sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Relatos Íntimos

Toda grande obra de arte abre ao público múltiplas possibilidades de interpretação. A partir de seu repertório pessoal, cada individuo estabelece uma relação única com a obra, seja um quadro, música, livro... Sobre Fun Home, romance gráfico da escritora americana Alison Bechdel, diversas visões já foram expressas por críticos de literatura ou quadrinhos. Alguns salientaram a maneira como a autora revela a descoberta da sua homossexualidade. Outros destacaram a forma como Bechdel revisita a conflituosa relação com o pai. E há ainda aqueles que ressaltaram a relação dos personagens desta auto-biografia com a literatura, a ponto de – em diferentes passagens do livro – a vida e a obra de grandes autores se fundirem à própria vida de Alison e sua família.

Fun Home conquistou diversos prêmios internacionais, com destaque para o Eisner (Oscar dos Quadrinhos) e o título - pela Revista Time - de melhor livro lançado nos Estados Unidos em 2006. O trabalho de Alison é fantástico em todos os sentidos. A história é envolvente e narrada com coragem e maestria. As referências literárias são feitas sem afetações e elevam a obra ao nível de uma história que é bem mais que uma simples biografia, mas uma viagem pelo mistério da alma humana. Seu traço é limpo e rico em detalhes (algo que, quem ler vai poder conferir, faz todo o sentido no livro). O humor, em meio à toda a crise pessoal e familiar, também é uma marca do romance. O próprio título é uma brincadeira de Alison com as palavras Fun Home (Casa de Diversão) e Funeral Home (Casa Funerária). O pai da escritora era professor de literatura e dono de uma casa funerária (que era a própria casa da família

Em uma entrevista ao G1, Alison revela que o livro consumiu sete anos de trabalho, entre conversas com a mãe e os irmãos e a leitura de cartas e documentos do pai. Ela diz que a mãe ficou chocada com algumas revelações feitas no livro que preferia ter mantido apenas em família. Mas a autora revela, entretanto, que escrever Fun Home se tornou um processo de catarse. O reconhecimento da sua homossexualidade veio junto com a descoberta da homossexualidade do próprio pai e com a morte dele três meses após ela ter dado a notícia de que é lésbica. "Foi uma época muito complicada, um nó de sexo, morte, amor e perda. Escrever o livro era um jeito de voltar atrás e desatar esses vários emaranhados." - diz Bechdel.

Para a escritora, o sucesso do livro está explicado em parte pelo fato de ser uma história real. "Livros de memórias se tornaram uma forma muito popular, e quanto mais reveladores, melhor... Acredito que o apelo está em ser uma história imparcial de uma família com problemas. É sobre amar e odiar um pai ao mesmo tempo, sentimento este que é familiar para muitas pessoas."

Assista a um excelente depoimento de Alison onde ela fala sobre o seu processo criativo. Imperdível!



Aqui, Alison faz uma palestra para estudantes da Universidade de Cornell, no Estados Unidos.

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