sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Uma família em seu labirinto


“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.”
León Tolstoi em Ana Karenina

Os Loony parecem uma família como milhares de outras. Os pais, um casal de classe média americana, criaram três filhos em meio a crises financeiras, álbuns de fotografia, viagens de férias e brigas. Os filhos têm suas diferenças e esquisitices. Mas, no fundo, todos vivem uma aparente normalidade. Até que Maggie e David anunciam que estão se separando após 40 anos juntos; e tudo começa a ruir. Só então, os Loony aparecem como realmente são: entidades flutuantes e separadas uma das outras, como ilhas. “Uma não família”.

Umbigo sem Fundo, romance gráfico do jovem americano Dash Shaw é uma viagem ao universo de uma família moderna, com seus dramas, segredos e conflitos. A partir de uma história aparentemente simples, Shaw constrói uma trama ao mesmo tempo densa e humana. Em sua última semana juntos, os personagens desta tragédia familiar vão descobrir que estão irremediavelmente sozinhos.

O filho mais velho do casal, Dennis, não aceita a separação dos pais e tenta descobrir, de todos os modos, os motivos que levaram ao fim do casamento. Em sua busca, ele acaba descobrindo que a casa da família também esconde seus segredos. A casa dos Loony está repleta de labirintos, passagens escondidas, chaves que abrem compartimentos secretos... como os membros da família, que nunca se mostram totalmente. A trama envolve ainda Claire, a irmã de Dennis, sempre preocupada com os dramas de sua filha adolescente, Jill; Aki, esposa de Dennis e Peter, o filho mais novo de Maggie e David. Tímido e inseguro, Peter é a melhor síntese da família Loony: ele se sente tão desajustado e distante do restante da família, que o autor escolheu desenhá-lo como um personagem metade homem metade sapo.

As 720 páginas do livro passam rápidas e inquietas. Shaw construiu uma história bem estruturada que leva o leitor, de um pulo, até o final. Ansioso pelos encontros e desencontros de cada integrante da família.

O traço de Dash Shaw está longe de um trabalho clássico. Seu desenho é moderno, nervoso, grosseiro e às vezes sujo. Mas é eficiente... O artista demonstra um domínio total da narrativa gráfica. Ele se utiliza de todos os recursos possíveis: páginas em branco, do diferente número de quadros por páginas, da reprodução de cartas e diários e do contraste entre o "barulho" e o "silêncio".

O livro, lançado no Brasil pelo selo Quadrinhos na Cia. (da Companhia das Letras), teve espaço especial na Bienal do livro do Rio de Janeiro, com participação do próprio autor. Seguindo a linha de outros excelentes romances gráficos (Fun Home ou American Born Chinese), Umbigo sem Fundo, que foi lançado no mercado americano em 2008 tem tudo para extrapolar as fronteiras dos quadrinhos e tornar-se também uma referência literária. Sem dúvida o livro já pode ser considerado o melhor comic book lançado no Brasil este ano.

Veja entrevista concedida por Shaw em sua visita à Bienal do Livro

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