ensino fundamental e médio.

Escrito pelo professor e estudioso de Comics americano Chris Wilson, o blog The Graphic Classroom é uma fonte para professores e bibliotecários que buscam selecionar quadrinhos e novelas gráficas para estudantes e compor o acervo de bibliotecas. Por seu trabalho inédito Chris conquistou o prêmio “Top Children Book Blog”.

Chris Wilson escreve uma resenha para cada graphic novel ou revista e confere uma nota para cada título publicado no Blog, além de uma indicação de idade a qual a história se destina. Além das resenhas, Chris reúne ainda artigos diversos sobre a narrativa em quadrinhos e indicações sobre como estimular a leitura de comics em sala de aula.

Em uma entrevista a um jornal americano o professor revela que ele próprio achava que quadrinhos era algo estúpido e infantil... até o nascimento de sua filha. Nesse momento, Chris começou a pensar em como se conectar com ela. “Como eu faria para transmitir algumas das coisas em que acredito e gosto? Neste momento ele resgatou o contato com a leitura dos quadrinhos.

Quando Chris decidiu voltar à escola para fazer seu mestrado ele sabia que a literatura em quadrinhos seria o seu objeto de estudo. Ele começou a estudar e decidiu buscar uma forma de passar a outros pesquisadores as suas descobertas. “O ineditismo desse tema assusta as pessoas. Elas não querem que seus filhos sejam expostos a esse tipo de leitura. Os pais dão aos filhos Shakespeare, mesmo sabendo que suas obras contém sexo, drogas, venenos, assassinatos e coisas assim. Mas, tudo bem... afinal, são clássicos.” – diz Chris.

O trabalho de Chris logo se tornou conhecido e começou a gerar repercussão junto aos outros professores que puderam constatar o aumento do nível de leitura dos seus alunos. Ele afirma que o maior impacto da literatura em quadrinhos é motivar as crianças a ler. “Quando e estudei literatura, descobri que oferecer escolhas é a melhor forma de estimular a leitura. Entretanto, a maioria dos professores não permitem escolhas na sala de aula. Nós lhes damos esta opção e as crianças começam a ler. Eu acredito firmemente que quando as crianças pegam quadrinhos elas naturalmente começarão a ler outras formas de literatura. Eu simplesmente uso os comics como ponte”, afirma.

Imperdível: Mafalda e Quino em documentário argentino

Essa é imperdível: 

Uma sequência de três videos que integram uma série de documentários sobre os quadrinhos argentinos. Os documentários são apresentados por Juan Sasturain, renomado jornalistas, escritor, roterista de quadrinhos e diretor de TV argentino.

O documentário é dedicado a Quino e sua Mafalda... Confira:


Parte 1




Parte 2



Parte 3

Charlie Brown completa 60 anos


O universo dos quadrinhos está comemorando aniversário hoje (2 de outubro). Há 60 anos, uma das mais importantes criações da Nona Arte - Peanuts de Charles M. Schulz, tinha sua primeira tirinha publicada em sete jornais americanos.

Desde então Charlie Brown e seus amigos Snoopy, Lucy e Linus apareceram em mais de 2 mil jornais de 72 países e em 21 idiomas. A última tira inédita foi publicada em fevereiro de 2000, um dia depois da morte do Schulz.

Pausa para a boa música - Cat Stvens ou Yusuf Islam

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

História de massacres


Entrevista foi publicada originalmente no jornal O Estado de S.Paulo

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo



Um breve relatório da ONU, datado de 13 de novembro de 1956, dava conta de rumores de atrocidades na Faixa de Gaza. Questionada, a então ministra de Assuntos Exteriores de Israel, Golda Meir, confirmou o registro de “algumas baixas” entre palestinos após uma tentativa de pilhagem. Era situação resolvida, afirmou.
Teria sido também esquecida se, quase meio século depois, uma citação àquele relatório da ONU em um livro de Noam Chomsky não tivesse chamado a atenção do maltês naturalizado americano Joe Sacco. 

Desenhista autodidata e jornalista por formação, pioneiro do chamado jornalismo em quadrinhos, Sacco resolveu investigar o caso a fundo. Era algo que já havia feito com passagens mais recentes da história na graphic novel Gorazde, sobre a Bósnia, e em Palestina, pela qual ganhou, em 1996, um American Book Award.

Ao revirar arquivos e entrevistar mais de 100 pessoas envolvidas, Sacco descobriu que os rumores se referiam a dois massacres ocorridos nas cidades de Khan Younis e Rafah, em 3 e 12 de novembro de 1956, quando foram mortos a tiros, respectivamente, 275 e 111 civis palestinos.

Eram crimes que poderiam passar despercebidos em meio ao intermináveis conflitos no Oriente Médio, mas que, em Notas Sobre Gaza, lançada no ano passado em língua inglesa e que sai neste semestre pela Quadrinhos na Cia., ganha contornos tão humanos quanto difíceis de acreditar. Em conversa por telefone com o Estado, de Portland, onde vive, Sacco falou sobre o trabalho que lhe tomou sete anos entre pesquisa e realização. Veja trechos a seguir.

No livro, vários palestinos dizem que o que aconteceu em 1956 não era importante. Por que tinha tanta certeza de que era?

Os massacres em si eram importantes. Na história do conflito entre palestinos e israelenses, os dois incidentes estão entre os maiores com morte de civis. O de Khan Younis teve o maior número de mortes de civis num único dia em solo palestino. Se os sobreviventes estavam vivos, por que não falar com eles em vez de apenas confiar nos poucos parágrafos do relatório da ONU, que não esclarecem o que houve? Mas ainda há outro lado. Os incidentes fazem parte de um continuum de ataques. As pessoas mais novas, especialmente, perguntavam: “Por que quer saber dessas histórias velhas com tudo o que está acontecendo?” O ponto é que, como jovem no Oriente Médio, você não digere o que aconteceu porque há sempre algo novo sendo enfiado goela abaixo. É triste alguém pensar que não vale a pena olhar para trás.

Mas, entre os mais velhos, havia interesse em falar das guerras de 1948 e 1967.

Sim, isso é verdade. Também acontecia de eles confundirem períodos. Houve tanta coisa difícil na história deles que às vezes eles não sabiam mais dizer o que aconteceu e quando.

Como foi o trabalho de filtrar depoimentos contraditórios?

Bem, você tem que olhar para as lembranças de pessoas sobre o que aconteceu há 50 anos com… não diria ceticismo, mas é preciso olhar de perto para dizer o quanto é de fato verdadeiro, o quanto do que outras pessoas disseram a elas passa a fazer parte das memórias delas também. Não é que não confiasse nelas, mas fiz questão de mostrar em Notas Sobre Gaza essas contradições nos depoimentos para que o leitor conhecesse um problema que enfrentei. O que importa é que o arco da história é real. Algumas pessoas se confundiram, outras disseram coisas que não encaixam na história, mas o arco é real.

Foi difícil achar ex-soldados israelenses dispostos a falar?

Sim, muito. Falei com militares e pesquisadores israelenses que tentaram me ajudar, e também fiz buscas em arquivos. Dois comandantes com quem falei disseram não se lembrar de nada daquilo. Não disseram que não aconteceu, disseram que não se lembravam. Eu questionava às pessoas como podia saber mais sobre o assunto e me recomendavam algum historiador. Daí o historiador dizia que talvez tivesse ouvido algo, mas que não tinha examinado mais detidamente. Minha esperança é que o livro possa fazer as pessoas se voltarem a esse assunto.

Você não teria interesse em retratar como se sentem os israelenses em meio aos conflitos?

Sei que eles sofrem, não há dúvida. A sociedade israelense também sofre com os atentados de palestinos, um lado alimenta o ódio no outro. Mas moro nos EUA, onde a história do lado israelense é muito bem contada, todos conhecem. Aqui, é do lado palestino que nunca se fala. Quero falar das pessoas que saíram como perdedoras na história. Nos EUA, em especial, a palavra palestino é associada ao terrorismo. Quero mostrar o contexto do que acontece. Poderia escrever sobre o lado de Israel, mas sobre isso é possível ler o tempo todo nos jornais.

Houve reações fortes a Notas Sobre Gaza em Israel?

Não repercutiu muito. Uma jornalista israelense escreveu um longo artigo sobre o livro e aquele período. Não soube de muitas reações. Um dos comandantes com quem falei disse à Associated Press: “Isso nunca aconteceu”. Vi as notas da nossa conversa, e ele não tinha negado. Disse só que não tinha ouvido falar. O que é diferente.

Além de resgatar o passado, você relata fatos no presente, como as demolições de casas palestinas próximo à fronteira por forças israelenses…

Bem, não podia deixar de fora o que estava vendo porque, em última instância, eu estava lá e vi tudo. Alguém tinha que registrar aquilo de alguma maneira. As demolições agora também fazem parte da história.

Houve algum trecho específico da história que tenha sido mais difícil de retratar?

Perto do final, quando mostro as pessoas pegando os corpos depois dos massacres, as mulheres removendo os corpos. Foi muito difícil. Tive que fazer daquilo uma passagem curta porque me senti nauseado de desenhar tantos cadáveres, era uma coisa tão repulsiva…

Mas, mesmo com o traço tão realista, com imagens que chocam, você evitou uma certa morbidez que seria possível ao retratar os massacres.

Bem, não queria esfregar tudo na cara dos leitores. A coisa boa do desenho é que serve como filtro. Não sei quanto a você, mas se eu visse um filme com aquelas imagens… É de deixar doente. Mesmo fotografias, seria difícil ver um livro com fotografias de situações como aquelas. Com desenho, não se pode dizer que seja agradável, mas é possível olhar. Além disso, até onde sei, não há fotos daqueles massacres. Com o desenho, com acesso a fotografias de como eram as pessoas ou os campos de refugiados, você pode até certo ponto recriar isso.

Esse cenário conflituoso você já tinha retratado em Palestina. Como começou a se interessar por aquela região?

Quando estava no colégio, eu associava palestinos com terrorismo porque toda vez que ouvia falar neles tinha a ver com bombas ou ameaças. Então fui estudar jornalismo, e, quando comecei a entender o que acontecia no Oriente Médio, me dei conta: os americanos sempre se colocaram como os grandes expoentes do jornalismo, mas nunca me contaram direito o que está acontecendo. Eu me senti traído pela minha profissão. Então, nos anos 80, quis tirar essa história a limpo. Não estava certo do que veria, mas achei que podia retratar minhas experiências na Palestina.

E foi daí que veio a ideia de fazer jornalismo em quadrinhos?

Bem, Palestina foi o primeiro exemplo disso. Não estava pensando em criar uma nova… forma de arte ou seja o que for. Não foi uma decisão consciente, foi meio orgânico. Pensei: vou viver essas experiências, falar com as pessoas, anotar e colocar isso junto. É claro, eu tinha o background jornalístico e isso teve impacto no formato que a coisa tomou, mas só depois comecei a pensar mais claramente no que estava fazendo. Foi na história sobre a Bósnia (Gorazde) que comecei a pensar conscientemente em jornalismo em quadrinhos.

Antes disso, quais eram suas influências como quadrinista?

Provavelmente minha maior influência foi Robert Crumb. Meu desenho era meio parecido com o dele e, a certa altura, achei que devia desenhar de maneira mais realista. Não sei, nunca estudei arte, só tentei tornar mais realista. Meus desenhos sempre serão cartuns, porque foi como comecei. Não consigo desenhar melhor do que desenho e está bem assim, acho que está realista o suficiente.

Você teria interesse em criar uma história de ficção?

Sim, tenho grande interesse. Para ser honesto, estou meio cansado de fazer jornalismo. E passei sete anos fazendo esse livro. Há outras coisas que gostaria de experimentar. Algo mais satírico, engraçado, ou um ensaio, teologia, filosofia, não sei bem.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Os maiores clássicos de Batman - Primeira parte

Como eu havia prometido, segue uma rápida reseha de algumas das mais importantes histórias de Batman já lançadas no Brasil. Não deixe de procurar no sebo mais perto da sua casa.

Vítimas inocentes
A história mostra Batman viajando a um país cujo nome lembra as repúblicas do leste europeu, para investigar a morte de um funcionário das indústrias Wayne, vítima de uma mina terrestre, e o desaparecimento de sua filha. Com roteiro de Dennis O’Neil e desenhos de Joe Staton. A história foi publicada originalmente em 1996 pela DC Comics, em parceria com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos e com o Fundo das Nações Unidas para a Infância e distribuída para milhões de crianças na Bósnia, América Central e Kosovo. O rendas pela comercialização da revista foram revertidas a entidades de combate às minas terrestres. A edição brasileira, lançada em 2003 pela Mythos Editora, reúne ainda uma série de informações sobre a campanha mundial pela erradicação de minas terrestres.


Absolvição
Batman empreende uma busca através de três continentes para achar uma mulher que dez anos antes havia sido responsável por um atentado às empresas Wayne. A personagem Jennifer Blake tenta encontrar o perdão para seu crime trabalhando como voluntária no atendimento de crianças e idosos na Índia. A história tem roteiro de J.M DeMatteis e desenhos de Brian Ashmore. Aliás, a arte desta revista é o seu ponto alto. Brian usa um jogo de luz e sombras que confere dramaticidade à narrativa. A edição brasileira foi lançada em 2005 pela Panini.

O Estigma do Batman
Uma inusitada história de Batman onde o homem morcego não aparece uma única vez. O roteiro de Christopher Golden e Tom Sniegoski apresenta um jovem com deficiência mental leve que vive um mundo de fantasia e se considera o próprio herói em pessoa. Para salvar seus amigos em perigo ele enfrenta as gangues do bairro e acaba espancado na rua. Além do roteiro criativo, o traço de Marshall Rogers é refinado, com um toque de humor. “O Estigma...” foi lançado no Brasil pela Mythos Editora em 2002.

O Messias
A história tornou-se um dos maiores clássicos de Batman. Lançada originalmente no Brasil em 1989, “O Messias” foi reeditada em 2007. O roteiro é assinado por Jim Starlin e a arte é de Bernie Wrightson. A história mostra o homem morcego enfrentando um fanático religioso que usa alucinógenos para subjugar uma legião de seguidores. O próprio Batman é submetido a elevadas doses de droga e se transforma em um corrompido seguidor do misterioso líder Blackfire. Messias revelou aos fãs uma face poucas vezes vista do herói.

Batman Ano 100
Publicada em dois volumes, a história do premiado Paul Pope e José Villarrubia mostra o personagem Batman ambientado em uma Gotham futurista, em 2039. Em um mundo totalitário, dominado por uma polícia psíquica, o homem de capa ressurge 100 anos depois da sua primeira aparição como símbolo de um passado de resistência. A revista foi lançada pela Panini e teve como mérito revelar aos leitores brasileiros o trabalho do fabuloso artista Paul Pope.

Batman Houdini
O maior mágico de todos os tempos se une ao maior de todos os detetives. Ambientada no ano de 1907, a história mostra o mágico e Batman juntos para encontra e prender o misterioso assassino de crianças nas ruas de Gotham. O roteiro é assinado por Howard Chaykin e John Francis Moore e os desenhos são de Mark Chiarello. A edição brasileira foi lançada em 1995 e se tornou um item de colecionador.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Camelot 3000 - clássico revisitado



Uma grande notícia! 

A editora Panini anuncia o relançamento de um dos maiores clássicos da História em Quadrinhos: Camelot 3000. Lançada originalmente no Brasil na década de 80, a história tornou-se uma lenda ao lado de Watchmen, V de Vingança, O Cavaleiro das Trevas e Piada Mortal – todas elas publicadas nos anos 80.   

Camelot 3000 traz a história do Rei Artur e sua távola redonda transposta para o futuro. Os autores Mike W. Barr e Brian Bolland criam uma trama revolucionária para a época, inclusive com cenas explícitas de homosexualidade. Com a terra invadida por criaturas alienígenas, Artur e seus companheiros vão travar uma batalha com armas futuristas para salvar o planeta.

Uma pedida imperdível para quem quer ter na estante uma das obras fundamentais da Nona Arte e que influenciou uma legião de artistas nos anos seguintes.

A expectativa fica por conta da qualidade gráfica desta reedição e do preço que a editora deve colocar em capa. A última reedição de Camelot 3000, pela Editora Mythos, foi alvo de muitas críticas pelo preço e pela qualidade da 
revista (papel, tinta...)

Agora é torcer os dedos e aguardar...